Natura e Avon começam a testar sistema de entregas por drones no Brasil

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19.09.2021, 07:00:00
Por enquanto, os drones da Natura &Co estão em fase de testes (Foto: Guilherme Missumi/ Divulgação)

Natura e Avon começam a testar sistema de entregas por drones no Brasil

Perfil de entregas que as marcas estão estudando é de encomendas que pesam até 10 quilos

Um clique e está tudo lá no carrinho. Fecha compra, confirma o pagamento e foi. Entrega expressa hoje é a possibilidade de receber esse produto que acabou adquirir via e-commerce em até duas horas. E já tem muito marketplace por aí tornando essa experiência mais rápida. Mas, o que a gente pode dizer se o seu pacote chegar de lá do alto, em um tempo bem mais curto e com baixo impacto ambiental? Bom, em um futuro não tão distante assim, não se admire se um dia, um drone de entrega invadir a porta da sua casa, deixar uma encomenda e partir (alô, Geraldo Azevedo). E, cá entre nós: não vai dar nem saudade daquele frete que demora 15 dias.

É que nas últimas semanas, a Natura e Avon, parte do grupo Natura &Co, iniciaram a etapa de testes técnicos para a realização de entregas dos produtos das marcas por meio de drones. Segundo o diretor de Supply Chain e Inovação Logística de Natura, Leonardo Romano, até agora, o perfil de entregas que melhor se adequa à modalidade é o de pedidos até 10 quilos.

A expectativa é que o projeto possa acelerar também a intenção do grupo de atingir zero emissões líquidas de carbono até 2030, vinte anos antes da meta estabelecida pela Organização das Nações Unidas (ONU). Isso inclui as quatro marcas - Avon, Natura, The Body Shop e Aesop.

“A ação é totalmente inovadora para a marca e tem seus primeiros testes no Brasil atualmente. A alternativa de transporte está alinhada com nossa expectativa de obter uma redução significativa no tempo de entrega, com baixo impacto ambiental. Validamos com sucesso que o drone garante a segurança da carga, já que mesmo transportando produtos mais frágeis, eles não apresentaram nenhum dano”, explica Romano.  

‘The flash’
Em 2020, o grupo registrou receita líquida de R$ 36,9 bilhões. Hoje, metade dos pedidos é entregue em 48 horas nas capitais e cidades metropolitanas do Brasil. Em outras localidades o tempo varia, dependendo da malha logística e condições de acesso. Após essa etapa de testes, a fase piloto está prevista para o primeiro trimestre de 2022, com equipamentos com capacidade de voar por até 200 quilômetros – quase um bate-volta Salvador/ Feira de Santana.

“Nós estamos avaliando dentro da regulação prevista para atuação de drones qual será a melhor logística para essas entregas. Ou seja, considerando quais serão as bases de partidas e aterrissagens estratégicas para que a operação logística nos traga otimização do tempo final de chegada dessa mercadoria aos nossos clientes e consultoras”, revela Romano.

Na verdade, pelo menos no início, ninguém vai precisar abrir a porta de casa para o drone entrar e deixar o seu pedido. Na rota, as marcas estão considerando, inicialmente, bases em condomínios, shoppings e em centros de distribuição, ou seja, um ‘droneport’ para pouso e decolagem da viagem, a fim de assegurar uma operação segura, sem roubo interceptação ou desvio da carga e, claro, que evite qualquer choque com animais na rota de voo.

“Também estamos estudando a possibilidade de unir essa rota à operação de entrega terrestre, neste caso, os caminhões levariam produtos de algum dos dez centros de distribuição até áreas de decolagem de drones. Com os aprendizados da etapa piloto, tencionamos expandir para todo o Brasil o uso de entregas com essa tecnologia, incluindo o estado da Bahia”, adianta Romano.

Brasil tem mais de 85 mil drones registrados, sendo quase 3,5 mil deles na Bahia
(Foto: Guilherme Missumi/ Divulgação)

Os testes estão sendo feitos pela empresa de logística de drones Speedbird Aero. “Somos pioneiros no Brasil em obter a certificação da ANAC para testar o modelo em condições reais de operação e, na parceria com a Natura &Co, será interessante observar que, ainda que feito em maior escala, o drone delivery seguirá sendo uma opção segura e viável”, pontua o CEO e fundador da Speedbird, Manoel Coelho.

Segundo dados da Anac, o Brasil tem, ao todo, até o mês de agosto desse ano, 68.873 pessoas cadastradas para operação e 85.976 equipamentos registrados. Destes, 40% são para uso comercial, o que corresponde a quase 36 mil aeronaves. A Bahia tem hoje, 3.419 drones.

Novas rotas
Em diversas partes do mundo, a tecnologia de drone para fazer entregas de produtos de primeira necessidade e de bens de consumo já é uma realidade. Países como Finlândia, Islândia, Suíça, China, Japão e EUA usam o equipamento para entregas de varejo, alimentos e medicamentos.

Porém, do lado de cá, não é por agora que veremos drones disputando o espaço aéreo para acelerar a chegada de nossas compras online. Conforme o levantamento mais recente feito pela empresa de tecnologia em logística Intelipost, os pontos mais sensíveis na percepção do consumidor sobre a experiência de entrega são a entrega rápida e a entrega grátis, respectivamente, para 42,2% e 29,8% dos que compram pela internet. A pesquisa mostrou que 22% dos consumidores consideram o frete como fator mais importante ao realizar uma compra.  

“No Brasil, já existe uma regulamentação de uso de aeronaves não tripuladas para fins comerciais. Porém, ainda existem muitos entraves no que se refere à falta de investimento em desenvolvimento em tecnologia para drones no país, o que dificulta o aprimoramento de soluções desse tipo para o mercado brasileiro de entregas. Ainda é necessário validar uma viabilidade econômica que poderá se fazer com a massificação”, analisa o chief growth officer (diretor de crescimento) da Intelipost, Pierre Jacquin.

O frete pode ficar mais barato? O especialista responde que sim. “Ao realizar muitas entregas em uma determinada região ou muitas entregas em um curto período, o custo é reduzido”. Por outro lado, Jacquin pontua que, geralmente, a entrega leva somente um pacote e o drone exige recargas após o retorno à base. Isso fica difícil quando se pensa nas áreas de grande densidade e alta demanda de encomendas.

“Os drones são como outras estratégias que visam a redução de custos e ganhos em eficiência, que foram sempre os principais desafios para as operações logísticas. No Brasil, a fase é ainda muito embrionária. O que temos no momento é o desenvolvimento de soluções que gerem maior flexibilidade e agilidade, como pontos de retirada e o crowdshipping (via aplicativos de entregas), bons exemplos de tecnologias que devemos ficar de olho”, acrescenta.

Jacquin cita ainda a China, como um dos países que mais se destacam no momento na operacionalização dessa modalidade tecnologia para entregas, que chega além das montanhas e vilarejos mais remotos. “Só para se ter uma ideia, na JD.com, por exemplo, 90% das entregas na China acontece na modalidade same day ou next day (mesmo dia ou dia seguinte). A empresa que é uma das gigantes do comércio eletrônico chinês utiliza de veículos autônomos e inteligência artificial”. E aí, vem a pergunta: você receberia alguma encomenda entregue por drone?


CINCO COISAS QUE VOCÊ PRECISA SABER SOBRE DRONES

1. Categorias  
Os drones são aeronaves não tripuladas controladas remotamente e estão divididas, basicamente, em duas categorias - a de asa fixa e asa rotativa. A principal dife- rença é a seguinte: a de asa fixa, remete a de um avião e permite que o equipamento voe em maior velocidade, por mais tempo e em áreas maiores. Já a de asa rotativa lembra um helicóptero e proporciona mais manobras, além de voarem em espaços fechados.

2. Entregas mundo a fora
Países como Finlândia, Islândia, Suíça, China, Japão e Estados Unidos, por exemplo, usam o equipamento para fazer entregas rápidas nos setores de varejo, alimentos e medicamentos.

3. Regulamentação no Brasil
O controle é feito pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), junto Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) e o Departamento de Controle do Espaço Aéreo (Decea). A Anac define duas funções para uso de drones: um é o recreativo e de lazer e o outro, para fins comerciais, experimentais ou institucionais. O órgão classifica ainda os drones RPA (aero- naves remotamente pilotadas de caráter não-recreativo) em três classes - peso máximo de decolagem maior que 150 kg (1), peso máximo de decolagem entre 25 e 150 kg (2) e peso máximo de decolagem de até 25 kg (3).

4. E para pilotar um drone?
A Anac regulamenta que os drones só podem ser pilotados por maiores de 18 anos e exige o registro da aeronave na agência e no Sistema de Aeronaves não Tripuladas (Sisant), assim como seguro para a cobertura de terceiros. Os voos podem acontecer em áreas distantes de no mínimo 30 metros de pessoas e cada piloto só pode operar um equipamento por vez. Só é permitido uma aproximação maior quando elas estão cientes do voo. Para drones de Classe 1, 2 ou que pretendem voar acima de 400 pés acima do nível do solo é preciso ter licença e habilitação válida emitida pela Anac.

5. Exceções à regra
A exceção é para aeromodelos com peso máximo de decolagem (incluindo-se o peso do equipamento, de sua bateria e de eventual carga) de até 250 gramas, que não precisam ser cadastrados junto à Anac.  Nesse caso também não há limite de idade e nem é necessário o registro de voos.

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