Sai pra lá, agouro! O urubu da covid está de olho na sua vacinação

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09.05.2021, 11:00:00
Fernando Guerreiro já está imunizado contra a covid-19 (Arquivo pessoal)

Sai pra lá, agouro! O urubu da covid está de olho na sua vacinação

É de lascar ser vacinado e ainda ter que ouvir os agourentos jogando praga na sua imunização, né? Conheça as criaturas que sobrevoam sua agulhada

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Aqui pra nós. Você, um abençoado que finalmente tomou sua agulhada contra a covid-19, já recebeu mensagem daquela tia pessimista que passa o dia todo no zap dizendo que a vacina contra o coronavírus dá câncer ou poderia te transformar em Jacaré? Pois bem, você não está só. Virou mais uma peste neste período de vacinação: as bocas de afofôs que jogam praga nos vacinados. Eles estão à solta por aí querendo  agourar sua imunização. 

Fernando Guerreiro é um exemplo disso. O artista baiano parecia um pinto no lixo de tanta alegria quando chegou sua vez de se vacinar, no início deste  mês. Se emperiquitou todo para finalmente se tornar mais um ser humano imunizado contra a covid-19. Porém, mal a imunizante da Oxford se espalhava pelo corpo, o celular começou a tocar quase na mesma velocidade. Eram os urubus da covid-19 agourando. O cara entrou em pânico com o monte de coisas que ouviu dos amigos: reações horrorosas, vacinas vencidas, morte de Agnaldo Timóteo mesmo após tomar a mesma vacina que ele tomou... Um verdadeiro inferno!

“Fui todo feliz tomar a vacina e sai de lá no pânico. Precisava fazer umas compras depois da vacinação e fiquei com medo de cair duro no meio do mercado de tanta praga dos urubus da covid. Eu não acho que fazem por maldade, mas foram contaminados pelo vírus da fake news”, conta Guerreiro, que entrou em choque quando sentiu alguns sintomas após receber a vacina. “Eu até hoje fico com medo de ter um treco de tanta gente falando dos efeitos colaterais. Me falaram que até impotência pode dar, meu Deus! Sai pra lá, boca de afofô!”. 

“A praga pega, viu? Senti um desconforto, fiquei meio febril, entrei em desespero. Pronto, morri. Fui pego pela praga dos urubus da covid-19. Mas foram sintomas leves e durou pouco. Até hoje fico esperando virar jacaré ou coisa do tipo”, completa o presidente da Fundação Gregório de Matos, que transformou o assunto em crônica para o jornal CORREIO, na série Fala, Guerreiro!, da última semana. Afinal, o que tem de verdade nessas pragas que os imunizados estão ouvindo por aí? 

Fernando Guerreiro chegou na vacinação feliz, tomou sua agulhada, mas depois foi só agouro. Deixa o homem se imunizar, cambada!

Primeiramente, o que Fernando Guerreiro sentiu foi absolutamente normal e não é uma particularidade da vacina contra a covid-19. Basta abrir a caderneta de vacinação de alguma criança ou conversar com seu responsável. Entre 0 e 10 anos, um indivíduo pode tomar até 19 vacinas, segundo o calendário básico do Ministério da Saúde. Boa parte delas, principalmente as injetáveis, causam algum tipo de efeito na criança, raramente com sintomas graves. “Algumas pessoas podem sentir efeitos colaterais leves, como dor no local da injeção, dores musculares ou febre, mas eles passam rapidamente”, avisa a Organização Mundial da Saúde, na sua cartilha sobre a vacinação do coronavírus. Isso vale também para outras vacinas.

O assunto poderia até terminar aqui, se não fossem outros agouros temperados de fake news. Logo depois de imunizado, Fernando Guerreiro recebeu a rebordosa de uma vizinha: “Não vá vacilar, Agnaldo Timóteo tomou essa (Oxford/Astrazeneca) e morreu na sequência”. Calma, tia! O cantor nem tomou a Oxford, que tem um intervalo maior entre a primeira e segunda dose. No caso de Timóteo foi a Coronavac, que também não tem culpa no cartório. De fato, ele faleceu mesmo tomando a segunda dose da imunizante. Contudo, ele contraiu a covid-19 no intervalo das duas doses. Quando ele tomou a última, já estava com a doença.

Por isso é tão importante seguir à risca todas as orientações. É preciso completar o ciclo de imunização, respeitando cada fase que a imunizante prescreve. O intervalo da Coronavac entre uma dose varia entre 21 e 28 dias, enquanto a Oxford, tomada por Fernando Guerreiro, são de até três meses.

Outras pragas
Não é apenas nosso artista baiano que sofre com os urubus da covid. Nanci Uchôa, de 64 anos, já tomou as duas doses da Coronavac. Logo após completar o ciclo, recebeu um áudio do Whatsapp de uma amiguinha. “Oi, amiga. Já tomei também estas vacinas da coronavírus, mas foi a Coronavac, né... Sei lá, esse povo chinês não confio mesmo. Eles disseminaram o vírus e querem matar a metade da humanidade, principalmente no Brasil. Eles querem tomar nosso país. Querem diminuir a população para sobrar comida para eles, amiga. É muita Angústia, Nanci”, desabafou a amiga, sem ter seu nome revelado. Melhor, né? 

Nanci tem duas formas de responder estas amigas que negam a importância da vacina. “Quando estou de bom humor, peço para terem mais empatia com a situação. Quando não estou, mando para ‘aquele’ lugar”, rebate.
 
A afirmação da amiga de dona Nanci é alimentada pelo próprio presidente da república, Jair Bolsonaro, que voltou a insinuar que o vírus foi criado em laboratório e que vivemos uma possível guerra biológica. “É um vírus novo, ninguém sabe se nasceu em laboratório ou por algum ser humano [que] ingeriu um animal inadequado. Mas está aí”, disse o presidente, na última quinta-feira, deixando a entender que a causadora de tudo foi a China. A ciência também tenta combater este tipo de afirmação. Um grupo de pesquisadores dos Estados Unidos, Reino Unido e Austrália mapearam o genoma do coronavírus e concluíram que o SARS-CoV-2 não é um vírus manipulado em laboratório e veio direto da natureza. O estudo já foi publicado na revista Nature, uma das maiores na área científica.

Dona Nanci também utilizou um meio bem divertido de combater a desinformação sobre a vacina. Na segunda dose, foi fantasiada de Jacaré, outra lenda proferida pelo presidente e que virou mais um motivo de muita treta durante a vacinação. “Pensei em me vestir de jacaré desde o dia que Bolsonaro falou sobre virarmos  o animal se tomássemos a Coronavac. E tomei bem ela mesmo! Precisamos combater estas mentiras. Precisamos da vacina, sim!”. 

Dona Nanci se vestiu de jacaré para se vacinar contra a covid-19

Parece meio óbvio, mas é bom fixar na mente. Nenhum estudo científico comprovou a possibilidade de alguém virar um réptil por conta da vacinação. Contudo, não é a primeira vez que o brasileiro acha que vai virar algum animal se for vacinado. 

Para explicar este fenômeno que foi um dos pilares para a Revolta da Vacina, precisamos retornar aos anos 1900, quando o Brasil sofria um surto de varíola. O governo da época decidiu tornar obrigatória a vacinação contra a doença. O problema era que a vacina, a primeira inventada no mundo, continha o líquido de pústulas de vacas doentes. O pus da vaquinha, literalmente. Além do nojinho, muita gente na época acreditava que a vacina, entre outros males, poderia transformar o povo em gado. Não à toa a palavra vacina vem do latim vaccinus, “que vem da vaca”. 

A ciência tenta todos os dias desmentir agouros sobre a vacinação. O problema é quando  a culhuda é falada justamente por pessoas que deveriam combatê-las. “Depois de me vacinar, ouvi de uma enfermeira que eu teria câncer em cinco anos ou algum problema grave de saúde por conta da vacina. Tomando ou não, quem não corre o risco de ter algum câncer no futuro?”, revela a fonoaudióloga, Rafaela Santana.

Não existe nada que relacione a vacina com a doença. Somente em 2020, mais de 600 mil novos casos de câncer foram diagnosticados no Brasil, segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca), vinculado ao Ministério da Saúde. Ou seja: a probabilidade de você desenvolver câncer existe por diversos fatores, menos pela vacina da covid-19.  

Entre microchips controladores de mentes e possível causador de câncer, a vacina continua a ser alvo dos urubus da covid. “A gente quer se livrar deste inferno que é a  covid, mas essa turma não ajuda. Devia ter vacina contra fake news para acabar com tanto agouro”, reclama novamente Fernando Guerreiro. 

O problema é que talvez nunca nos livraremos do coronavírus por completo. É aí que entra a importância da vacina novamente. Segundo a revista Nature, uma pesquisa com 100 imunologistas concluiu que a covid-19 talvez nunca mais saia do convívio humano, mas os imunizantes controlarão a doença. 

As vacinas aplicadas possuem o poder de evitar a infecção, cada uma com uma percentagem diferente na eficácia. Contudo, o principal objetivo delas é evitar que a covid-19 tenha um efeito grave no paciente. Resumindo, a ciência quer fazer com que a doença se torne apenas uma “gripezinha”, diminuindo sua categoria para endêmico, com casos isolados e controlados. 

“É muito difícil prever quanto tempo ainda vamos conviver com a covid-19. Durante todo 2021 ainda estará batendo duramente em nossas portas. Vou logo avisando: esqueçam carnaval de 2022 também. Esqueça! Se tiver, vai ter novas ondas, como já está acontecendo em alguns lugares da Europa”, prevê o coordenador do Laboratório de Virologia da Ufba, Gúbio Soares.  “A vacina diminui o efeito, a porrada. Mas ela não vai eliminar o vírus, que vai ficar na humanidade durante muito tempo, como o HIV e outros vírus. Ela será endêmica, com certeza”, explica. Esta verdade, sim, é dura de engolir.

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