Por que o mundo teme o destino das afegãs? Entenda situação no país após saída dos EUA

mundo
22.08.2021, 05:00:00
Atualizado: 23.08.2021, 17:12:49
(Foto: Wikicommons)

Por que o mundo teme o destino das afegãs? Entenda situação no país após saída dos EUA

Na última semana, vídeos e fotos da população tentando deixar o país, agora novamente sob o comando do Talibã, correram o mundo

Pessoas correndo pelo aeroporto, se espremendo em aviões e até se agarrando ao trem de pouso. Desde o último domingo (15), com a notícia de que o Talibã havia tomado o poder no Afeganistão, após a retirada das tropas americanas, o mundo acompanhou imagens chocantes de afegãos tentando deixar o país. Mas uma questão aparecia indiretamente em todas as imagens: a maioria das pessoas que tentava escapar era homem. Afinal, onde estavam as mulheres? 

O número visivelmente maior de homens que aparecem nas fotos e vídeos pode ser um dos aspectos que ajuda a entender por que razões, nos últimos dias, tanto tem se falado sobre a situação delicada das mulheres afegãs. Com um histórico de proibições até mesmo para sair de casa sozinhas, para estudar ou trabalhar, o presente e o futuro assustam quando remontam ao passado de 20 anos atrás: no contexto do Talibã, elas correm perigo maior até mesmo para fugir. 

“Essas cenas do avião passam uma mensagem: ‘eu sou homem, com direitos mantidos e estou me agarrando ao pneu do avião para tentar fugir’. Imagine uma mulher? ‘Eu saio, eu fico? Se eu sair, vou ser apedrejada?’. Nesse caso específico, as mulheres são mais descartáveis para o regime do Talibã”, explica a internacionalista Rafaela Ludolf, coordenadora do curso de Relações Internacionais da Unifacs e da Cátedra Sérgio Vieira de Melo, ligada ao Alto Comissariado da ONU para Refugiados (Acnur), na instituição. 

Mais de 600 afegãos decolaram em avião militar dos EUA, no domingo (15), para sair do país. Homens eram maioria (Foto: US Air Mobility Command)

Tão logo as notícias sobre o avanço do Talibã e a saída das tropas dos Estados Unidos começaram a surgir, personalidades importantes começaram a se posicionar. Uma das principais vozes das mulheres do Oriente Médio, a ativista paquistanesa Malala Yousafzai, vencedora do Prêmio Nobel da Paz em 2014, disse estar em “completo choque” e “profundamente preocupada” com as mulheres, as minorias e defensores de direitos humanos no Afeganistão. Malala foi vítima de um atentado em 2012, assumido pelo próprio Talibã.

Mas por que tanto medo pelos direitos das mulheres afegãs? Especialistas ouvidos pela reportagem reforçam que esse novo contexto não tem a ver com a religião islâmica - ou, no máximo, com a forma distorcida dela para fins políticos usada pelos extremistas. 

“A grande preocupação debatida não só pelas mulheres do Afeganistão, mas pelas mulheres do mundo, é que a gente não sabe se aquelas mulheres vão continuar no direito de existir como são ou se vão ser massacradas por usar uma saia”, completa Rafaela. 

Sem direitos
Mas as violações dos direitos das mulheres não começaram de uma hora para outra. Para entender a complexa situação do Afeganistão, é preciso recorrer à história. Um dos pontos que definiram as rotas para chegar ao cenário de hoje foi o golpe de 1973, que derrubou a monarquia afegã. Cinco anos depois, um novo golpe destituiu o então presidente, Mohammed Khan. 

Foi a chamada Revolução de Saur, em que comunistas do Partido Democrático do Povo do Afeganistão tomaram o poder e instituíram um estado laico (num país de maioria muçulmana), participação de mulheres na política e reforma agrária. Só que disputas internas fizeram com que a antiga União Soviética temesse a aproximação do Afeganistão com os Estados Unidos. Os soviéticos, então, invadiram o país em 1979 e deram início ao primeiro evento conhecido como Guerra do Afeganistão - que, por sua vez, durou dez anos. 

São dessas décadas as fotos de mulheres afegãs andando pelas ruas com vestimentas muito semelhantes à moda ocidental. Essas imagens, comparando as roupas com as burcas que o Talibã as obriga a usar, viralizaram nas redes sociais.

Para a historiadora Gisele Chagas, doutora em Antropologia e professora da Universidade Federal Fluminense (UFF), a vida das mulheres afegãs antes do Talibã refletia toda a pluralidade daquela sociedade na época, incluindo a diversidade étnica, os estilos de vida, as classes sociais e a ligação com o islã. 

No final dos anos 1960 e na década de 1970, era possível encontrar mulheres afegãs que se vestiam à moda ocidental (Foto: Bill Podlich) 

“As violações de direitos humanos sempre estiveram presentes em contextos de conflitos militares duradouros, afetando a população civil, de modo geral, e as mulheres, em particular, atravessadas muitas vezes por questões étnicas e de classe social. Com o Talibã, a situação da violação dos direitos das mulheres em relação ao acesso à educação e ao mercado de trabalho foi, digamos, institucionalizada”, explica ela, que é vice-coordenadora do Núcleo de Estudos do Oriente Médio, ligado ao Departamento de Antropologia da UFF. 

No contexto da Guerra Fria, contudo, os Estados Unidos passaram a financiar e apoiar os chamados ‘mujahidins’, que eram combatentes armados fundamentalistas contrários aos governos progressistas e à influência russa. Esses grupos começaram a crescer após a saída da URSS, em 1989. E, ao mesmo tempo, esse novo contexto permitiu o nascimento de extremistas como o Talibã, por sua vez, derivados dos mujahidins. 

Talibã é o plural da palavra árabe Talib, que significa estudante. No entanto, como explica o pesquisador Thami Conde, que trabalha com Estudos Árabes e Islâmicos no doutorado na Ufba, nesse caso, era uma referência a estudantes de escolas tradicionais de língua árabe, de estudo e memorização do Alcorão, além de outras tradições islâmicas. 

“Daí essa coisa de ser um movimento tão radical e centrado na questão de impor a lei islâmica com suas ideologias”, diz. No entanto, escolas tradicionais árabes existem em todo o mundo, sem nenhuma ligação com extremismo ou com o Talibã. “O problema é a ideologia do movimento Talibã, que muitas vezes é contrária ao próprio islã”, reforça Conde. 

Antes do Talibã, as mulheres frequentavam as escolas, como nesta foto no final da década de 1960 (Foto: Bill Podlich)

Mudança
É no período entre 1996 a 2001 que, com o Talibã no poder no país, as mulheres perdem praticamente todos os direitos que tinham conquistado no passado. Elas são obrigadas a usar a burca - diferente do véu mais comum, chamado hijab -, não podem sair de casa sem a companhia de um homem e nem mesmo devem fazer barulho ao caminhar. 

As escolas femininas foram fechadas e até o acesso à saúde era prejudicado. Mulheres não podiam ser tratadas por médicos homens e as médicas mulheres eram cada vez mais raras. Até que os atentados de 11 de setembro de 2001 mudam todo o cenário. Com o objetivo de capturar Osama Bin Laden, líder da Al Qaeda, os EUA declaram guerra ao Afeganistão e dão início à ocupação que durou 20 anos. Na época, toda a operação era chamada de ‘Guerra ao Terror’.  

“Mas durante esses 20 anos, a gente tem uma estrutura de ocidentalização dos direitos no Afeganistão. Os direitos humanos que foram conquistados pela população ocidental na transição de 1960 para 1970 passam a ser experimentados pela população do Afeganistão a partir deste momento”, explica a professora Rafaela Ludolf, da Unifacs. 

Ao longo desses 20 anos, as mulheres voltaram a ter acesso à educação e quase 30% do congresso afegão passou a ser composto por parlamentares do gênero feminino. Esse percentual, só para dar ideia, é maior que o do Brasil - por aqui, existe uma cota mínima de 30% de candidaturas reservadas às mulheres, mas isso não garante que elas serão eleitas. Na eleição de 2018, mulheres foram eleitas para 15% das vagas do Congresso brasileiro. 

Enquanto isso, feitos de mulheres afegãs percorreram o mundo, a exemplo da equipe feminina de robótica do país - as ‘Sonhadoras Afegãs’. Parte do grupo, que participa de competições internacionais e é composto por meninas de 12 a 18 anos, conseguiu sair do país. No entanto, ao menos 25 delas ainda esperam ser resgatadas. 

“Imagine ter uma vida e, a partir de amanhã, a gente ser cerceada de todos esses direitos. São 20 anos que passaram em meio à revolução tecnológica, então, falar disso agora parece que a gente está sendo empurrada para uma máquina do tempo”, avalia Rafaela. 

Durante a ocupação estadunidense, muitas mulheres do país passaram a atuar no mercado de trabalho, inclusive na saúde e na educação. De acordo com a professora Gisele Chagas, da UFF, nesse período, também foram criadas organizações locais para garantir a melhoria das condições de vida da população feminina lá. Por isso, ela acredita que, ainda que os temores de retrocesso sejam reais, é preciso acompanhar os próximos desdobramentos. Hoje, ela diz que há “apreensão e medo pelas incertezas do que está por vir”. 

Sob o Talibã, as mulheres afegãs passaram a ser obrigadas a usar burca (Foto: Shutterstock)

Migração
Ver homens, em sua maioria, tentando escapar do país, não é algo sem motivo. De forma geral, nas migrações internacionais e deslocamentos forçados recentes, ao redor do mundo, os homens são mais frequentes. Para a professora Rafaela Ludolf, da Unifacs, que pesquisa movimentos migratórios e trabalha com refugiados na Bahia, é preciso entender que a logística de saída é diferente para homens e para mulheres. 

“Por mais que o homem tenha laços familiares e estruturais, muitas vezes a gente está falando de uma mulher que vai precisar fugir, mas com filho”, diz. Ela explica que, apesar de existir uma preocupação das mulheres com a saída, ainda é preciso que as próprias afegãs venham à imprensa para dizer como tem sido. 

Além disso, muitas vezes é até uma estratégia das famílias para que esse homem se estabeleça em um país estrageiro e, depois de emigrar, envie dinheiro para a família ou organize a mudança dos demais. Como explica a professora Gisele Chagas, da UFF, costuma ser um movimento pensado pelas famílias. 

“No caso em questão, seria preciso ouvir os relatos para aprender as motivações, para além das incertezas que o evento trouxe à cena e do medo de retaliações sentido com o retorno do Talibã, tendo em vista que centenas deles trabalharam para as forças de ocupação e para o governo até então”, pondera, citando também a dificuldade de acessar os aeroportos, que ficam nas cidades, por uma parte considerável da população. No final da semana, foram divulgados vídeos de mulheres entregando seus filhos - inclusive bebês - a soldados americanos, para que tirassem as crianças do país. 

Ajuda
Mas toda essa situação acaba inspirando algum desejo de ajudar essas pessoas - em especial, às mulheres -, e o primeiro passo é reconhecer que a autonomia delas, assim como seus desejos, devem ser respeitados, como reforça a professora Gisele Chagas. De acordo com ela, uma das saídas é apoiar economicamente e incentivar iniciativas que promovam melhorias nas condições de vida dessas populações, sem deixar de considerar as decisões das afegãs. 

“Fala-se em incluir mulheres no mercado de trabalho e criar condições de igualdade de oportunidades no Afeganistão e vemos o mesmo se repetir em vários países, então é uma questão mais profunda, de mudanças estruturais reais e globais, que possam garantir lugares seguros para a vida digna das mulheres no Afeganistão e em todas as partes; incluindo políticas decentes de recebimento e apoio a refugiados”, pondera. 

De alguma forma, é preciso deixar que essas mulheres falem - e que sua voz encontre algum eco nas articulações globais. Para a professora Rafaela Ludolf, da Unifacs, ainda que a milhares de quilômetros de distância e sem a capacidade de contemplar o que tem acontecido por lá, é preciso ajudar a consolidar as pautas dos movimentos sociais que trabalham com essa população. Isso inclui acolher essas mulheres, se elas desejarem migrar. 

“Muitas vezes, a população local reage de forma xenofóbica, sem entender que aquele indivíduo não é o problema. O problema está nas políticas, nas grandes potências globais. Se a gente não direcionar para isso, vai estar sempre culpando alguém que não tem culpa. Ninguém pode ser rechaçado ou excluído porque está tentando viver”, reforça. 

Burca não foi criada pelo Talibã, nem é o único véu islâmico

Por muito tempo, a imagem que veio à mente de muitos brasileiros ao pensar nas afegãs foi a de mulheres usando a burca. Aqui no Ocidente, inclusive, muitas vezes o termo era associado a qualquer véu islâmico de forma pejorativa. Mas não é bem assim. A burca, que se tornou símbolo do Afeganistão sob o domínio talibã, seria o mais coberto dos véus para mulheres muçulmanas. 

As burcas, vendidas numa loja no Afeganistão, foram obrigatórias no país entre 1996 e 2001 (Foto: Wikicommons)

É mais do que um véu - é uma vestimenta que cobre todo o corpo. Nem mesmo o espaço dos olhos fica completamente livre de alguma cobertura: nessa área, há uma espécie de redinha que esconde o rosto ao mesmo tempo que permite a visão. O uso da burca era associado à obrigação de se vestir de forma modesta, sem chamar atenção, para garantir a moralidade. Desde 2010, ela já foi proibida em diversos países da Europa, a exemplo de França, Holanda e Dinamarca. 

A burca não é adotada pela maioria dos muçulmanos, assim como também não foi inventada pelo Talibã. A diferença é que, no Afeganistão sob o comando dos extremistas, ela se tornou obrigatória. 

Há diferentes tipos de véus islâmicos, mas o mais conhecido é chamado de hijab. Ele cobre apenas a cabeça e o pescoço, mas deixa o rosto à mostra, além de ser o mais comum no Ocidente. Mas, de certa forma, o hijab também é um termo mais genérico para se referir ao véu, que deve ser usado em público ou na presença de homens que não fazem parte do convívio das mulheres.

Contudo, ao contrário do que foi propagado por muito tempo nos países ocidentais, o uso do véu não necessariamente significa uma opressão para mulheres muçulmanas. Para muitas delas, pode significar, inclusive, uma forma de liberdade.

Para a professora Gisele Chagas, da UFF, criou-se uma “questão” das mulheres afegãs em muitos discursos políticos após os atentados de 11 de Setembro e a ‘Guerra do Terror’, empreendida pelos EUA. É o que a antropóloga Lila Abu-Lughod, professora da Universidade de Columbia, denominou de 'retórica da salvação’ dessas mulheres. 

Gisele explica que, como esses discursos vêm recheados de estereótipos acerca do islã, muitas pessoas no Ocidente começaram a defender que a ‘guerra ao terror’ também implicava ‘libertar’ essas mulheres de suas tradições religiosas. 

“Vinte anos depois, de certo modo, este mesmo discurso tem retornado ao debate sobre os eventos recentes do Afeganistão diluído em questões sobre os possíveis retrocessos para as mulheres afegãs. Neste ponto, é importante ter cuidado para não associar o islã e a pluralidade das formas nas quais é vivenciado com um estereótipo em relação a determinadas práticas locais, tais como as estabelecidas pelo Talibã”, reforça. 

***

Em tempos de coronavírus e desinformação, o CORREIO continua produzindo diariamente informação responsável e apurada pela nossa redação que escreve, edita e entrega notícias nas quais você pode confiar. Assim como o de tantos outros profissionais ligados a atividades essenciais, nosso trabalho tem sido maior do que nunca. Colabore para que nossa equipe de jornalistas seja mantida para entregar a você e todos os baianos conteúdo profissional. Assine o jornal.


Relacionadas