Não é só cárie: baianos abandonam dentistas na pandemia e colocam saúde em risco

bahia
26.04.2021, 05:00:00

Não é só cárie: baianos abandonam dentistas na pandemia e colocam saúde em risco

Afastamento dos consultórios pode causar perda dos dentes e danos à saúde

Em momentos como o que vivemos, o jornalismo sério ganha ainda mais relevância. Precisamos um do outro para atravessar essa tempestade. Se puder, apoie nosso trabalho e assine o Jornal Correio por apenas R$ 5,94/mês.

O impacto da pandemia do novo coronavírus também chegou aos consultórios odontológicos. Em Salvador, dentistas relatam uma redução de até 50% nos atendimentos. O resultado disso, de acordo com a Federação Dentária Internacional (FDI), são problemas mais simples tomando grandes proporções, aumentando -  até mesmo -  número de casos de perda de dentes.

Na capital, entre março e junho de 2020, os procedimentos eletivos (não urgentes) de saúde bucal foram suspensos por decreto da prefeitura. Mas, mesmo quando liberadas, as consultas odontológicas eletivas tiveram baixa procura. O periodontista Leonardo Gomes, da clínica Totallis, diz que seus atendimentos sofreram queda de cerca de 50%. Antes da pandemia, ele realizava até 20 consultas por dia; hoje, são no máximo 10. 

Quer ler mais conteúdos exclusivos para assinantes? Acesse: https://www.correio24horas.com.br/area-do-assinante/

“O atendimento diminuiu bastante entre junho e outubro, mais ou menos. Depois de um tempo, comecei a perceber que algumas pessoas chegavam para mim com condições bucais bem comprometidas e falando ‘ah, eu já estava sentindo essa dor ou já estava com essa inflamação na gengiva há muito tempo’ ou ‘eu sabia que tinha que retornar, mas não vim antes porque estava com medo’. A grande maioria dos pacientes que recebo vai ao consultório quando não tem mais jeito”, diz Gomes. 

O periodontista também conta que, de novembro a fevereiro, o fluxo de pacientes aumentou, mas sem retornar à normalidade. Porém, desde março, com a alta de casos de covid-19, os atendimentos já sofreram uma nova queda. O profissional ressalta a importância da ida periódica ao dentista. “Se uma pessoa não faz uma boa higienização bucal, acontece o acúmulo de tártaro, que passa da gengiva e atinge os ossos que circundam os dentes e isso causa inflamação, sangramento e, quando não é tratado, os dentes começam a amolecer e podem cair”, explica Gomes. 

O periodontista Leonardo Gomes tem atendido pacientes que adiaram a ida ao dentista e desenvolveram problemas gengivais (Foto: Arquivo pessoal)

A endodontista Margareth Muniz, que atende em uma clínica particular no Centro Médico da Pituba, também relata que a quantidade de atendimentos, desde o início da pandemia, já sofreu redução de ao menos 50%. “A procura ainda não voltou ao normal. Eu acredito que seja um misto de medo da contaminação e consequência da crise econômica. As pessoas estão cortando gastos, inclusive, com a saúde bucal”, opina.  

“Já aconteceu de um paciente que teve indicação de fazer canal e postergou isso por meses acabar desenvolvendo um abscesso. Se um abscesso desses, que é um foco de infecção, chegar à uma celulite, pode até levar o paciente a óbito. As pessoas que têm comorbidades, como os diabéticos, por exemplo, precisam ter cuidados redobrados com a manutenção da saúde bucal”, alerta a endodontista.  

A endodontista Ingrid Gulias, cuja clínica na qual atende leva seu nome, também registrou queda na procura por atendimento no ano passado, mas, após a demanda reprimida, pacientes buscaram seu consultório com problemas como cáries, doenças gengivais e necessidade de extração. Quanto aos tratamentos de canal, a dentista registra cerca de 25% de aumento na procura. "Também é importante que o paciente tenha consciência de que não pode abandonar o tratamento de canal antes da conclusão com a restauração final do dente porque qualquer foco de infecção não tratado pode evoluir para gravidade", afirma.

Para uma das pacientes da ortodontista Júlia Torres, da clínica Spazio Oral, sentar na cadeira, retirar a máscara e ficar de boca aberta cara a cara com o dentista, nas circunstâncias atuais, era algo fora de cogitação. Mas o receio da contaminação por covid-19 acabou levando ao comprometimento da sua saúde bucal. “Ela ficou com muito medo de sair de casa durante a pandemia e agora está com recessões gengivais, trincas gengivais e perda dentária. Ela desenvolveu uma cárie pequena e não buscou atendimento, aí a cárie cresceu e a paciente precisou remover o dente porque não tinha mais como salvá-lo”, conta a dentista.

E somente uma boa escovação, muitas vezes, não é suficiente para evitar problemas como a cárie. Foi esse o caso da empresária Gabriela Monteiro, de 37 anos. Ela é daquelas pessoas que batem ponto no consultório do dentista com frequência rigorosa e está sempre alerta com a saúde bucal mas, com a pandemia, as coisas mudaram. “Eu sempre vou de seis em seis meses fazer manutenção, mas, ano passado, fui deixando. Sou de fazer escovação cuidadosa e achei que não tinha problema não ir. Mas, quando deu nove meses que não ia ao dentista, comecei a sentir dor ao beber líquido gelado e ao fechar os dentes; aí fui buscar a dentista e descobri uma cárie”, conta. 

A ortodontista Júlia Torres alerta que o estresse pode causar comprometimento da saúde bucal (Foto Arquivo pessoal)

Profissionais da área de odontologia explicam que a pandemia afetou a saúde dos dentes e gengiva não só do ponto de vista da negligência e da falta de cuidado, mas também porque muitas pessoas têm sofrido com diversas alterações na rotina e, com isso, passaram a lidar com a má alimentação, estresse, alterações nos padrões de sono e até mesmo um possível aumento no consumo de cigarros e bebidas alcoólicas. “Assim, fica mais difícil manter os hábitos de higiene bucal e também o corpo fica em alerta, ingerindo mais carboidratos e aí a tendência de surgimento de uma cárie é muito maior”, coloca a ortodontista Júlia Torres. 

Além da cárie, o implantodontista Rodrigo Queiroz, da Clínica Evolute, diz que também aumentaram no seu consultório os casos de placas, tártaro e gengivite (inflamação da gengiva). E alerta que não são somente esses problemas que podem causar um dano mais sério: “Uma pequena fratura que os pacientes deixam para lá por medo da contaminação vai aumentando e pode levar à perda do dente. Se chega para a gente a nível de coroa, uma restauração ou uma prótese poderia ser feita e resolveria. Mas, com o tempo, a fratura pode atingir a raiz, aí na maioria das vezes tem que fazer implante”, ressalta. 

O implantodontista Rodrigo Queiroz percebeu o aumento dos casos de cárie, tártaro, placas e gengivite (Foto: Arquivo pessoal)

Outro cenário nada inofensivo é o bruxismo, desordem caracterizada pelo ranger ou apertar dos dentes durante o sono que se tornou comum durante a pandemia devido ao aumento do estresse. O implantodontista Érico Brito, do Instituto Baiano de Implantes Dentários (Ibid), pontua que o tratamento na fase inicial evita complicações do quadro, que também pode levar à perda dos dentes. "Uma dor de cabeça ou dores de ouvido podem ser sintomas de bruxismo. É preciso estar atento porque, quando a pessoa vai cedo ao dentista, a gente evita o agravamento da doença, que leva ao desgaste dos dentes e à necessidade de grandes reconstruções e até à perda do dente”, diz Brito.

O Conselho Regional de Odontologia Seção Bahia (CRO-BA) informou à reportagem do CORREIO que não tem um estudo unificado que estime a redução na procura de atendimentos em consultórios odontológicos na Bahia durante a pandemia. O CORREIO procurou a Associação Brasileira de Odontologia Seção Bahia (ABO-BA), que não respondeu até o momento do fechamento da reportagem. 

Saúde bucal e covid-19

Segundo pesquisas, além da má higiene e da falta de acompanhamento profissional poderem levar pacientes a um quadro grave de intercorrência bucal, elas também se relacionam com casos mais graves de covid-19. O presidente do CRO-BA, Marcel Arriaga, pontua: “Para um paciente que pega covid, é muito melhor que ele esteja com a boca saudável porque já existem estudos sobre as implicações da doença em relação a quem tem uma má saúde bucal. Um paciente que vai para a UTI ser intubado com má higiene oral sofre mais com as consequências da doença e ainda fica mais exposto à infecções”.

Um desses estudos foi publicado em fevereiro deste ano, no Journal of Clinical Periodontology, da Federação Europeia de Periodontologia (EFP). O resultado aponta que os pacientes com covid-19 têm pelo menos três vezes mais probabilidade de apresentar complicações se também tiverem doença gengival. A periodontite, que é a gengivite já em estágio avançado, foi associada a um maior risco de admissão na UTI, necessidade de ventilação assistida e morte de pacientes, e com níveis elevados de biomarcadores no sangue associados a piores desfechos do quadro.  

De acordo com a cirurgiã-dentista Ana Carla Robatto, professora da Faculdade de Odontologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA), pessoas com periodontite podem aspirar bactérias que, ao chegarem na corrente sanguínea, agravam o quadro de covid-19 porque esses microrganismos ativam a expressão de algumas enzimas que funcionam como receptoras do coronavírus. “O SARS-CoV-2 encontra, assim, um terreno mais propício para se proliferar no organismo, aumentando a sua virulência ”, explicou. 

“A periodontite é muito comum entre as pessoas. Por isso, é preciso ficar alerta. Até porque, além das pesquisas que relacionam essa doença com a covid-19, também há estudos que comprovam que o estresse pode agravar problemas gengivais, sendo uma preocupação ainda maior durante a pandemia”, pontua o periodontista Leonardo Gomes. 

Protocolos

Para buscar a segurança do atendimento odontológico a partir do surgimento do novo coronavírus, foi preciso fazer adaptações. O implantodontista Érico Brito conta como ocorreu a adaptação no seu consultório. “Substituímos a máscara cirúrgica pela N95, que tem uma eficiência maior; aumentamos o intervalo entre uma consulta e outra para realizar a higienização do ambiente a cada paciente e adotamos a desinfecção com luz ultravioleta, por exemplo. Os protocolos já existiam e agora estão mais controlados, rigorosos e ampliados. Estamos fazendo de tudo para que o ambiente seja o mais seguro possível”, diz.

Para o Presidente do Conselho Federal de Odontologia (CFO), Juliano do Vale, é preciso informar a população sobre os protocolos do tratamento odontológico para que ela se sinta segura. “Após um ano de pandemia, ainda precisamos deixar claro que o dentista possui plena competência técnica para minimizar ou até mesmo eliminar o risco de contágio do vírus no atendimento odontológico, que é potencialmente suscetível como outros ambientes que prestam serviços de saúde. A categoria sempre representou uma das profissões em saúde mais preocupadas com a biossegurança”, afirmou.

Prevenção

A ortodontista Priscila Amorim, da clínica Unnik Odontologia Especializada, explica como deve ocorrer o acompanhamento odontológico. “As consultas de um paciente com a saúde bucal regular devem acontecer de seis em seis meses. Nelas, a gente faz a limpeza, remove tártaro, faz prevenção de cárie e prevenção de doenças da gengiva, além de reforçar as orientações de higiene oral. Importante lembrar que um paciente com doença periodontal precisa se consultar, em geral, a cada quatro meses”, orienta.

Confira as dicas dos profissionais Júlia Torres e Dylton Neto, da clínica Spazio Oral:

  • Mantenha ao máximo sua rotina normal: Tenha horários regulares para alimentação, sono e exercícios. Procure realizar a higiene oral de forma adequada, escovando os dentes três vezes ao dia por 2 minutos e utilizando fio dental pelo menos uma vez ao dia;
  • Fique de olho na prevenção e não deixe de ir ao dentista: Mantenham os exames rotineiros e evitem só visitar o dentista depois de terem dor extrema, resultando em complicações graves; 
  • Boa alimentação é fundamental: A mastigação de alimentos ricos em fibras tem a capacidade de promover a autolimpeza dos dentes e evitam a formação de placa bacteriana, causadora de cáries e gengivite. No entanto, o açúcar aumentando o risco de cárie e a falta de ferro pode resultar em aftas, língua careca, feridas no canto da boca, queimação bucal, tendência a infecções oportunistas e até mesmo aumento do risco de câncer de boca.
     

*Com orientação da chefe de reportagem Perla Ribeiro

***

Em tempos de coronavírus e desinformação, o CORREIO continua produzindo diariamente informação responsável e apurada pela nossa redação que escreve, edita e entrega notícias nas quais você pode confiar. Assim como o de tantos outros profissionais ligados a atividades essenciais, nosso trabalho tem sido maior do que nunca. Colabore para que nossa equipe de jornalistas seja mantida para entregar a você e todos os baianos conteúdo profissional. Assine o jornal.


Relacionadas