Preocupação, reflexão e gaiatice: baianos reagem ao aumento do preço da cerveja

bahia
30.09.2021, 05:00:00
Atualizado: 30.09.2021, 07:38:57
(Nara Gentil/CORREIO)

Preocupação, reflexão e gaiatice: baianos reagem ao aumento do preço da cerveja

Economista dá dica do que levar em consideração na hora de comprar a bebida

O baiano não tem um minuto de paz mesmo. Teve aumento no gás de cozinha, no combustível, na conta de luz, na carne. Agora é a vez da cerveja. O preço da bebida preferida dos moradores da Bahia vai subir. É que a Ambev, uma das principais cervejarias do país, anunciou nesta terça-feira (28) um reajuste para os seus produtos. Notícia ruim para consumidores como a aposentada Dona Ilzinha Almeida, de 63 anos, que toma cerveja até com pipoca. Ela compra duas caixas de cerveja por semana fazendo estoque para o final de semana, o que dá cerca de R$240 por mês, e está preocupada com esse aumento. “Cerveja agora é artigo de luxo!”, diz ela.

A aposentada costuma se reunir com a família para o tradicional churrasco de domingo e diz que a dinâmica, que já vinha mudando, agora vai precisar passar por nova avaliação. “De uns tempos para cá, nosso churrasco vem se adaptando, é mais de frango, linguiça. Quando alguém aparece com uma carne a gente diz que tirou o pé da lama. E o preço da cerveja já vinha subindo porque estava tudo mais caro. Agora, com o reajuste da cervejaria, vai aumentar ainda mais. Vou ter que comprar menos latinhas, repensar esses gastos. E sou privilegiada por estar preocupada com o preço da cerveja enquanto tem gente passando fome”, pontua Dona Ilzinha. 

Dona Ilzinha, de 63, compra duas caixas de cerveja por semana e diz que vai sentir o aumento no bolso, mas não abre mão da gelada (Foto: Arquivo Pessoal)

Na internet, a notícia também não agradou. "Tragédia anunciada", disse um. "A carne, o gás e o arroz e feijão tudo bem, agora a cerveja? Aí também já é demais", brincou outro. E teve até disse que não ia ficar de braços cruzados diante da situação. "Greveeeee! Queimar pneu na BR! Já tô vindo trabalhar de vermelho e ouvindo Edson Gomes", opinou. Já outro, aproveitou para encontrar uma saída criativa. "Chegou a hora de realizar o sonho de ter o próprio alambique em casa. Cerveja artesanal tá na moda". 

A Ambev é dona de marcas como Original, Brahma, Skol, Antarctica, Serra Malte, Budweiser, Bohemia e Stella Artois. A previsão é de que o reajuste anunciado passe a valer em outubro. A empresa não informou qual será o percentual de aumento. Em nota, a empresa disse que “faz, periodicamente, ajustes nos preços de seus produtos e as mudanças variam de acordo com as regiões, marca, canal de venda e embalagem”. 

A Abrasel (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes) disse que o aumento de preços deve ser alinhado com a inflação acumulada nos últimos 12 meses, em torno de 10%, e que o valor será repassado imediatamente ao consumidor. No comunicado enviado a clientes e distribuidores, a cervejaria afirma que o reajuste vai seguir a variação da inflação, dos custos, câmbio e carga tributária.

Segundo o economista e educador financeiro Edval Landulfo, o aumento na cerveja é o acúmulo de uma série de outros aumentos. “Insumos como trigo, malte, milho e cevada têm preferência pelo mercado internacional por conta do dólar, o real está desvalorizado e acaba que uma menor quantidade fica para o mercado interno. Além disso, a gente tem a crise hídrica e o aumento do valor da energia elétrica. Isso tudo é essencial para as fábricas, cerca de 95% da cerveja é água. E não podemos esquecer do combustível porque tem o custo do transporte desse produto”, explica. 

Landulfo faz questão de ressaltar que os reajustes de preço acontecem todos os anos, principalmente com a chegada da Primavera e do Verão, mas que o aumento deste ano pode ser mais elevado por conta da pandemia. “Tivemos aumento do consumo de bebida alcoólica na pandemia, principalmente a cerveja, em casa, mas os estabelecimentos estavam fechados e são eles que formam a maior parcela do consumo. E o valor do trigo, por exemplo, já vem tendo aumento desde 2020 e muito disso não vinha sendo repassado, fazendo as cervejarias reclamarem”, destaca. 

Vai pesar no bolso

Seja qual for o percentual de aumento, o preço vai fazer diferença no bolso do brasileiro. O setor cervejeiro representa 1,6% do PIB do país e conta com 1,2 milhão de pontos de venda. Em 2017, foram R$107 bilhões de faturamento, segundo dados da Associação Brasileira da Indústria da Cerveja (CervBrasil). Até 2020, 1.383 cervejarias estavam cadastradas no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). 

Mas o principal afetado vai ser o soteropolitano. Isso porque Salvador é a capital que mais faz consumo recreativo de álcool. Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde 2019, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2020, 40,2% dos soteropolitanos bebem álcool ao menos uma vez por semana. 

Olhando para o estado, o número é um pouco menor. A Bahia fica na oitava posição, com 26,7% (42 milhões) dos adultos afirmando consumir bebida alcoólica pelo menos uma vez por semana. E a cerveja é, sim, a bebida preferida por aqui. É isso que mostra a pesquisa do IBOPE Inteligência, encomendada pela Associação Brasileira da Indústria da Cerveja em 2014. Cerca de 80% dos baianos preferiam a cerveja. Essa foi a maior porcentagem entre os estados brasileiros. 

Por isso, o economista e educador financeiro Edval Landulfo, dá dicas do que fazer para não precisar abrir mão da cerveja. “O consumidor pode mudar para uma marca que esteja mais barata ou diminuir a quantidade de latinhas que costuma comprar e a quantidade de dias na semana que consome bebida. Se a cerveja for essencial para aquela pessoa e pesar muito no bolso, ela deve ver o que pode deixar de comprar para não abrir mão da cerveja”, diz.  

Landulfo, como consumidor, revela que não gostou do anúncio de reajuste. “Hoje tem jogo do Flamengo e ainda bem que a minha cerveja já está comprada porque esse aumento logo na chegada da Primavera não é notícia boa”. Ele ainda conta as estratégias que adota como fã de uma gelada. “Eu costumo pesquisar o preço e comparar depósito com supermercado e delivery que a bebida já vem gelada. Aí eu calculo se vale mais a pena a latinha ou a garrafa, tudo na ponta do lápis. Outra dica é preferir beber em casa porque nas confraternizações na rua você vai conversando e a cerveja vai descendo, às vezes não dá para controlar não”, aconselha. 

Procurado, o Grupo Petrópolis (que tem marcas como Itaipava, Crystal, Petra) disse que não vai se pronunciar sobre o assunto e não informou se também apresentará reajuste. Já o Grupo Heineken (que tem marcas como Heineken, Sol, Bavaria, Eisenbahn, Schin e Devassa) disse que já aplicou aumento de preços em 2021 e que não tem previsão de novo reajuste para este ano. A nota diz ainda que“revisões na tabela de preços estão relacionadas à dinâmica natural do mercado brasileiro e às necessidades de compensar principalmente os impactos da valorização do dólar nos custos de nossas matérias-primas e dos custos logísticos muito atrelado ao preço dos combustíveis”. 

 (Foto: Nara Gentil/CORREIO)

O que os donos de bares estão achando disso?

José Raimundo, proprietário do Bar do França, diz que o carro-chefe de todo barzinho que se preze é a cerveja. Para ele, a loira é a preferida dos seus clientes e de todo baiano. “Eu costumo dizer que, se você abrir um bar com um monte de mesa e cadeira bonita mas sem cerveja, vai ser um fracasso. Mas você pode abrir um bar sem nada, só com cerveja, que ainda assim vai ser um sucesso”, diz ele, rindo. 

O proprietário afirma que já sabia que uma hora a conta ia pesar para a cerveja. “Tudo está aumentando, eu sabia que a hora da cerveja iria chegar. Aumentou o peixe, camarão, arroz, feijão, gás...Acho que a cerveja até demorou para subir o preço. E aí não tem jeito, tem que repassar para o cliente. Mas a gente vai repassar só o essencial mesmo, fazer uma alteração honesta no cardápio. Espero que o cliente possa entender, não se assuste e isso não impacte tanto para ele”, afirma.  

O proprietário dos bares Boteco Rv e Parador Z1, Sílvio Pessoa, que também é presidente da Federação Baiana de Turismo e Hospitalidade do Estado da Bahia (FeTur), lembra que o preço da cerveja sozinho não é o problema, mas a combinação de aumentos. “E não tem só o aumento da cerveja, tem o aumento da energia elétrica e os salários dos funcionários, por exemplo; vamos ter que refazer o cardápio. E claro que, num momento de pandemia, isso vai afastar os clientes porque muitos não têm a mesma renda que tinham antes, têm que priorizar as coisas que compram”, coloca. 

Rafael Prazeres , proprietário Oxente Bar e Petiscaria diz que, há pouco, já precisou lidar com o reajuste das cervejas do Grupo Petrópolis (que não informou quando houve o aumento e de quanto foi) e que, o reajuste da Ambev agora vem para complicar ainda mais a situação. “Esse era um momento para a gente recuperar o que perdemos na pandemia, de voltar a respirar e pagar os empréstimos que fizemos, mas, infelizmente, os aumentos estão quebrando um pouco essa expectativa”, diz. 

Já o diretor de marketing do Boteco do Caranguejo, Wagner Miau, diz que uma saída para esse reajuste das cervejas pode ser o gin. “O brasileiro é apaixonado por cerveja, acredito que o reajuste não vai afastar os clientes. Mas vale ressaltar que estamos tendo um grande destaque para o gin agora, vem crescendo absurdamente esse consumo e eu apostaria nessa bebida”, alerta. 

Preços da cerveja em Salvador (Segundo o aplicativo Preço da Hora):

Ambev

  • Brahma Duplo Malte lata 350 ml - R$ 2,24 (Hiper Bompreço Campo Grande) a R$ 6,40 (Trevo Conveniência, Cabula)
  • Stella Artois Long Neck 275 ml - R$ 3,68 (Mix Bahia Águas Claras) a R$ 8,99 (Auto Posto Centenário, Chame-Chame)
  • Budweiser lata 350 ml - R$ 2,97 (Atakadão Caminho de Areia) a R$ 6,90 (Posto Metro Santa Teresa)

Heineken

  • Heineken long neck 330 ml - R$ 4,79 (Bompreço Nazaré) a R$ 11,00 (Conveniência Posto Escola STIEP)
  • Shin lata 350 ml - R$ 1,59 (Salvador A+ Bebidas Canabrava) a R$ 5,20 (Aero Conveniência São Cristóvão)
  • Kaiser lata 350 ml - R$ 2,79 (Extra Imbuí) a R$ 3,99 (Delicatessen do Sertão, Garcia)

Petrópolis

  • Itaipava lata 350 ml - R$ 1,88 (Atacadão Canabrava) a R$ 5,99 (Aero Conveniência São Cristóvão)
  • Petra lata 350 ml - R$ 2,06 (Fort Pirajá Supermercado) a R$ 6,10 (Conveniência Posto Escola STIEP)
  • Lokal Bier latão 473 ml - R$ 2,29 (Cesta do Povo Eng. Velho de Brotas) a R$ 3,66 (Jota Jota Mercado Bonfim)


*Com orientação da chefe de reportagem Perla Ribeiro

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