Para pesquisador, maconha pode substituir drogas mais nocivas

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09.08.2021, 12:52:00
(divulgação)

Para pesquisador, maconha pode substituir drogas mais nocivas

Edward McRae, pesquisador da Ufba, diz que crack pode ser trocado pela cannabis

O pesquisador e professor Edward McRae está lançando o livro A Questão das Drogas: Pesquisa, História, Políticas Públicas, Redução de Danos e Enteógenos (Edufba). O autor, que se identifica como um ativista antiproibicionista, trata no livro de temas como a descriminalização das drogas, redução de danos e o uso religioso da ayahuasca, substância adotada principalmente na União do Vegetal e Santo Daime.

Nascido em São Paulo, Edward foi estudar na Inglaterra em 1960, onde concluiu na Universidade de Sussex o bacharelado em Psicologia Social em 1968, e em 1971, obteve o título de mestre em Sociologia Latino-Americana, na mesma instituição. Voltou ao Brasil para concluir doutorado na USP, com a tese O Militante Homossexual no Brasil da Abertura, uma densa etnografia a respeito dos movimentos sociais GLS na década de 70. Hoje, na Ufba, o professor ministra cursos de pós-graduação em torno de temas relacionados à socioantropologia das drogas.

Nesta conversa com o CORREIO, Edward fala, sem moralismos, sobre o papel da família em relação às drogas: "O importante é a família (...) estar aberta para diálogos francos e honestos  sobre as diferentes drogas, evitando mentiras e alarmismos excessivos". O professor também trata de mitos, como o de que a maconha é uma "porta de entrada" para outras drogas. 

A sociedade criou uma máxima de que a maconha é uma "porta de entrada para drogas mais pesadas". Afinal, o que isso tem de verdade?

Numerosas pesquisas têm  mostrado que essa teoria não é verdadeira. Entre outras razões, porque cada droga é diferente e produz efeitos próprios. As pessoas normalmente desenvolvem um apreço por algumas delas e rejeitam outras. O que aproxima as drogas e apresenta uma como substituta de outra para o usuário é a escassez e o tráfico ilícito. De fato, o uso da maconha muitas vezes se apresenta como porta de saída da dependência de outras substâncias, como o crack por exemplo.

Muita gente, pelo senso comum, diz que as pessoas se viciam em drogas porque não tiveram atenção dos pais ou porque têm algum conflito familiar. Mas, afinal, o que leva alguém a se tornar usuário ou se viciar em drogas?

Os efeitos psíquicos e sociais do uso de  drogas dependem de uma série de fatores de ordem psicológica e sociocultural, além dos puramente farmacológicos. São obviamente múltiplas as razões para as pessoas usarem tanto as drogas tornadas ilícitas quanto as lícitas, como álcool e tabaco. Não é tanto o uso, mas a forma e a frequência do uso que podem causar problemas.  O importante é a família promover um desenvolvimento sadio em geral dos seus filhos e estar aberta para diálogos francos e honestos  sobre as diferentes drogas, evitando mentiras e alarmismos excessivos. Lembremos que muitas vezes os jovens sabem mais sobre o assunto do que os pais e vão detectar posturas mentirosas facilmente. O mais importante seria os pais conseguirem obter a confiança dos filhos para que ouçam seus conselhos.


A sociedade ainda trata o viciado em drogas como um marginal ou o equipara a um bandido. Por que isso acontece? É um discurso moralista?

A marginalização dos usuários de drogas tem diversas origens, predominantemente políticas, embora muitas vezes apresentada de maneira moralista. No caso da maconha, há uma longa história, datando do século XIX, no mínimo, em que ela era associada à população de origem africana, que trouxe  práticas de uso dessa substância para finalidades terapêuticas, espirituais e  lúdicas. A estigmatização desses usos tem oferecido importantes desculpas para perseguir essa população desde então. Posteriormente, na época da ditadura foi uma maneira de desqualificar a contestação cultural que os jovens de classe média faziam contra o regime militar e seus valores. Nos EUA do final do século XIX, a cocaína tornou-se muito barata e seu uso foi associado aos negros. Novamente, criou-se uma forma de estigmatizar e perseguir um setor subalterno e visto como ameaçador da elite branca naquele país. Era também uma droga especialmente desenvolvida na Alemanha e, com o final da primeira guerra mundial, seu banimento serviu como mais uma maneira de prejudicar economicamente o país derrotado. Atualmente a guerra às drogas serve como um pretexto no Brasil para impor um controle policial sobre a população periférica, majoritariamente negra, que o sistema econômico neoliberal vigente não consegue mais  incluir no mercado. Como se diz no Rio de Janeiro, é uma forma de evitar que o morro desça até o asfalto.
 
O senhor é ativista pela descriminalização das drogas. Deve valer para todas as drogas ou para algumas especificamente? Por que?

A política de criminalização das drogas vem sendo usada há muitas décadas no Brasil e no  mundo sem nenhum sucesso. O uso das substâncias não diminui, ao contrário só cresce. Dentro do ambiente de suspeita e tabu criado, não se pode circular discussões sobre formas menos danosas de uso e nem se pode fiscalizar a qualidade das substâncias disponíveis no enorme e poderoso mercado ilícito. Na ausência de qualquer regulação oficial, cria-se um clima de competição entre traficantes, dominado pela violência, Assim, torna-se óbvio que é  preciso encontrar outras maneiras mais eficazes de lidar com o problema. Como as diferentes substâncias diferem entre si, cada uma vai requerer medidas específicas para seu controle. Algumas, como a maconha, poderiam ser vendidas de maneira  regrada , como se faz com bebidas e cigarros. Outras, como a cocaína, talvez precisassem de abordagem mais controladora. Mas deve-se evitar ao máximo a solução proibicionista que se mostrou ineficaz e geradora de danos psíquicos e sociais. 

A Holanda costuma ser apontada como um dos países mais liberais em relação ao consumo de drogas? O que há de mito e o que há de verdade em relação ao país? O consumo lá é compatível ao de outros países?

Hoje a Holanda já não é mais o único país onde se pode comprar de forma semi-legal a maconha. Na Italia, por exemplo , pode-se comprar em tabacarias canabis com baixos teores de THC. Em numerosos estados americanos ela pode ser comprada livremente, sob critérios que diferem de estado a estado. Cada vez mais países entendem que a legalização da canabis e sua exploração comercial traz uma série de benefícios, inclusive fiscais. O Brasil, com sua atual política proibicionista, perde a possibilidade de lucrar com uma commodity cada vez mais valorizada no mercado internacional.
 
No Brasil, a questão religiosa ainda dificulta muito o debate sobre a descriminalização das drogas? Em outros países, as religiões interferem nesse debate?

Atualmente, a influência de grupos fundamentalistas e obscurantistas está impedindo o desenvolvimento de uma série de políticas de cunho educacional, sanitário e cultural. Parece que voltamos à idade das trevas. Isso afeta também nossas políticas de drogas. Outros países também enfrentam situações similares, mas nos países mais democráticos e verdadeiramente laicos, pressões de grupos que desejam impor seus valores religiosos sobre o resto da sociedade  encontram resistência e não conseguem se impor.

O que é a política de redução de danos e em que estágio está no Brasil?

A política de redução de danos surgiu perante o fracasso do proibicionismo e se baseia na busca de um diálogo franco e respeitoso  com usuários, para discutir com eles as melhores e mais eficazes maneiras de evitar danos resultantes do uso de drogas ilícitas, sem exigir que abandonem completamente os seus usos. Atualmentem, essa e outras políticas públicas de cunho social e democrático estão em franco recesso. 

O Brasil ainda debate a legalização do cultivo de cannabis mesmo para fins medicinais. O que o senhor acha deste debate e como estão outros países em relação a isso?

Considero muito importante a liberação do cultivo da canabis, tanto por razões humanitárias e sanitárias quanto por razões econômicas. A cannabis medicinal traz grande alívio para muitas pessoas, mas remédios com essa base só podem ser importados a um preço proibitivo. O óleo de cannabis é facilmente produzido aqui e a proibição do cultivo da planta e da produção local de medicamentos é fruto de moralismo e talvez do interesse econômico das empresas importadoras. O clima e o solo no nosso país é muito propício a esse cultivo que poderia ser importante fonte de divisas. 

Como foi o processo de permissão de ayahuasca para fins religiosos no Brasil? Pode fazer um breve histórico?

Essa bebida psicoativa  tem um uso milenar entre a população indígena e agora ocupa um lugar sacramental entre algumas religiões como o Santo Daime e a União do Vegetal, que se difundiram por todo o Brasil e por diversos outros países em todos os continentes. O Brasil adotou uma postura pioneira nesse campo e chamou representantes de diferentes religiões ayahuasqueiras para discutir com cientistas e autoridades, com a finalidade de  elaborar regras para o uso ritualístico dessa bebida.

Como o senhor avalia o processo de reabilitação no Brasil? O país está bem preparado para isso?

A questão do tratamento dado a drogadependentes é complexa. Apesar de existirem instituições científicas que tratam de forma racional, respeitosa e eficaz aquela minoria  que tem problemas em sua relação com psicoativos, ainda persistem posturas moralistas e autoritárias nesse campo . Atualmente, ganham grande apoio oficial comunidades terapêuticas religiosas que desrespeitam os direitos humanos dos pacientes, inclusive com cárcere privado, tortura e trabalho não devidamente remunerado. O país vai muito mal nesse quesito.

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