Quantos amigos você tem? Entenda o porquê de a pandemia ter forçado um outro desenho das nossas amizades

entre
11.09.2021, 07:00:00
Atualizado: 11.09.2021, 22:48:05
(Ilustração: Morgana Lima/ Estúdio Grida)

Quantos amigos você tem? Entenda o porquê de a pandemia ter forçado um outro desenho das nossas amizades

Nova galera: veja também cinco comportamentos que enfraquecem qualquer amizade em tempos de coronavírus

Há quem tenha um melhor amigo, outro de infância ou a 'panelinha' de sempre. As amizades do trabalho, de balada, da faculdade e até aquelas que surgem do convívio com amigos de amigos ou – quem nunca – num ponto de ônibus. Alguns poucos, mas bons. Outros, muitos, de inúmeras conexões. Mas, alguém aí duvida que a pandemia sacudiu todas as relações, mesmo as mais cheias de afeto? 

Desde o início, a corretora de imóveis Maria Rescala, 40 anos, levou à risca a máxima do “fique em casa” e permaneceu confinada, na própria bolha, com a família. Contato com amigos, só por ligação e chamada de vídeo. Se, por um lado, o distanciamento em tempos de covid manteve os mais íntimos, por outro, a fez repensar quem realmente valeria a pena ter por perto. 

“Uma amiga minha e das melhores: negacionista. Tivemos brigas pesadas por conta disso. A negação me tira do sério, cheguei até a oferecer dinheiro para que se imunizasse, mas ela disse que não aceitaria nada. Não me encontro com ninguém sem máscara”, enfatiza Maria que, por mais que tentasse, não conseguiu convencer a amiga. “Até hoje não tomou nenhuma dose da vacina. São decepções que têm muito mais a ver com o vírus Bolsonaro do que o vírus covid. Mas só enfraqueceu o que não era amizade”. 

O fato é que, em tempos de coronavírus, dá para contar nos dedos, de uma mão só, quantas amizades íntimas somos realmente capazes de manter. Pelo menos é o que mostra um estudo feito pelo antropólogo britânico, psicólogo e professor emérito de Psicologia Evolutiva da Universidade de Oxford, Robin Dunbar. No livro "Friends: Understanding the Power of our Most Important Relationships" (Amigos: compreendendo o poder de nossos relacionamentos mais importantes, em tradução livre/ Little, Brown Book Group, 2021), Dunbar afirma que os humanos têm, em média, cinco amizades íntimas. 

Na obra que foi lançada nos últimos meses, o especialista mistura insights de pesquisas científicas com experiências e cultura para defender que tanto fazer novas amizades quanto preservá-las é algo muito custoso em termos de tempo e de mecanismos cognitivos, já que os laços sociais exigem constância, atenção e presença.

“Os amigos são importantes para nós e mais do que pensamos. O número e a qualidade das amizades que temos tem uma influência maior em nossa felicidade, saúde e até mesmo no risco de mortalidade do que qualquer outra coisa, exceto parar de fumar”, descreve o conteúdo da capa interna do livro escrito por Dunbar. 

O problema é que as amizades estremeceram, quando a crise do coronavírus fez com que muita gente redesenhasse suas conexões. Não faltam exemplos como o caso da atriz americana Jennifer Aniston – ícone do seriado Friends (NBC/ 1994-2004) - que anunciou, em público, o rompimento com amigos negacionistas.

“Acabo de perder algumas pessoas da minha rotina semanal. Ainda há um grande grupo de pessoas que são antivaxxers (anti-vacinas) ou simplesmente não dão ouvidos aos fatos. É uma verdadeira vergonha", disse no mês passado à revista americana InStyle, depois da repercussão de postagens no seu perfil do Instragram sobre a decisão de afastar os antivaxxers do seu círculo de amizades. 

Atriz e humorista, Tatá Werneck foi mais uma que desfez amizades na pandemia, especialmente com outros artistas que participaram de aglomerações. “Comportamento diz muito. Passei a observar mais o quanto a pessoa é empática pela dor do outro, o quanto ela é egoísta", afirmou em uma caixa de perguntas nos stories de seu perfil nas redes sociais, ao ser questionada pelos seguidores sobre amizades desfeitas recentemente. 

A cantora Iza também acabou com amizades por comportamento negativo. “Não estou falando de juntar dois, três amigos e ficar em casa, não. Tô falando de festa, cinco mil cabeças. Aí está de sacanagem, né? Eu perdi gente para a covid. Acho que é por isso que não tenho condição de voltar a falar com essas pessoas. É muito cruel e você não está nem aí, podendo estar em casa”, criticou, em entrevista ao colunista Léo Dias, para o site Metrópoles. 

Para o psiquiatra da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e psicanalista autor dos livros Psicanalista, autor dos livros A loucura entre nós e Selfie, logo existo (Corrupio, 2018) e Ruídos e Silêncios da Vida Confinada (LDM, 2021), Marcelo Veras, a polarização, principalmente, política, fez com que lados opostos simplesmente não pudessem mais dialogar, o que produziu um “outro” que pensa diferente, um quase um anti-espelho de si mesmo. 

“O amigo íntimo é aquele que nos conhece para além de nossas máscaras sociais contudo, isso é uma 'faca de dois gumes', pois essa pode ser a mesma razão para não tolerarmos mais alguém. Esse anti-espelho é o reflexo do que mais detestamos em nossa humanidade. Algumas amizades não serão mais refeitas, assim como amores e mesmo laços de família”. 

Se um dos principais motivos de rompimento tem sido a negação à vacina, ainda tem muita amizade ameaçada por aí. Isso porque, de acordo com dados atualizados no fim da tarde de sexta-feira (10) pela Secretaria Municipal de Salvador (SMS), na capital, 76.390 do público estimado cadastrado de 17 a 29 anos ainda não tomaram nem a primeira dose do imunizante, o que corresponde a 16% dos não vacinados.

Permanecem as amizades que podem passar meses ou anos sem encontrar e, quando se encontram, há algum sentimento que ainda os une, como destaca Veras. "Ficam as relações que conseguem suportar as diferenças. É bom lembrar que a maior prova de amizade não é ficar com nossos amigos infalíveis, é continuar gostando deles quando eles “furam” conosco ou nos magoam. Sabemos, inclusive, que algumas de nossas amizades não resistiriam a um convívio cotidiano, mas no momento em que as coisas pegam elas estão sempre lá para nos ajudar e vice-versa”, analisa.

Porque somos amigos 
A assistente jurídica Hanna Ferreira, 24 anos, passou por esse processo de rever todas as suas conexões de amizade quando se viu sem a presença física dos amigos. “Todo final de semana eu estava em festas. Com a pandemia, vi esses amigos participarem de festas clandestinas. Não estavam nem aí. Passei a aprender a apreciar a minha própria companhia, parei de beber, foquei no meu autoconhecimento e percebi que aquele pessoal não tinha mais nada a ver comigo. Não faz parte nem mais das minhas redes sociais”, conta. 

Longe de manter um milhão de amigos, ficaram as pessoas que se importam. “Tudo isso me fez perceber que eu era muito influenciável, que tinha uma necessidade de estar em festas e bebendo com a galera. Tive uma amiga que disse que não tomaria a vacina porque não queria pegar fila. Me afastei”. 

No caso do pesquisador Matheus Queiroz, 28 anos, quem cada um realmente é e como vem se comportando diante de um cenário pandêmico o levou a repensar quem enfraquece ou não a amizade – ainda que o seu círculo mais íntimo fosse restrito, independente do coronavírus. 

“Sou meio fechado em abrir coisas íntimas da minha vida. Porém, meus amigos são baseados, essencialmente, em afinidades de ideologia e de valores. Quem tiver sintonia vai ficar com ou sem pandemia”. A relação ficou estremecida com um amigo que confirmou o teste positivo, para covid-19, num dia e no outro estava na rua, sem o menor isolamento social. “A pandemia ressignificou as maneiras de contato, com isso terminou afastando algumas pessoas. Preferi ficar distante”, ressalta. 

As pessoas se tornam amigas a partir das trocas de afeto, informações e apoio proporcionado pela convivência natural, como explica o professor do curso de Psicologia da Unijorge, mestre em psicologia e psicólogo clínico, Cláudio Seal.

“As amizades podem ser de vários níveis e objetivos diferentes. Ela sofre mudanças, pois os indivíduos estão sempre se transformando e assumindo novos papéis na relação. A manutenção de cada amizade depende dessa troca e de um reforçamento mútuo”. 

De quantas amizades uma pessoa precisa?  
O doutor em Filosofia e professor da Faculdade de Filosofia da Universidade Federal do Pará, Ernani Chaves, ressalta que a amizade tem uma história, assim como os outros afetos. “Se na antiguidade, a amizade era o bem mais precioso (é o que diz Aristóteles) e se Eros é sempre uma falta permanente, impossível de ser preenchida (é o que sinaliza Platão), a cultura cristã inverteu essa relação e o amor passa a ser considerado como o sentimento mais forte e precioso. Há um esforço considerável, desde então, para que a ela possa retomar seu papel importante, num mundo como o nosso caracterizado pela "inimizade" (Achille Mbembe). É nisso que consiste a força criadora da amizade, para podermos resistir a força destrutiva do ódio e da inveja, mas também a do amor”. 

Se, por um lado, alguns desses laços se perderam, por outro, a pandemia mostrou que ter um amigo é uma estratégia de enfrentamento. É para o que chama a atenção a psicóloga sistêmica especialista em casal e família, Rebeca Oliveira.

“Uma pessoa numa situação vulnerável, se sente apoiada pelo seu amigo, seguro em desabafar, em ser acolhido. Traz lugar de pertencimento e isso é muito importante para o ser humano”. 

E todo mundo passa por atualizações. “A gente tem essa construção do melhor amigo, muito num processo arcaico na nossa pisique (pensamentos, sentimentos e comportamentos conscientes ou não), na nossa questão arquetípica (padrão de comportamento de papel social). Já se perguntou, por exemplo, quem era você na infância, adolescência e na vida madura? Ainda se identifica, essas relações da época fazem sentido? É se questionar sobre o que vale, o que efetivamente essa amizade te traz e o quanto você se sente acolhida e nutrida para mantê-la”, aconselha. 

Não dá para afirmar que as amizades são eternas, como complementa a psicóloga e professora do UniRuy, Lorena Magalhães. Entretanto, não é à toa que se diz que é num momento como esse, que se conhece os verdadeiros amigos. “O que tenho escutado em todos os meus atendimentos é que as prioridades mudaram, as referências vêm se transformando e, consequentemente, as suas relações afetivas. "Todas as vezes que a gente tem adversidades esse é, normalmente, um momento interessante para se perceber como aqueles que estão a nossa volta se comportam. A pandemia é uma dessas circunstâncias”, provoca.  


O número de Dunbar 

O antropólogo e psicólogo britânico, Robin Dunbar, também é conhecido por outra pesquisa que toca na questão das nossas amizades, sobretudo, com relação ao tamanho da esfera social de cada indivíduo. No início da década 90, ele publicou um artigo na revista Behavioural and Brain Sciences, em que apontava a existência de uma correlação direta entre o número de neurônios e a quantidade de relações que as pessoas conseguem manter.

Ainda que a abordagem seja considerada polêmica e tenha sido contestada por alguns pesquisadores, Dunbar, construiu o estudo com base na observação de primatas, defendendo que os humanos podem se relacionar de forma próxima e pessoal – não necessariamente, íntima - com um grupo de aproximadamente 150 indivíduos. 


CINCO COMPORTAMENTOS QUE ENFRAQUECEM QUALQUER AMIZADE EM TEMPOS DE COVID

1. Oi, miga!  
Pessoas que se colocam como muito amigas e que falam que são suas amigas o tempo inteiro. “Uma relação de amizade dispensa palavras excessivas. Isso é mais para bajuladores”, destaca o psiquiatra da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e psicanalista autor dos livros Psicanalista, autor dos livros A loucura entre nós e Selfie, logo existo (Corrupio, 2018) e Ruídos e Silêncios da Vida Confinada (LDM, 2021), Marcelo Veras.  

2. Apego excessivo  
Quem cobra demais a amizade, mas quer mesmo é ocultar algum tipo de carência com sua presença. “Todos vivemos super ocupados e nem sempre temos tempo de responder a demanda do outro 24 horas por dia”.   

3. Forçou a barra?   
Amizades “forçadas” costumam ter pouca duração. “Muitas vezes, o que une pessoas completamente diferentes foi a solidariedade em um momento em que uma delas estava desamparada”, aponta o especialista.  

4. Sem limites  
Ou seja, amigos que não sabem dizer não, quando necessário. Se não existe esse equilíbrio, as pessoas se tornam escravas da manutenção dessas amizades, como alerta Veras.  “Quem quer ter muitos amigos tem que ter a sinceridade de impor seus limites sem se sentir em dívida com o outro. É preciso saber dizer: não, eu adoro você, mas simplesmente não quero sair hoje à noite, prefiro ficar em casa”.   

5. Mais que divergências  
Pessoas cuja diferença de opiniões – importante e necessária - transcende os limites de sua ética. “Quando elas se tornam feias, moralmente, é difícil continuar uma amizade”, completa. 

***

Em tempos de coronavírus e desinformação, o CORREIO continua produzindo diariamente informação responsável e apurada pela nossa redação que escreve, edita e entrega notícias nas quais você pode confiar. Assim como o de tantos outros profissionais ligados a atividades essenciais, nosso trabalho tem sido maior do que nunca. Colabore para que nossa equipe de jornalistas seja mantida para entregar a você e todos os baianos conteúdo profissional. Assine o jornal.


Relacionadas