Roupinha para charlar (apenas) nas redes sociais

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29.05.2021, 16:00:00
Atualizado: 29.05.2021, 16:33:13

Roupinha para charlar (apenas) nas redes sociais

Vestimenta sem tecido, 100% digital e que só é possível se vestir no mundo virtual. Seja bem-vindo a nova tendência fashion: o vestiário online

Está chegando mais um inverno rigoroso em Salvador. Aquele frio de 21° de bater o queixo te lembra que está na hora de escolher aquele casaquinho da coleção outono-inverno estiloso para se amostrar. Afinal, você pode ser feio, mas tem que estar na moda. No site de uma grife chique, aquela jaqueta dos sonhos está custando R$ 130 conto! Divide em 3x, sem frete, uma pechincha. A compra é realizada sem se dar conta que o produto, na verdade, é uma peça 100% realidade virtual. Quase sem querer, você acabou de entrar na nova tendência fashion: a moda virtual, onde a roupa só existe no mundo online e só é possível “vesti-la” nas redes sociais.

Complicou ou está difícil de acreditar? Vamos com calma. Sabe a jaqueta dos sonhos? Ela existe e está disponível para venda no site shop2gether. É uma das primeiras lojas no Brasil a se dedicar a roupas online, sem tecido, apenas digital. O mecanismo de venda é a mesma de uma roupa física vendida na internet. Contudo, a diferença começa na hora de receber o produto. Efetuada a compra, o cliente envia uma foto de sua preferência, a grife modifica digitalmente esta imagem e insere a jaqueta na pessoa, com auxílio de programas como o Photoshop. Pronto. A foto é devolvida com o novo look e prontinha para ser postada exclusivamente nas redes sociais. No bom português, é uma montagem de uma foto com a roupa recém-adquirida. Arrasou!?  

Jaqueta unissex Puff Optical Virtual (R$ 120,00) - Jaqueta 100% digital, que só existe no mundo virtual
(divulgação)

Esta tendência ainda está engatinhando no Brasil. Na Europa e Estados Unidos, a moda virtual tem seu mercado e deu o pontapé inicial em meados de 2018, com as primeiras peças lançadas pela grife Carlings, de modo experimental. As roupas são criadas por estilistas em softwares 3D, visando um mercado que só faz crescer: dos digitais influencers. “Fizemos uma pesquisa e descobrimos que cerca de 9% dos habitantes dos países desenvolvidos compram roupas novas só para postar nas redes sociais”, disse a estilista ucraniana Natalia Modenova à Folha de S. Paulo. Ela é uma das primeiras a desenhar roupas 100% digitais. Para a ucraniana, o modelo online é uma boa oportunidade de vestir peças mais extravagantes sem precisar tê-las dentro de seu guarda-roupa.

Natalia é uma das fundadoras do site Dressx, especializada em moda virtual voltada principalmente para influenciadores que querem inovar seu visual nas redes sociais, mas não usariam no universo físico. Com estilos futuristas e fora do padrão convencional, os preços não são gatinhos. Apesar de existir apenas no formato online, os valores variam entre US$ 40 e US$ 1.400, cerca de R$ 7.500. Achou caro? Em 2019, a grife The Fabricant vendeu um vestido virtual, o primeiro comercializado no mundo, por US$ 9.500, mais de R$ 50 mil na cotação atual. Dava até para comprar um carro de verdade. Para quem quiser experimentar roupas digitais, a Fabricant oferece algumas peças de graça para quem pretende entrar na moda. Porém, para se vestir é preciso saber mexer em softwares de manipulação de imagem digital.  

MODO OFF
No Brasil, o assunto causa estranheza na maioria dos influenciadores que promovem moda. Na Bahia, a turma está quase despida de conhecimento. Uma agência que cuida de algumas personalidades baianas nas redes sociais foi procurada pelo CORREIO, mas desistiu da entrevista quando soube sobre o assunto. “Você quer dizer loja que vende online, né? Roupa virtual? Não existe alguém comprar uma roupa e vestir apenas virtualmente. Elas compram a roupa e usam. Não podemos te ajudar nisso, elas desconhecem o assunto”, alegou o representante.  

Compreensível. A moda começou a ganhar destaque recentemente no país, principalmente com a pandemia, onde o mundo virtual está mais atraente do que a realidade cheia de restrições. Aqui na Bahia, poucos possuem conhecimento sobre o tema. “Ainda não vi ninguém por aqui aderindo a essa tendência. É algo ainda bem localizado na Europa e EUA. Tem pouca divulgação, mas acho que em breve deve aterrissar por aqui, pois estamos todos conectados”, disse a apresentadora e consultora de moda do CORREIO, Paula Magalhães.

Atokirina Look (US$ 1,400.00, cerca de R$ 7.466,76). Inspiradas no mundo Avatar, as sementes ‘Atokirina’ representam os espíritos puros e sagrados da Árvore das Almas. (dressx.com) 


Para ela, a moda vai entrar no mercado baiano, mas talvez de um jeito diferente. “Quem vive imerso na virtualidade das redes sociais com certeza vai aderir. Acredito que dentro da realidade brasileira deve surgir mais como um elemento de descontração, através de filtros ou ação de marketing de marcas de moda, por seu poder de viralizar”, completa.

Primeiro no país a desenhar moda 100% digital, o estilista Lucas Leão acredita que a expansão do mundo físico para novas possibilidades digitais ainda enfrenta algumas barreiras no Brasil, mas o futuro é promissor. “A realidade aumentada usada na moda já possibilita uma série de facilidades na indústria do vestuário, que vão desde o processo criativo até a confecção e pilotagem nas fábricas. Além de ajudar no processo de elaboração, as ferramentas virtuais expandem nossa interação com mundo e a maneira que nos comunicamos”, disse Lucas.

Ele é o estilista que desenhou aquela jaquetinha citada no início da matéria. Para quem achou que ninguém compraria, se deu mal. “Estamos vendendo a T-shirt com filtros de realidade aumentada que vendeu muito na primeira semana de lançamento. Está havendo uma recepção muito boa pelo nosso público e de novos clientes interessados nesta nova experiência”, completa Lucas. A influencer Giulia Braide adquiriu a bendita jaquetinha e não se arrependeu. No seu Instagram, já exibiu sua vestimenta que só existe no mundo virtual. “Foi uma experiência incrível, pois até então só lia notícias das gringas falando sobre essa tecnologia aplicada na moda. The future is now!”, postou.

Iridescence Digi-Couture (Vendido por US$ 9.500 em 2019, cerca de R$ 50.667,30). Primeira peça digital vendida no mundo, produzida pela The Fabricant e DapperLabs. 

Para quem pretende entrar de vez nesta tendência cibernética, próximo dia 17 de junho começa a exposição ÍON, realizada pela Brazil Immersive Fashion Week (BRIFW), primeira expo sobre moda virtual no país. Obviamente, o encontro será 100% online. A expo, que durará um mês, será uma troca de experiências e explicações sobre esta tendência fashion. “Ela foi criada como um lugar para experimentações entre moda, arte e tecnologia. A exposição ÍON faz parte desse pensamento sobre o que será a moda nesse futuro das conexões 5G. A exposição faz parte de uma série de ações da BRIFW e é um convite para aproximar o público e quebrar essa sensação de estranhamento com as novas tecnologias”, disse Olívia Merquior, uma das fundadoras da BRIFW.

Os ingressos para a expo estão à venda na Sympla, com preços que variam de R$ 28 a R$ 270. Quem levar o combo mais caro recebe uma “t-shirt personalizada, com estampas digitais em realidade virtual ativadas por um filtro do Instagram”, como consta no site da BRIFW.  

UNIVERSO GAMER
Se para os mais velhos o assunto ainda pode causar estranheza, para a nova geração a moda virtual é tão natural quanto jogar videogame, literalmente. As roupas virtuais foram inspiradas justamente no mundo gamer, onde desenvolvedores ganham milhões com as chamadas skins, roupas e acessórios virtuais vendidas para quem pretende deixar seu personagem fictício no jogo mais personalizado. É um vestiário completo, que vai de armaduras medievais a camisas do Bahia.  

A Epic Games, dona do jogo de arma Fortnite, faturou US$ 680 milhões (R$ 2,842 bilhões), em 2019. Entre os lucros estão justamente as skins, que possuem produtos licenciados, como a camisa do Esquadrão de Aço. Curiosamente, o game é disponibilizado de graça para o público. O lucro vem justamente dos itens exclusivos, como roupas virtuais para os avatares, que agora se mudou de vez para o universo fashion.  

Digital jacket by Ophelica (US$ 30, cerca de R$ 160,00). Ophelica é um ateliê digital fundado por Regina Turbina, uma importante artista e designer russa de 3D (dressx.com). 

“Todas as transformações e negócios que estamos observando nos games é apenas o início de um mercado que vai crescer exponencialmente. O game não é apenas entretenimento, ele vem acostumando as novas gerações a um tipo de interação e comunicação muito diferente do que vivemos até hoje. Os grandes conglomerados de moda já entenderam isso”, profetiza Olívia.

Para o produtor de moda do Léo Amaral, é uma boa oportunidade para marcas baianas experimentarem esta tendência, mas é preciso ter cuidado com a superficialidade. “Essa tendência demonstra bem o momento em que vivemos, onde os estímulos gerados dentro das redes sociais substituem em muito a realidade material. Por outro lado, também reforça uma ideia de superficialidade da moda, como apenas um elemento descartável, quando precisamos defender a durabilidade das roupas e a autoexpressão pelo que vestimos, indo além do ‘look para lacrar’”, pondera Léo, também colaborador do CORREIO. Agora é com você. Está pronto para vestir o futuro ou ainda prefere uma blusinha básica?
 

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