Sem comilança: católicos trocam banquete de comida baiana por jejum na Semana Santa

bahia
15.04.2022, 05:30:00

Sem comilança: católicos trocam banquete de comida baiana por jejum na Semana Santa

Segundo a tradição, a Sexta-Feira Santa, dia em que Jesus foi crucificado, deve ser marcado por sacrifício

Basta pensar em Sexta-Feira Santa que vem logo à mente aquela mesa farta, com bacalhau, caruru, moqueca e por aí vai. Mas essa não é a tradição que prega a Igreja Católica e a maioria dos seguidores da religião vai na contramão da comilança e adota o jejum para este dia. Isso porque a Sexta-Feira Santa representa o dia em que Jesus Cristo foi crucificado, ou seja, é dia de tristeza e sacrifício. O banquete vem da substituição do jejum pela abstinência de carne vermelha, o que, na Bahia, acabou virando sinônimo de comida baiana. 

“A gente inverteu as coisas, misturamos cultura local com religião. Na Bahia a gente tem a tradição de comer comida baiana nas sextas-feiras e acabamos reforçando isso na Sexta da Paixão. Como é feriado, as famílias se reúnem e isso vira uma festa com banquete. Mas Sexta é dia de jejum, oração, penitência e reflexão. Os católicos revivem a morte de Jesus Cristo, então é um dia de tristeza”, diz o católico Anderson Oliveira, de 32 anos. 

Anderson  jejua na Semana Santa (Foto: Paula Fróes/CORREIO)

Na família dele, nada de ceia e fartura na sexta. É arroz e peixe em pouca quantidade. “O meu jejum começa na quinta, depois da Santa Missa, e vai até o almoço da sexta. Aí eu como arroz e peixe em uma quantidade que não dê para saciar a fome e, assim, fazer o sacrifício, que não chega nem perto do sacrifício que Jesus fez por nós”, conta Anderson. Ele diz que não consegue fazer o jejum total, que seria o ideal, porque se sente mal. 

Segundo o doutor em Teologia e Coordenador do Programa de Pós-graduação em Literatura e Interculturalidade da Universidade Estadual da Paraíba, Antonio Carlos de Melo Magalhães, o jejum vai além da ideia de passar fome. “É para lembrar a solidariedade com os que sofrem. A ideia é um gesto de comunhão, uma forma de devolver um pouco a Cristo por ele ter feito tanto pelos que sofreram. A questão da carne vermelha é porque ela remete ao sangue que foi derramado por Jesus Cristo durante o seu sacrifício”, explica. 

A Igreja Católica recomendava que o jejum fosse feito durante toda a Quaresma, mas isso foi sendo flexibilizado ao longo do tempo e, agora, o marco ficou com a Sexta-Feira Santa. A tradição não tem origem certa, mas uma das hipóteses é que tenha sido na Idade Média, a partir de uma regra imposta por Nicolau I para que todos os cristãos maiores de 7 anos jejuassem em todas as sextas-feiras. 

O jejum pode ser de vários tipos: pão e água, à base de líquidos, abstinência de uma ou mais refeições ou  jejum completo (só a água é liberada). A recomendação é para católicos entre 18 e 60 anos. Grávidas e doentes são dispensados do jejum, bem como aqueles que desenvolvem árduo trabalho braçal ou intelectual no dia. 

“Vale lembrar que o jejum é uma orientação, mas não uma obrigação. Não é como se o católico estivesse desrespeitando uma norma da Igreja. O catolicismo flexibilizou muito ao longo do tempo essas tradições. No período de Quaresma e Semana Santa, por exemplo, o jejum pode ser ‘substituído’ por gestos de solidariedade”, diz Antonio Carlos de Melo Magalhães.  

Quais as formas de jejum e abstinência?

Cristiane Silva, de 51 anos, assim como Anderson, abre mão de refeições na Sexta-Feira Santa. “Na sexta, eu acordo, bebo água e 5h estou na rua para a Via Sacra, aí só como ou um pedaço de pão ou um pedaço de peixe na hora do almoço mesmo e, de noite, só um café. Eu como porque não posso ficar em jejum porque tenho gastrite, aí ataca o estômago”, diz.

Ela conta ainda que, durante toda a Quaresma, reduz a quantidade de comida diária que consome e fica só à base de peixe, verduras e frutas. “Se eu estou com vontade de comer dois pães, eu como um. Se eu comeria um pão, eu como metade. Também costumo cortar coisas que eu gosto de comer ao longo do ano, coisas supérfluas, de excesso; fica só fruta, verdura e peixe”. 

Já Jucélia Barros, de 44 anos, diz que, durante a Quaresma toda, faz jejum nas quartas e sextas, pulando refeições e comendo bem pouco. Para todo o período, corta carne vermelha e também coisas que costuma gostar de comer. A Sexta-Feira Santa, para ela, é dia de silêncio e oração. “Não tem ceia aqui, eu não acho certo fazer banquete, colocar na mesa os melhores pratos, com fartura; não é dia disso. E, além da comilança, fazer ceia significa tumulto, vai contra a ideia do silêncio e da oração”, justifica.

“Eu acho que falta fé, falta respeito a Deus e falta ensinamento católico nas famílias. Mesmo aqueles que se dizem católicos se reúnem na sexta, fazem baquete e aproveitam o feriado como se fosse festa. Não está certo”, opina. 

A família de Luan Lima, de 27 anos, faz ceia farta na Sexta-Feira Santa, mas ele não compactua com isso. Mesmo com tanta fartura, ele come menos do que a quantidade que saciaria sua fome. “A minha família, mesmo sendo católica, tem o costume de fazer a ceia na sexta e no domingo, mas eu vou na contramão disso, tento todo ano passar esse testemunho para eles de que a Sexta é dia de abstinência, de pensar no que Jesus fez por nós e tentar se sacrificar também”, diz.

Luan não divide a ceia com a família e prefere jejuar (Foto: Paula Fróes/CORREIO)

Durante a Quaresma, nas quartas e sextas, Luan não come carne vermelha e também come menos do que comeria normalmente. Na Semana Santa, também corta a música e se importa menos com as roupas e aparência, por exemplo. No Domingo, aí, sim, é dia de festejar. “O Domingo de Páscoa é o dia da ressurreição, é momento de alegria, de fazer a ceia e aí reunir a família e comer bastante. Antes disso, não”, finaliza. 

Jejum faz mal?

O nutricionista João Paulo Mendes alerta para a abstinência de carne vermelha. Se feita de forma prolongada, o alimento deve ser substituído por outra fonte de ferro. “Para a obtenção da proteína, a carne vermelha pode ser substituída por carnes brancas, ovos, etc. Mas vale ressaltar que a carne vermelha é fonte de ferro, então, se a pessoa prolonga essa abstinência desse alimento, ela vai precisar buscar outro alimento que seja fonte de ferro, combinando com frutas cítricas para melhor a sua absorção desse ferro vegetal”, diz. 

De acordo com o nutricionista, as consequências do jejum sem orientação vão depender de quanto tempo ele vai durar e também de cada indivíduo, já que cada organismo reage de forma diferente, a depender de fatores como genética, metabolismo e condição de saúde. As consequências vão desde uma sensação de fraqueza, dor de cabeça e vertigem até desmaio e perda de tecidos corporais e massa muscular. 

“Se a pessoa vai fazer o jejum, ele precisa ser planejado. Não é recomendado que a pessoa faça jejum e atividade física, por exemplo, e nem que ele dure mais de 20 dias. Mas vale buscar um médico antes porque, quem tem um organismo comprometido de alguma forma, não vai se dar bem e, em 5 a 6 horas já vai sentir alterações”, coloca o nutricionista. Se o indivíduo nunca fez jejum e resolveu fazer agora pela primeira vez, a indicação é que seja de um tempo reduzido, com descanso e que, ao menor sinal de fraqueza ou dor de cabeça, ele se alimente. 

Mas nem sempre o jejum é sinônimo de preocupação. Segundo Mendes, se feito com acompanhamento nutricional, o jejum pode até trazer benefícios. “Temos o jejum intermitente, que é estrategicamente pensado e, não necessariamente, é para emagrecimento, é para provocar uma readaptação do metabolismo, regulando hormônios, por exemplo. O mais comum é o de 8 horas comendo normalmente e, 16 horas sem comer, incluindo tempo de sono”, afirma. 

Semana Santa

Domingo de Ramos: Nele se celebra a entrada de Jesus Cristo em Jerusalém, ocasião em que foi recebido com muito entusiasmo pelo povo, que o aclamou como Senhor e Salvador agitando ramos de palmeira e gritando “Hosana ao filho de Davi!”.

Segunda-Feira Santa: Nesse dia, Jesus expulsou os mascates e os compradores que faziam negócios dentro do Templo de Jerusalém. Nesse mesmo dia, Jesus curou coxos e cegos dentro do templo.

Terça-Feira Santa: Jesus retornou a Jerusalém e foi confrontado pelas autoridades religiosas do templo. No final do dia, foi com seus discípulos ao Monte das Oliveiras, onde profetizou sobre o Juízo Final, o fim dos tempos e o seu regresso. 

Quarta-Feira Santa: Nas paróquias católicas do Brasil, esse dia é marcado pela Procissão do Encontro, que reconstrói de maneira simbólica o encontro entre Jesus e sua mãe Maria durante a Via Sacra.

Quinta-Feira Santa: Nesse dia, ocorreu a Última Ceia, em que Jesus e seus apóstolos comemoravam a Páscoa judaica. Um dos ritos mais tradicionais praticados neste dia é a cerimônia de Lava-pés. Nesse mesmo dia, Jesus foi preso após ser traído por Judas.

Sexta-Feira Santa: Nesse dia Jesus foi julgado, condenado e morto. 

Sábado Santo: O Sábado Santo, também chamado de Sábado de Aleluia, é o dia em que Jesus Cristo jaz em seu túmulo. Por isso, o sábado é dedicado à oração e à meditação, à espera da ressurreição.

Domingo de Páscoa: Foi nesse dia que, segundo a Bíblia, Jesus ressuscitou e fez ao menos cinco aparições, uma delas para Maria Madalena e outras para seus discípulos.
 

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