Pop it: entenda como fidget toys viraram brinquedo febre na pandemia

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03.10.2021, 16:00:00
Os gêmeos, João Guilherme e Luís Felipe, 6 anos, se tornaram fãs do pop it (Foto: Nara Gentil/ CORREIO)

Pop it: entenda como fidget toys viraram brinquedo febre na pandemia

Antiestresse? Especialistas explicam os benefícios para as crianças e orientam os cuidados necessários

Não é uma new collection da LOL, nem a versão mais inovadora do x-box. Na verdade, para o alívio do bolso dos pais, o brinquedo que se tornou febre entre os pequenos na pandemia, pode custar R$ 20 – ou menos – se rolar aquele ‘choro’ esperto na banquinha do camelô. Mas, também, dá para encontrar com valores de R$ 7 a quase R$ 90, a depender do tipo, em uma busca bem rápida na internet. Por incrível que pareça, é um negócio que alguém pode olhar desconfiado e não dar muita coisa por ele não, sabe? Há quem prefira o plástico bolha raiz, por exemplo. Mas o fato é que, até o final dessa reportagem, vai dar para entender porque os fidget toys se tornaram a sensação do momento para a criançada.  

Foi a própria Manuela, 11 anos, que pediu para a mãe e servidora pública, Marcela Ribeiro, o brinquedo com o argumento de que precisava dele para desestressar. Marcela também é mãe dos gêmeos, João Guilherme e Luís Felipe, 6 anos, que não largam por nada o pop it, esse mesmo que imita o plástico bolha.

“Me surpreendeu a imediata associação que as crianças fizeram ao brinquedo como ferramenta para amenizar o estresse. Conhecemos nas postagens nas redes sociais e, posteriormente, com os colegas de prédio e escola. Como toda febre, chegou rápido, atraindo o interesse tanto da minha filha mais velha, quanto dos meninos, que logo pediram que eu comprasse para eles”, afirma.  

Ela conta ainda que os fidget toys ajudaram a afastar as crianças da tela. “O brinquedo ajudou muito para que pudéssemos propor a nossos filhos algo que não envolvesse o uso prolongado das telas. Por aqui, buscamos outros recursos para incrementar seu uso,  como elaborar jogos com dados e com associação de noções de matemática”, complementa Marcela.  

Os irmãos Manuela, João Guilherme e Luís Felipe aderiram rápido ao brinquedo da moda
(Foto: Nara Gentil/ CORREIO)

Toques, cores e sons. O verbo fidget, em inglês, significa “fazer pequenos movimentos, especialmente nas mãos e pés por conta de nervosismo e impaciência” ou na tradução livre, brinquedo de inquietação, como explica o neuropediatra e professor do curso de Medicina da UniFTC, Lucas Serra. Por isso, os fidget toys nada mais são que diversos tipos de brinquedos com características sensoriais cujo objetivo é propiciar esses pequenos movimentos repetitivos.  

Originalmente, eles eram utilizados para ajudar crianças atípicas, daí a fama de brinquedo antiestresse. Pop it, globbles, spinner, simple dimple e stretchy strings podem parecer nomes estranhos agora, mas pode ter certeza que seu filho conhece cada um deles, já que estão entre os fidget toys mais queridinhos, diante da infinidade de opções, kits e tipos que existem no mercado. Viraram tema de festinha de aniversário, objeto desejo, mania infantil. Na lista dos brinquedos mais vendidos da Amazon, inclusive, no início desse mês são as bolhas de silicone que aparecem no topo dos mais vendidos entre os brinquedos sensoriais. 

“Existem evidências de que crianças com autismo e Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) conseguiam com esse tipo de brinquedo ‘filtrar’ as informações, principalmente, em um ambiente de sala de aula e, através disso, organizar seu padrão mental. Eles acabam reduzindo o estresse já que, involuntariamente, fazemos esses movimentos repetitivos. Seja embolando o cabelo, roendo unha, chupando o dedo, sempre tivemos esses movimentos de conforto”. 

Por outro lado, a neuropediatra e professora da Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia (Ufba), Rita Lucena, pontua que mesmo que exista essa relação com a diminuição da ansiedade e redução do estresse em crianças atípicas, esse efeito vai depender muito de cada pessoa.

"O brinquedo pode causar até o contrário já que algumas ficam mais ansiosas com ações exploratórias repetitivas. A forma como elas se comportam diante do mesmo estímulo é muito variável”, argumenta. 

Estourados 
Adepta desde a infância da enorme satisfação que plástico bolha proporcionava, Marcela confessa que nem ela resistiu aos encantos dos fidget toys. “Super brinco. Não posso negar que é um brinquedo que causa uma sensação relaxante. Me preocupo, na verdade, com os exageros em relação à necessidade que as crianças manifestam em relação ao brinquedo, a ponto de se sentirem excluídas quando ainda não o tinham. Além disso, fico atenta para as emoções deles. Afinal, as crianças ficaram mais ansiosas devido ao isolamento social imposto pela pandemia”. 

A servidora pública, Renata Dantas, é outra mãe que reconhece o alcance dos fidget toys. Junto com Marcela, elas se reúnem com outras outras mulheres no perfil no Instagram Ciranda Positiva (@cirandapositiva) criado por elas para tratar de temas ligados à parentalidade. Os fidget toys viram assunto no canal, como conta Renata. O filho Diego, 4 anos, é fã e a sobrinha, Malu, gosta de colecioná-los. 

“Cada um com seu jeito, mas ambos empolgados com o brinquedo. Nós vimos nossos filhos voltarem o interesse ao pop it e assim ocorreu com muitas seguidoras. Então, tornou-se uma demanda falar sobre o brinquedo, os benefícios, cuidados e mitos”, afirma. 

Aqui vai um pouco da história dos fidget toys: o pop-it foi criado pelos mesmos inventores do jogo Cara a Cara. Era uma vez, lá na década de 70, um casal europeu que fazia objetos para as empresas darem como brindes. Theo e Ora Coster, chegaram a fazer alguns protótipos mas a ideia não avançou, acredite. Depois de assumirem a Theora Design, os filhos de Theo e Ora, Boaz e Gideon Coster, fecharam o negócio com uma empresas de jogos em Montreal, no Canadá e em 2014 lançaram o brinquedo reformulado, que, posteriormente, foi comprado pela americana Target. 

Outro fato conhecido é sobre fidget spinner. Uma engenheira americana, no início da década de 90, inventou o brinquedo para auxiliar no tratamento de crianças com ansiedade, déficit de atenção, autismo e hiperatividade. O nome dela? Catharine Hetting. Sua filha Sarah sofria de problemas neurológicos. Porém, ninguém colocou muita fé no brinquedinho, não. Sem investimento, anos depois, ela conseguiu patentear o spinner e passou a fabricá-lo de forma artesanal mesmo, vendendo em feiras dos Estados Unidos. 

Só que a patente expirou e ela não conseguiu pagar o valor da renovação. O original era uma bola plástica que podia ser pressionada e que girava também. Catharine, no entanto, não ficou milionária como alguém aí pode estar pensando. Em 2017, 24 anos depois, a grande indústria adaptou o formato como esse que a gente conhece hoje e trouxe uma nova versão para o brinquedo que foi ganhando outros modelos de uma hora para outra e se espalhando no mundo inteiro. 

É pop 
Há pouco mais de uma semana para uma das datas mais aguardadas pela criançada, segundo um levantamento mais recente feito pelo Magazine Luiza, este ano, as vendas de produtos fidget Toys triplicaram em maio, na comparação com o mês de abril. Já em junho, o total vendido foi 13 vezes maior quando comparado a maio. Se esses são dados só do primeiro semestre do ano, dá para imaginar o impacto dessa procura com o dia 12 de outubro se aproximando. 

Para a psicóloga clínica com especialização em Saúde Pública com experiência em atendimento infanto-juvenil e acompanhamento parental, Flavia Fernanda, todo esse sucesso está relacionado as oportunidades de sanar algumas ausências e faltas decorrentes do cenário pandêmico.

“Que o isolamento e o distanciamento social são um agravante nas relações infanto-juvenis é um fato. E contemporaneamente, o fidget toys pode até estar ocupando um lugar de objeto transicional/ponte frente a uma realidade pandêmica tão difícil”. 

Mas será que um brinquedo tem como apaziguar uma angústia? É a especialista quem responde a essa pergunta: “É necessário tentar entender em qual contexto a criança utiliza esses brinquedos, pois os objetos vêm como a grande salvação da angustia, aquela falsa impressão de preenchimento podendo mascarar uma importante questão sobre a saúde mental da criança e do adolescente”, comenta. 

É importante também uma atenção dos pais para os brinquedos virais e, além disso, suas recomendações de idade, presença de peças pequenas fáceis de serem engolidas e ao selo de segurança do Inmetro – por mais que seja difícil resistir ao apelo dos pequenos quando o vídeo de um macaco viraliza no Tik Tok brincando com o pop it. “Os brinquedos têm suas diversas funções, entretanto, é no brincar que se acessa a criatividade da criança, o imaginário, as fantasias”. 

A especialista faz questão de acrescentar algumas dicas de brinquedos e brincadeiras que podem amenizar a ansiedade. “Alguns recursos podem ser recuperados. Lembra das massinhas de modelar? Crepagem, bolinha de bexiga com areia que é super sensorial, as gelatinas. Tudo isso mexe com as sensações e a criatividade. Criar brinquedos é uma grande oportunidade de desenvolver habilidades cognitivas e psicomotoras na criança”, defende. 

Professor do curso de Psicologia na Estácio, Mino Rios, concorda que é preciso considerar que as crianças têm interesses, demandas e necessidades próprias para além daquela máxima de ‘que todo mundo tem e eu, não’. “Os brinquedos nos ajudam no processo de formação, inclusive, de nossos valores e identidade. Basta notar como mudaram os padrões relacionados a ‘brinquedos de menino e de menina’. Esses recursos cumprem diversos papeis e cabe aos pais conciliarem a ludicidade com as funções que esses elementos cumprem’. 


OS CINCO PREFERIDOS

1. Pop it 

(Foto: Duvulgação)

De R$ 5 a R$ 45,50 (a depender do tamanho) 

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2. Globbles 

(Foto: Divulgação)

De R$ 5,95 (unidade ) a R$ 86,90 (kit) 

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3. Spinner 

(Foto: Divulgação)

De R$ 7,26 a R$ 25,21 

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4. Simple Dimple 

(Foto: Divulgação)

De R$ 5 a R$ 88 (a depender do tamanho) 

*

5. Stretchy Strings 

(Foto: Divulgação)

De R$ 5,55 (unidade) a R$ 69,90 (pacote) 


*Valores pesquisados em lojas online no dia 01/10 

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