O incêndio em Pirajá que causou prejuízo de 1 bilhão de dólares

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31.07.2022, 06:00:00
Manhã seguinte ao início do incêndio, com as chamas ainda tomando conta de galpões (Foto: Luiz Hermano/Arquivo CORREIO)

O incêndio em Pirajá que causou prejuízo de 1 bilhão de dólares

Centro de Distribuição da rede Paes Mendonça pegou fogo em junho de 1991

Avisar que ia dar um pulo no Paes Mendonça, na Bahia dos anos 80 e 90, era o mesmo que dizer que estava se dirigindo a qualquer supermercado – não raro com a intenção de comprar o bombril da Assolan. De tão forte que era a marca, Paes Mendonça era usada como metonímia para substituir mercado - e aos clientes mais fiéis, era sinônimo mesmo.

Mas essa fama que parece espontânea não veio à toa: foi o próprio Mamede Paes Mendonça quem trouxe o conceito de supermercado à Bahia, no final dos anos 50, após uma viagem na qual passou pela Argentina e Uruguai. Tinha ido lá comprar alpiste, produto em falta nos secos e molhados locais, na época. 

Do início dos anos 60 até os 80, voou como um pássaro bem nutrido e ergueu um império baseado na tal rede de supermercados, que veio para substituir os armazéns – a maioria deles pertencente a comerciantes espanhóis e portugueses - e as feiras livres, como as de Água de Meninos e das Sete Portas, as mais conhecidas e procuradas. 

Leia também: Primeiro supermercado de Salvador foi inaugurado em 1959

No início dos anos 1980, seu modelo de negócio tem um upgrade importante: as dezenas de lojas do Paes Mendonça em Salvador, Região Metropolitana e Recôncavo, ao invés de vários pontos de armazenamento espalhados, desorganizados, passaram a ter um único Centro de Distribuição em Pirajá, ao lado da BR-324. 

O Paes Mendonça Pirajá possuía cerca de 40 mil metros quadrados de área construída, com moderníssimos escritórios, “sendo uma das áreas especialmente dedicada aos serviços de computação eletrônica”, como comenta um documentário produzido sobre o local, encomendado à Publivendas e realizado pela Cameraquatro. 

Menos de 10 anos depois, na noite de 10 de junho de 1991, o Centro de Distribuição, que ocupava a maior parte do complexo – cerca de 32 mil metros quadrados –, e que era dedicado ao depósito e embalagem de mercadorias que abasteciam as 26 lojas do Paes Mendonça na Grande Salvador, pegou fogo.

A situação é narrada pelo repórter Aloísio Araújo na edição do Correio da Bahia de 11 de junho daquele ano.

“Um incêndio de grandes proporções destruiu ontem à noite a Central de Abastecimento da rede Paes Mendonça de supermercados, em Porto Seco Pirajá. Os prejuízos, segundo Jaime Mendonça, um dos diretores do grupo, ainda não foram calculados, mas estima-se que chegue a aproximadamente US$ 1 bilhão”, comentava o texto, ilustrado com uma imagem noturna do local ainda em chamas.

“O Corpo de Bombeiros trabalhou durante toda a noite para tentar apagar o fogo. De acordo com alguns funcionários, havia muitos materiais inflamáveis e outros de fácil combustão como papéis e plásticos - que dificultavam a ação dos bombeiros e funcionários da empresa. O principal depósito da rede Paes Mendonça também abrigava a Central de Processamento de Dados de toda a empresa, Departamento Fiscal, além da administração da Central de Abastecimento”, continuava, citando o fim do espaço pioneiro na inovação.

Incêndio começou por volta das 19h de 10 de junho de 1991, segundo funcionários
Incêndio começou por volta das 19h de 10 de junho de 1991, segundo funcionários (Foto: Luiz Hermano/Arquivo CORREIO)
Trabalho de rescaldo demorou dias, por conta do tipo de material que pegou fogo
Trabalho de rescaldo demorou dias, por conta do tipo de material que pegou fogo (Foto: Luiz Hermano/Arquivo CORREIO)

Sem plano de incêndio
Funcionários ouvidos pela reportagem, na época, contaram que o fogo começou na sessão de papel higiênico e se alastrou, em seguida, para o setor de armazenamento de bebidas e material de limpeza. 

Os bombeiros não conseguiram conter as chamas durante a noite, por conta de inadequações dos construtores do espaço, que não previram uma situação como aquela. Não havia, por exemplo, hidrantes para auxiliar na captação de água pelos bombeiros.

“O local não tem equipamentos de segurança, principalmente de contenção de incêndios, necessários a um armazenamento de materiais inflamáveis como os que eram guardados neste local”, comentou um bombeiro, sem se identificar.

Apesar da ameaça de desabastecimento nas lojas, isso acabou não acontecendo, já que o fogo atingiu poucas categorias de produtos.

Ao todo, 40 policiais foram deslocados para evitar que o local fosse invadido e saqueado. Segundo a reportagem, muitos populares cercaram os galpões e havia um risco real de invasão, potencializando ainda acidentes. No final das contas, não houve feridos graves nem mesmo entre os funcionários.

Mamede desolado
“O presidente do grupo, o empresário Mamede Paes Mendonça, esteve na Central de Abastecimento para ver os prejuízos. Ele disse que não tinha condições de fazer nenhuma declaração à imprensa por se encontrar muito abalado com a tragédia”, dizia a matéria.

Então encarregado de importação e procurador, na sede da empresa, no Comércio, Miguel Rehem trabalhava diretamente com Mamede, e lembra até hoje que o chefe ficou, realmente, muito abalado com a perda.

“Verdade. Ele era muito sensível e ficou muito sentido. Como no escritório o assunto não era comentado, os detalhes acho que poucos sabiam”, conta Rehem, que hoje é bacharel em Economia e está aposentado.

O vídeo institucional dava a dimensão da importância do empreendimento para Mamede. “O Paes Mendonça Pirajá não é apenas uma grande obra, é o resultado de toda uma vida dedicada ao trabalho. 43 anos de esforço ininterrupto de um homem que veio do campo chamado Paes Mendonça”, falava um dos filhos sobre o patriarca, nascido no interior de Sergipe e que, apenas com o 3º ano primário, se tornou o pioneiro no ramo de supermercados no Brasil e fundador de uma das maiores redes varejistas do país.

Era também reconhecido pela filantropia – foi um dos maiores doadores das Obras Sociais Irmã Dulce –, e faleceu quatro anos depois do incêndio, aos 80 anos, por insuficiência respiratória em decorrência de câncer.

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