Quando a resiliência fica tóxica no trabalho? Veja como identificar

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18.01.2022, 06:23:00
A resiliência gera bem estar e não deve ser confundida com a positividade tóxica, que adoece ambientes de trabalho (shutterstock/reprodução)

Quando a resiliência fica tóxica no trabalho? Veja como identificar

Superar revezes é fundamental no trabalho, mas cuidado para que isso não se transforme em abuso

Todas as vezes que um corpo é submetido à alguma deformação física mas consegue retomar ao formato original, a física chama essa propriedade de resiliência. No campo emocional, são chamadas de resilientes pessoas capazes de superar dificuldades e revezes, especialmente em ambientes adoecidos. 

Nos ambientes corporativo, a resiliência é uma habilidade valorizada. A doutora em Psicologia da Uninassau Fernanda Brito explica que quando há uma cobrança excessiva para que o trabalhador seja constantemente resiliente, muitos aspectos disfuncionais de sua rotina podem ser desconsiderados, tais como: sobrecarga de atividades, má gestão de conflitos e até mesmo questões de assédio no trabalho. “Tudo isso pode acabar conduzindo aos níveis elevados de estresse, burnout e outros transtornos”, esclarece.

A psicóloga e professora Fernanda Brito ressalta que, quando o comportamento resiliente vem acompanhado de insistentes cobranças e pressão, há uma disfunção capaz de adoecer (Foto: Divulgação)

A CEO da The Soul Factor, empresa de Executive Search, sediada nos EUA especializada em encontrar talentos para organizações multinacionais, digitais ou em transformação digital, Erica Castelo explica que o comportamento resiliente promove bem estar, sentimento de superação, desenvolve competências. “A exploração do profissional, por sua vez, gera medo, frustração, sentimento de inferioridade, estresse”, pontua. 

Esgotamentos

Erica salienta que essa exploração acontece quando, objetivos considerados aparentemente "empolgantes ou ousados", mascaram práticas abusivas que geram esgotamento mental e físico. “Um exemplo são as culturas corporativas que levam os funcionários ao limites de exaustão, submetidos a 60 ou mais horas de trabalho por semana. Quando essa prática fica enraizada na cultura, o colaborador que não adere a ela se sente muitas vezes inferiorizado não apenas por seus líderes como pelos demais colegas, acostumados a serem avaliados por quantidade de horas como medida de ‘vestir a camisa’ “. 

Erica Castelo salienta que comportamentos considerados arrojados podem esconder situações de abuso e assédio moral (Foto: Divulgação)

A administradora ilustra sua afirmativa com a experiência de bancos, em Wall Street, que costumam usar esse modelo, intensificado ainda mais pelo trabalho remoto, onde a jornada exaustiva será compensada por "um futuro brilhante", mas que na verdade gera danos morais e mentais que podem trazer sequelas para sempre na vida das pessoas. 

“Reconhecer esse limite pessoal é chave para a distinção entre o bullying (relação abusiva) ou o exercício da resiliência. Se o sentimento de satisfação por alcançar desafios e superar dificuldades foi substituído por um desconforto persistente, que envolve sentimentos ruins como medo ,apreensão, sentimento de inferioridade e estresse insuportável, essa então chamada "resiliência" certamente está ultrapassando os limites saudáveis”, orienta Erica Castelo.

Respiros

Com uma postura próxima Fernanda destaca que um trabalhador que superou uma dificuldade no ambiente de trabalho e já foi convocado a lidar com outras na sequência, possivelmente fará um quadro de estresse e fadiga crônica pois não houve tempo hábil para que seu organismo se recuperasse do estressor inicial.  “Valorizar os aspectos positivos e saudáveis no ambiente de trabalho, como o comportamento resiliente, não deve significar ignorar as vivências de sofrimento no trabalho, principalmente nos cenários atuais de intensa precarização”, reforça. 

A psicóloga destaca que a crescente fluidez e flexibilidade do mercado de trabalho tem sido marcada por padrões temporários de contratação, uso de plataformas online que perpetuam a subordinação algorítmica e a pejotização do trabalho. “Todo este contexto tem levado à fragmentação da classe trabalhadora; corrosão de direitos; acentuação de desigualdades e embaralhamento do tempo de vida e tempo de trabalho. Assim, coloca-se sob o trabalhador um excesso de responsabilização tanto sobre seu desempenho, e principalmente sobre seu bem-estar”, complementa. 

Para Fernanda, na prática, as fronteiras entre a exploração do profissional e o comportamento resiliente não são fáceis de serem delimitadas pois muitas variáveis estão em jogo, mas é possível observar o extrapolar dessas fronteiras no nosso mundo do trabalho atual, principalmente pelos elevados níveis de estresse dos trabalhadores. “Trabalhadores sadios dependem necessariamente de um contexto sadio: relações interpessoais construídas de forma respeitosa e colaborativa, fortalecendo o senso de coletividade nas equipes, bem como observar de que forma as políticas e práticas organizacionais impulsionam saúde ou não, para aumentar aspectos promotores de saúde e minimizar os riscos de sofrimento físico e psíquico no trabalho”, diz.

A professora diz que positividade se constrói também no combate aos aspectos adoecedores e não somente na reafirmação de que é importante ser resiliente, grato e feliz como forma de mascarar os riscos e prejuízos. “Desse modo, é fundamental que organizações e gestores valorizem o que é funcional e impulsiona ao crescimento, mas que haja atenção às dificuldades de modo realista para que essa trajetória de crescimento seja sustentável ao longo do tempo”, conclui.


Resiliência com bem estar

  1. Mantenha a flexibilidade, afinal a mudança é parte da vida;
  2. Defina metas realistas;
  3. Busque uma atitude positiva;
  4. Invista na comunicação interpessoal;
  5. Busque se conhecer; 
  6. Registre os sentimentos; 
  7. Preserve o descanso e a prática de atividades prazerosas.

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