Quantas vezes você já achou que pegou covid?

coronavírus
16.05.2021, 11:00:00
Atualizado: 20.05.2021, 16:10:14
(Imagem: Morgana Lima/ Estúdio Grida)

Quantas vezes você já achou que pegou covid?

Ansiedade e medo de contrair vírus podem levar a manifestações de sintomas mesmo sem a presença da doença

Toda sexta-feira, o empresário Marcus Brito, de 41 anos, achava que tinha pego covid. “Sentia falta de ar, dor nas pernas, coluna. Pronto, estou infectado. Não esperei nem três dias para testar e cheguei até a duvidar dos resultados do PCR, mesmo dando negativo. Eu morro de medo de pegar essa doença”. Do início da pandemia para cá, Marcus já fez sete testagens PCR, mais exames de sangue. Três desses, só esse ano. A ‘nóia’ era tanta, que ele convencia até sua esposa a testar também, mesmo sem ela ter nenhum sintoma.

“Levei várias ‘broncas’ da médica. Só houve uma vez em que ela suspeitou que eu pudesse ter me contaminado. Para adiantar o processo, me deu uma receita, mas reforçou que eu só comprasse e iniciasse a medicação, caso o resultado do teste fosse positivo. Não deu outra: assim que eu saí do consultório, corri para farmácia e comprei tudo. Só não tomei os remédios porque minha esposa não deixou. Tenho um quadro alérgico e tudo isso acaba me deixando com muita ansiedade. Evito até assistir televisão para não ver o número de mortes”, confessa.

Nesses últimos tempos, quem não se desesperou com uma tosse que surgiu do nada, uma dor de cabeça insistente ou até um cansaço no corpo e bateu de imediato o pânico de que poderia estar com covid? E quando o resultado do teste (finalmente) chega, está lá: negativo. Pandemia, isolamento, horror em se contaminar, fobia social. Tudo isso pode servir de gatilho para o desenvolvimento de sintomas psicossomáticos sem que haja a presença da doença física, por mais reais que os sinais pareçam. Os exames clínicos são feitos, mas nada é detectado. 

“A pandemia trouxe à tona uma crise de saúde mental marcada por um aumento do sofrimento emocional generalizado. O medo de adoecer ou ter seus familiares infectados e a consequente preocupação com os números de mortes, assim como uma superexposição a notícias com desfechos desfavoráveis são alguns dos fatores que contribuem para o aumento dos índices de adoecimento mental”, explica a doutora em Medicina e Saúde pela Universidade Federal da Bahia (Ufba) e psiquiatra da unidade de Atenção Psicossocial do Hospital Universitário Professor Edgard Santos (Hupes), Fernanda Correia. Por conta da alta demanda, a unidade não está atendendo a pacientes novos, porém, o CORREIO listou algumas opções gratuitas onde é possível buscar ajuda psicológica gratuita nesse momento (veja abaixo).

O elevado nível de ansiedade em relação à saúde ou quando essa pessoa se alarma facilmente a respeito do seu estado, acaba ocasionando ao que Fernanda chama de transtorno de sintomas somáticos.

“O termo substitui vários outros diagnósticos utilizados antigamente, como transtorno de somatização, hipocondria, transtorno somatoforme, por exemplo. A principal característica é, justamente, a manifestação de fatores mentais na forma de sintomas físicos. No contexto da pandemia, as queixas mais comuns podem ser tosse, febre, falta de ar e taquicardia”, esclarece.   

A psiquiatra cita ainda um estudo realizado no Brasil em 2020, publicado na revista científica The Lancet, no início do ano, que mostrou resultados de uma investigação sobre a ocorrência e determinantes de sintomas psiquiátricos na população geral brasileira durante a pandemia. O levantamento foi feito pelo Laboratório de Psiquiatria Molecular, Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA) com a Unidade de Pesquisa do Centro Fòrum, Parc de Salut Mar, em Barcelona, na Espanha.

Foram avaliadas variáveis sociodemográficas e saúde mental, tendo como achados mais comuns: ansiedade (81,9%), depressão (68%), sintomas somáticos (62,6%) e prejuízo do sono (55,3%).  “Os números sinalizam o impacto negativo da pandemia na saúde mental da população, portanto, sendo considerado um problema de saúde pública no nosso país”, analisa.

O relações públicas Tiago Carapiá, de 38 anos, é daqueles que utilizam álcool gel em excesso, fazem parte da turma da limpeza exagerada e só andam em posse de muitas máscaras. Todo cuidado, é pouco. Já o estresse para lidar com tudo isso, nem tanto. Até que um dia, bateu uma falta de ar. Sudorese demasiada, corpo exaurido. Não pensou duas vezes, correu para a emergência certo (e muito assustado) de que tinha pego covid.

“Desenvolvi processos sintomáticos e suspeitei ter me infectado. Veio uma angústia e eu só pensava na responsabilidade de ter uma filha para cuidar. Fiz o teste e, graças a Deus, deu negativo. O médico me disse que, provavelmente, os sintomas que tive decorreram do stress desencadeado pela pandemia”.

O luto coletivo de mais de 420 mil mortes se soma aos efeitos do agravamento da crise econômica, política, no sistema de saúde e, enfim, uma incerteza imensa com relação ao futuro e ao andamento do processo de vacinação da população. É, não está fácil.  “Inevitavelmente apresentei quadro de ansiedade, fruto de tudo isso”, complementa Carapiá.

Somatização e sofrimento
Os sintomas psicossomáticos ocorrem quando algo acaba afetando emocionalmente. O psicólogo da plataforma de terapia online Zenklub, Iury Florindo pontua que a ansiedade favorece a somatização. Na plataforma que tem, atualmente, 120 mil clientes atendidos  e realiza uma média de  50 mil sessões por mês, o aumento na procura pela psicoterapia cresceu 515% durante a pandemia. Ao todo, são 4 mil profissionais que prestam esse serviço no Zenklub, disponível para em 124 países, entre eles o Brasil e 980 cidades.  

“A ansiedade funciona como uma espécie de alerta, aumentando a intensidade do que estamos sentindo. Ficamos mais vulneráveis e sensíveis. A pessoa com sintomas psicossomáticos pode ficar mais impulsiva, recorrendo à automedicação, por exemplo. Os sintomas permanecem e quanto mais tempo, maior o medo e ansiedade por não ter uma resposta com um diagnóstico”.

A aposentada Iracema Plácido, de 59 anos, começou a apresentar quadro de angústia e insônia frequente. Ficou praticamente seis meses sem sair, e, nas primeiras vezes em que saiu, a vontade era de voltar correndo para casa. Um dia, acordou sentindo congestão nasal, coriza, dor de cabeça e cansaço. “Acreditei firmemente que estava com covid. Entrei em pânico. Fiz cinco dias de isolamento no meu quarto mesmo sem o resultado do teste ter saído. Já me imaginei hospitalizada e pensei inclusive que poderia morrer”, conta.

Em janeiro, a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), em conjunto com a Associação Brasileira de Impulsividade e Patologia Dual (ABIPD), Associação Brasileira do Déficit de Atenção (ABDA) e a Universidade do Texas e Mackenzie divulgaram os resultados da pesquisa ‘Saúde mental e Covid-19: como você está se adaptando?’, que constatou que o medo foi o principal sentimento dos brasileiros ao longo do primeiro semestre de convivência com a pandemia causada pela covid-19.  

O estudo ouviu mais de 200 mil profissionais da área de saúde e mais 8 mil pessoas de outros segmentos, via a aplicação de um questionário na internet. No final do ano passado, o levantamento iniciou uma nova fase, em que pretende mapear esse novo momento da pandemia e analisar como as pessoas estão sobrevivendo ao processo, além dos impactos na saúde mental dos brasileiros.

Quanto maior a sensação de vulnerabilidade, mais ansiosas as pessoas ficam e isso amplia qualquer coisa que ela esteja sentindo, como pontua ainda Florindo. “Isso significa que a pessoa fica muito focada em seus pensamentos e medos. Os sintomas psicossomáticos trazem muitos problemas. A performance no trabalho pode ser afetada, a qualidade do sono e a sensação de pensamento acelerado trazem muita fadiga mental e no corpo. Em algumas situações, leva até à depressão”.

Para a professora do Instituto de Saúde Coletiva da Ufba, Carmen Teixeira, vencer esse sofrimento psíquico é um grande desafio no cenário atual e certamente será o principal problema que vamos enfrentar no pós-pandemia. “A rapidez com que estas mudanças estão se processando, evidentemente, produz instabilidades na vida cotidiana, gerando, muitas vezes, desequilíbrios na atividade psíquica e psicossocial, e, no limite, problemas que podem ser identificados como transtornos mentais. O principal caminho para superar as angústias provocadas pela pandemia, é encontrar uma solução para estas múltiplas crises”, analisa.

Equilíbrio
Quando buscar ajuda? A psiquiatra, doutora em Medicina e coordenadora do Centro de Estudos da Holiste Psiquiatria, Fabiana Nery, diz que tratar a ansiedade é o primeiro passo para evitar a ocorrência de sintomas de somatização.

“Após excluir a chance de  doença clínica é buscar ajuda profissional e fazer um diagnóstico adequado. A psicoterapia é o tratamento indicado, a depender da intensidade dos sintomas e dos quadros depressivos e ansiosos associados. Em algumas situações, o tratamento inclui o uso de medicação ansiolítica e antidepressiva”.

Fadiga, cansaço na respiração, tosse seca e um pouco de febre. Há uns cinco meses, a bacharel em Direito,  Májilla Azevedo, 30 anos, sentiu algo semelhante a uma gripe. “Veio aquele medo de contaminar as pessoas que moram comigo. Após 48 horas, o resultado do PCR saiu. Que sensação maravilhosa de alívio. Já tive quadros de ansiedade no início da pandemia, o que me levou a buscar uma terapia, sim. Isso foi essencial para me ajudar a entender esse momento que estamos passando”, conta.

Manter a saúde mental na pandemia significa entender o que dispara os movimentos de ansiedade que levam as somatizações e a melhor maneira de controlá-los. É o que recomenda a psicóloga mestra em Ciências da Família pela Universidade Lateranense de Roma e professora da Unifacs, Leonor Guimarães. “Somatizamos quando apresentamos no corpo um sintoma que tem fundamento emocional e a psicoterapia pode auxiliar muito nesse autoconhecimento. É desenvolver processos de relaxamento, filtrar os excessos, permitir-se o descanso”.

Além do acompanhamento com um psicólogo, Májilla, procurou outras atividades para fazer onde encontrou espaço para dispersar essa ansiedade. “Faço exercícios físicos em casa mesmo e meditação. Manter a mente ocupada é a chave. Aposto em cursos novos, me aprimoro no que tenho interesse e gosto. Isso me faz muito bem. E assim vamos dando seguimento à vida, como podemos”, completa ela, sem deixar de respirar fundo e de torcer para que tudo isso passe.

Quando o resultado do teste pode dar falso negativo? 
Imunologista, pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz/ Instituto Gonçalo Moniz (Fiocruz Bahia) e da Rede CoVida, além de professora da Faculdade de Medicina da Ufba, Viviane Boaventura explica que alguns fatores podem acabar levando ao resultado de falso negativo para covid-19 na testagem RT-PCR Nasal, sobretudo, no momento em que é feita a coleta para o exame.

“Esse é o teste que consideramos padrão ouro para detecção da doença. Quando a coleta deve ser feita na região posterior do nariz, área com acesso muito difícil. Então, às vezes, esse material não é recolhido no local certo. Outro fator está relacionado ao tempo. Se o exame demorar muito para ser colhido e a pessoa já tiver alguns dias de doença, principalmente se for um período acima de sete dias, isso também aumenta as chances de ter um resultado falso negativo”.


CINCO DICAS PARA MELHORAR SUA SAÚDE MENTAL

Exercícios respiratórios
Principalmente nos momentos de maior acentuação de sintomas, como taquicardia e arritmia, ansiedade aguda e agitação.

Prática regular de exercícios físicos
Isso inclui desde alongamentos que podem ser feitos em casa até caminhadas em espaços abertas e sempre protegido com o uso de máscara e com medidas de distanciamento.

Meditação
Reserve momentos de recolhimento, que podem ser acompanhados pela audição de músicas, relaxamento muscular e tranquilidade no curso dos pensamentos.

Evite o abuso de álcool
Muitas vezes, entendidas como forma de “escape” à situação de estresse, o consumo em excesso não vai ajudar e pode levar a outros problemas.

Tente manter horários regulares para o sono
Cuidado com a mega exposição às notícias sobre o coronavírus, sobretudo, antes de dormir e reserve sempre 30 minutos para práticas de autocuidado. É um tempo seu para relaxar. Faça coisas que gosta, pense no que te faz bem. Um livro, um filme, uma nova atividade que descobriu na pandemia. Tudo isso ajuda. Mantenha o relacionamento social com familiares e amigos, ainda que seja através de meios virtuais. É importante exercitar a afetividade e a solidariedade com o outro.


PRINCIPAIS FATORES QUE INTERFEREM NA SOMATIZAÇÃO

. Personalidades menos adaptadas a ambientes mais conflituosos Ou seja, são pessoas com características de personalidade que dificultam a adaptação a situações estressantes, como, por exemplo, baixo nível de resiliência, inflexibilidade e ansiedade.  

. Hiperexposição a notícias relacionadas a fatos negativos O consumo em excesso de notícias, sobretudo, relacionadas às perdas na pandemia aumentam o sofrimento psíquico, a angústia e o medo do futuro.

. Medos, perigo e sensação de vulnerabilidade O receio de ser infectado pelo vírus, a preocupação em exacerbada e o foco nesses pensamentos também aumentam a ansiedade.

. Angústia e insônia  São mais comportamentos que estão ligados à questão do medo e contribuem para a somatização.


ONDE BUSCAR  ACOLHIMENTO PSICOLÓGICO GRATUITO? 

1. Projeto de Psicologia Online As marcações de atendimento podem ser feitas nos números de WhatsApp (71) 99696-0507 ou (71) 9 96525298.

2. Plantão Psicológico da Unijorge  O atendimento é  por telefone por psicólogos do curso de Psicologia da instituição, inscritos no CRP e autorizados a fazer atendimento virtual. Marcações e horários nos telefones: (71) 9 9680-5527 (Ana Dalva Damacena), (71) 9 8216-1222 (Lelciu Muniz), (73) 9 8239-1000 (Jorge Ícaro Medeiros) e (71) 9 9244-3646 (Lorena Santana)

3. Serviço de Psicologia da UniRuy Os interessados devem entrar em contato por meio do telefone (71) 3205-1745. Após o contato inicial, as solicitações serão avaliadas e os atendimentos agendados. As consultas de forma remota e gratuita.

4.UniFTC  O atendimento do Plantão Psicológico acontece de segunda a quinta  das 8h às 12h e 14h às 18h. Atendimento imediato é no link  //bit.ly/plantaopsicologicouniftc. Já para quem busca psicoterapia, a marcação deve ser feita na Clínica Escola Centro Universitário UniFTC Salvador  com inscrições em bit.ly/acolhimentopsiuniftcssa.

5. Centros de Atenção Psicossocial O estado da Bahia tem 226 CAPS espalhados pelos municípios.  Consulte informações e locais de atendimento em https://bityli.com/l3FPo

6. UNIME Salvador O atendimento em psicologa é oferecido para a comunidade carente pode ser agendado através do e-mail  servicopsiunime@hotmail.com. Neste momento da pandemia, o atendimento está sendo feito no formato online, com acolhimento e plantão psicológico.

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