Onze mil volts de tenacidade: Ana Rita Lima superou deficiência e virou escritora

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05.02.2022, 11:00:00
Ana Rita quer que sua história vire filme (Acervo pessoal)

Onze mil volts de tenacidade: Ana Rita Lima superou deficiência e virou escritora

Conheça a história da pastora que perdeu os dois braços e parte da perna ao receber uma descarga elétrica na adolescência

A escritora e pastora Ana Rita Lima, baiana, 46, guarda uma história de superação de desafios físicos, psicológicos e sociais. Uma narrativa que é digna de exibição no cinema. E ela não duvida que isso vai acontecer um dia. Aos 15 anos, Ana sofreu um acidente com alta tensão que resultou na perda dos dois braços e de uma perna. O acidente  mudou não só sua vida, como a relação com o próprio corpo. 

Ana Rita nasceu em Pernambués. Negra e pobre, passou dificuldades na infância e início da adolescência ao lado dos pais e 9 irmãos. Apesar das agruras, conta ter vivido muitos momentos felizes com a família. 

A dona Amélia, que vendia comida nas ruas da cidade, e seu Manoelito, que trabalhava como autônomo na construção civil, conseguiram garantir alimentação, educação e o lazer de Ana e dos irmãos. No verão de 1990, eles compraram uma casa para passar as férias com os filhos, na Estrada do Coco. 

“A luta dos meus pais para garantir o melhor para a gente sempre serviu de inspiração, sempre deu força para encarar as dificuldades. E naquele verão, aos 14 anos, nunca me diverti tanto. É como se estivesse me despedindo da liberdade que tinha de ter, com os meus membros, minha autonomia. Foi quando me apaixonei pela primeira vez”, lembra. 

Reviravolta
Naquele mesmo ano, no dia 3 de julho, ela estava tentando passar um suporte de alumínio para cortinas, para um dos seus irmãos, Edmilson. Ela estava no terceiro andar e o irmão no térreo, quando um contato com a rede elétrica fez a jovem receber um choque de 11.000 volts. 

O dano causado pela descarga resultou na amputação de parte dos braços e parte da perna direita de Ana. Após três meses, a adolescente saiu do Hospital Geral do Estado (HGE) com cicatrizes e as mudanças no corpo que trouxeram o desafio da autoaceitação; além dos preconceitos da sociedade despreparada para a inclusão das pessoas com deficiência. 

“Eu era uma jovem mutilada, precisava de ajuda para ir ao banheiro, para o quarto. Meu cérebro mandava a mensagem de que eu ainda funcionava como antes, mas o corpo sabia que não era verdade. Eu chorava toda noite, foi terrível. Agora, as minhas irmãs saíam e eu já não conseguia acompanhar o ritmo. Ainda passou a ser desafiador os olhares, a coisa do ‘coitadinha’ ou ‘você nem deveria estar nessa festa’”. 

Luta Diária
Diante do desafio da autoaceitação e do medo dos olhares e atos preconceituosos, ela vestia roupas longas para esconder as próteses que usava, ainda que isso acrescentasse o sofrimento causado pelo calor, em quase todas as épocas do ano de Salvador. As roupas criavam um disfarce para a ausência dos membros. 

Ao pegar um ônibus na capital, em muitos momentos, não reivindicava o direito de viajar sentada, faltava voz para explicar que era uma PCD (Pessoa com Deficiência). O constrangimento causado por pessoas que tocavam nas suas próteses, como se estivessem diante de algo exótico, era quase diário. 

"Mãe, olha, uma mulher sem braços!". Ana ainda recorda da fala de uma criança durante uma das muitas viagens que faziam parte da sua rotina. Em alguns casos, as mães incitavam as crianças a tocarem nela, “pode tocar, a tia não faz mal”, chegou a falar uma delas. 

“Há 31 anos, o constrangimento vivido por uma pessoa com deficiência em Salvador era muito maior, as crianças choravam com medo, uma galera saia de perto de você. Existia a deselegância de pessoas que te apelidavam de ‘Robocopa’, fazendo alusão entre o personagem do Robocop e as minhas próteses. Hoje, em especial com o avanço das redes sociais e o maior debate sobre temas como inclusão de PCDs, sinto que o cenário ficou melhor”. 

Adaptação
A partir de 1997, a aceitação do novo corpo e realidade de vida da baiana passou pelo contato com a fé e a descoberta de um novo amor. Em 98, durante uma reunião da igreja evangélica que passou a frequentar, em Pernambués, conheceu o seu atual esposo, o autônomo Roberto, com quem teve três filhos, Samuel, 21, Nathan, 20, e Emanuel, 14. 

Com o carinho, apoio e respeito da nova família, Ana decidiu deixar para trás as próteses. "Eu tinha muito medo, era grande o desafio da aceitação do meu corpo. Usava os braços mecânicos para esconder as mutilações. Elas nem eram funcionais. Sempre que colocava as próteses, pensava que um dia queria ser livre para não mais usá-las", diz. 

Com a necessidade de contar a sua história de superação, Ana decidiu aprender a escrever usando a boca, pois o uso da caneta nas articulações machucava e dificultava a caligrafia. A habilidade permitiu escrever o livro “11 mil volts de misericórdia", biografia publicada em 2006. Hoje, com o auxílio do computador e outros aparatos comunicacionais, ela espera traduzir o livro para outras línguas. 

Recomeço 
Há oito anos, Ana atua como pastora evangélica em uma comunidade localizada em Barra de Pojuca. Ela acredita que a educação e a fé são caminhos que podem amenizar as dores que fazem parte da trajetória humana. 

Aos 46 anos, entre os objetivos principais da escritora, ainda existe espaço para o desejo de que sua história seja contada no cinema, uma forma de também homenagear seu Manoelito, que faleceu há 5 anos, aos 73 anos, e dona Amélia, que hoje está com 73. 

Também quer retomar as palestras motivacionais e alcançar pessoas que ficaram com sequelas após o tratamento da covid-19.

Para quem já superou tantos obstáculos sociais, é fato que uma produção cinematográfica não parece uma missão muito difícil. "Desbrave, ouse viver. Essa é a mensagem que quero passar para as pessoas. Faça a sua vida ter ainda mais relevância", diz, com uma voz de acalanto. 

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