Para pesquisadora, mercado de trabalho torna negros mais vulneráveis à covid

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22.05.2020, 06:00:00

Para pesquisadora, mercado de trabalho torna negros mais vulneráveis à covid

"Já se esperava que a taxa de mortalidade [na pandemia] fosse maior na comunidade negra", diz Wlamyra Albuquerque

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A pesquisadora baiana Wlamyra Albuquerque graduou-se em história na Universidade Católica de Salvador (Ucsal), fez mestrado em história social na Ufba e doutorado em história social da cultura, na Unicamp.

Diz, modestamente, que fez pós-doutorado em Harvard: “Ficou pedante dizer que estudou em Harvard”, observa. Atualmente, é professora da graduação e da pós-graduação do curso de história da Ufba.

Estudiosa da negritude, Wlamyra é autora, dentre diversos livros, de O Jogo da Dissimulação, lançado em 2009 pela Companhia das Letras. A publicação aborda a relação entre a questão racial e o fim do escravismo no Brasil.

Neste sábado (23), às 19h, Wlamyra participa, com o colega Flávio dos Santos Gomes, do bate-papo Histórias Negras, no canal do YouTube da Companhia das Letras. O encontro integra o festival Na Janela, realizado pela segunda vez pela editora. Até domingo, serão realizadas seis conversas entre autores de livros de não ficção.

Nesta entrevista ao CORREIO, Wlamyra fala sobre como será o debate de que ela vai participar e também sobre como a covid-19 atinge especialmente a comunidade negra no Brasil. As cotas raciais, assunto muito caro à pesquisadora, também são assunto desta conversa com ela.

Como vai ser o bate-papo de que você vai participar, Histórias Negras, junto com Flávio dos Santos Gomes?
Flávio é um parceiro há algum tempo, uma referência na área, então a gente sempre está junto neste debate sobre cidadania negra e também participamos de discussões sobre projetos republicanos. Como estamos no mês de maio, discute-se abolição. Essa pauta vem junto com discussão sobre cidadania e projetos nacionais, que sempre envolvem direitos e enfrentamento à desigualdade.

Nesta semana, foi divulgado que 54,8% dos mortos por covid-19 no Brasil são negros ou pardos. Por que isso ocorre?
Já se esperava que a taxa de mortalidade fosse maior na comunidade negra, dadas as condições de habitação e porque essa comunidade é a mais vulnerável também no mercado de trabalho, já que tem menos condição de ficar em casa por estar mais envolvida nos serviços essenciais. O que é absurdo é que, mesmo sabendo disso, o Estado não fez absolutamente nada para proteger essas comunidades.

"As principais ações preventivas que temos visto são organizadas pelas próprias favelas. Então, há notícias muito inspiradoras vindas de comunidades que se organizam para informar à população as regras necessárias de higiene e de prevenção."

Tem-se comparado muito a pandemia de covid-19 ao surto de gripe espanhola, ocorrido há cerca de 100 anos. Como estava a Bahia naquela época?
 Uma série de epidemias fazia parte de uma grande crise sanitária que aconteceu no começo do século XX, em razão da urbanização acelerada e do processo de fim da escravidão, quando houve processos migratórios muito grandes. Na Bahia, boa parte da população do Recôncavo foi para os sertões. Também houve aumento no contingente populacional de Salvador, o que aumentou a propagação do vírus.

E a população negra foi particularmente atingida pela gripe espanhola?
A doença também acometeu muito a comunidade negra, numa época em que a medicina estava ainda menos preparada para enfrentar o problema. E aquelas comunidades também recorreram a formas de prevenir por meio de práticas medicinais que não eram dadas pelos médicos. Havia muita notícia sobre boticários que prescreviam remédios e formas de se proteger do vírus. Tinha lideranças religiosas do candomblé que prescreviam fórmulas porque aquela população estava à mercê do vírus, sem recursos pra lidar com isso.

A senhora defende uma maior diversidade étnica entre os pesquisadores da academia. Por que isso é tão importante?
A história, como todas as áreas de conhecimento, precisa ser plural, pois quando se garante pluralidade na ciência, começa a ter propostas e estratégias para enfrentar problemas sociais que interessam ao país inteiro.

"Então, por exemplo, entender como se reproduzem as práticas de racismo é fundamental para país inteiro, para a população negra e para um país que se pretende igualitário, democrático."

Então, esse é um caminho irreversível e o único caminho possível para pensarmos nas formas de enfrentamento aos grandes problemas nacionais.

Durante um tempo, alimentou-se o mito de que cotistas, por não terem a mesma base de educação dos não cotistas, não teriam condições de ter um bom desempenho nas universidades. Essa ideia foi derrubada?
As cotas são uma grande conquista para a população negra e também para a melhoria da qualidade da universidade pública. Os alunos que chegam das escolas públicas e os cotistas trazem formas de pensar essas questões que nem sempre estão presentes naqueles que não viveram a experiência de morar em comunidades e viver nas periferias. Eles conhecem os limites de cidadania dessa população. É um processo que ainda precisa ser consolidado, é preciso que parem de questionar sobre o merecimento ou não, inclusive porque a cota não é só uma forma de reparação: é também uma estratégia de qualificação da universidade.

Embora a senhora tenha uma carreira acadêmica consolidada e muitas publicações na área, também publica livro por editoras “comerciais”. Como um acadêmico consegue se comunicar com clareza e aprofundamento com o público “comum”?
Acho que não há uma estratégia definida. Estudei a vida toda em escola pública, venho de comunidade periférica e isso faz com que talvez tenha me ajudado a não constituir na escrita uma estrutura de texto que seja marcadamente formal. Acho que com alguma informalidade, você pode falar de coisas sérias e profundas sem recorrer a um texto muito elaborado. Então, com isso, acabei ganhando, porque consigo transitar entre o acadêmico a o coloquial, porque foi isso me formou.

Festival na Janela

Sexta-feira, 22 de maio
17h | A República em frangalhos
Lilia Moritz Schwarcz e Heloisa M. Starling. Mediação de Patrícia Campos Mello.

Sábado, 23 de maio
15h | Cultura popular e repressão
Laura Mattos e Adriana Negreiros. Mediação de Thiago Amparo.
17h | Feminismos
Heloisa Buarque de Hollanda e Djamila Ribeiro. Mediação de Giulliana Bianconi.
19h | Histórias negras
Flávio dos Santos Gomes e Wlamyra R. de Albuquerque. Mediação de João José Reis.

Domingo, 24 de maio
15h | Biografias brasileiras
Mário Magalhães e Lira Neto. Mediação de Karla Monteiro.
17h | Sonhos para adiar o fim do mundo
Ailton Krenak e Sidarta Ribeiro. Mediação de Carol Pires.

***

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