Tá amarrado em nome do Senhor do Bonfim

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14.05.2022, 11:00:00
(Paula Fróes/CORREIO)

Tá amarrado em nome do Senhor do Bonfim

Conheça a história, ‘causos’ e milagres da fitinha mais famosa do mundo

Para além do souvenir, a fita escrita ‘Lembrança do Senhor do Bonfim da Bahia’ é a representatividade material da fé do povo baiano. A fé que se pode tocar, ver, amarrar, levar no bolso. Para Adriano Balbino Jr., essa fitinha significa vida. Quando tinha 15 anos, ele foi internado na UTI do Hospital Português com problemas no apêndice. Após uma grave infecção, o jovem chegou a ser desenganado pelos médicos. Angustiado com a situação do filho, seu Adriano Balbino dos Santos saiu, passou por uma barraca na Barra, parou e bebeu uma cerveja. O que parecia um momento de lazer, era, na verdade, um pedido de socorro ao universo. Quando olhou para o balcão, o senhor avistou uma fitinha do Bonfim, que acabou ganhando do dono do estabelecimento. Já de volta ao hospital, a amarrou no braço do filho e suplicou por sua vida. No dia seguinte, Adriano Jr. apresentou melhoras. Sete dias depois, recebeu alta. 

 Hoje com 44 anos, advogado, casado e pai de duas meninas, ele próprio narra o que viveu. “Sou a prova que a fé no nosso Senhor do Bonfim salvou minha vida. Fui ressuscitado por Ele. Eu, minhas filhas, minha esposa, minha sogra, minha mãe, todos somos devotos Dele”, emociona-se. “Essa história da fitinha do Bonfim acompanha nossa família e, além da devoção e do respeito ao Senhor do Bonfim, há sempre uma fita em todos os lugares”, emenda a irmã, Bárbara Freire, 41.

Marilene Gondim, 49, também tem a fita como um amuleto. Maratonista desde 2018, ela comprou diversas delas para distribuir em sua primeira maratona, de 42 quilômetros, em Porto Alegre. O gesto simbólico significou muito para os corredores que receberam o adereço. “Percebi que a partir dos 25 quilômetros, as pessoas começam a não ter mais perna para correr, elas correm com a cabeça e o coração. Então, eu diminuía um pouco meu ritmo e entregava as fitinhas para quem estava precisando. Era uma mensagem para não desistirem”, relembra. “No final da prova, os corredores vinham e diziam: ‘olha, quem me salvou foi a fitinha que você me deu’. Foi muito emocionante!”.  

 É certo que o amuleto será encontrado nas bagagens de Nilda Lima, 47. A professora de história espera não ter que passar de novo pelo perrengue que enfrentou após despachar suas malas sem os acessórios. “Amarro fitinhas coloridas para identificar as malas nas esteiras dos aeroportos e também como forma de proteção. Na única vez que não fiz isso, elas foram extraviadas. Nunca mais as vi e foi uma dor de cabeça danada”, lembra. 

Elisabeth Moss, protagonista de The Handmaid´s Tale (O Conto da Aia) com sua fitinha no tornozelo

(Foto: Divulgação)

 Não importa qual a finalidade, o fato é que as fitas viraram acessório pop. Recentemente, a atriz norte-americana Elisabeth Moss, 39, exibiu, empolgada, uma fitinha da cor vermelha amarrada no tornozelo. O talismã foi presente do ator baiano Wagner Moura, com quem contracena na série ‘Iluminadas’, disponível na Apple TV+ e Globoplay. "Eu ainda a tenho, e ela não sairá daqui por muito tempo", avisou a atriz, conhecida por sua atuação nas badaladas produções ‘Mad Men’ e ‘The Handmaid´s tale’. 

 A moda das fitas amarradas no pulso e no tornozelo remonta à década de 1970, quando as mesmas começaram a se popularizar. “Nesse período, com a implantação da Bahiatursa (Empresa de Turismo da Bahia), em 1968, dava início a indústria turística local e era cada vez mais comum ver turistas passeando pela Colina Sagrada. Eles eram  abordados por vendedores ambulantes de fitinhas, que recomendavam que as colocassem no braço e fizessem pedidos ao Senhor do Bonfim”, explica o historiador Francisco Sena. 

Coordenador da Cooperativa de Artesanato Religioso Genuíno da Bahia, Moyses Cafezeiro, 75, acompanhou todas as mudanças das últimas décadas. Seu pai (assim como outros devotos do Senhor do Bonfim) produzia as fitas de modo artesanal para distribuir entre os amigos durante a Lavagem do Bonfim. Na época, elas eram feitas apenas em tecido de algodão branco, com letras pretas, pintadas sobre moldes de papel de jornal. As cores vieram depois. Representam os Orixás, em mais uma prova do nosso sincretismo religioso. Aliás, o nome correto, segundo Cafezeiro, é Medida do Bonfim, que até virou música na voz de Chico Buarque. Em ‘Trocando em miúdos’, o cantor e compositor carioca canta: ‘Eu vou lhe deixar a medida do Bonfim/ Não me valeu/ Mas fico com o disco do Pixinguinha, sim/ O resto é seu…’ 

Cafezeiro afirma ser o único fabricante do adereço em terras baianas - as fitas também são produzidas no interior de São Paulo. E se garante: “Aqui, nós fazemos a medida do Bonfim verdadeira, de 47cm de comprimento, que é a distância da chaga do punho esquerdo à chaga do coração da imagem original do Senhor do Bonfim do altar-mor da Igreja do Bonfim”. Enquanto ele utiliza algodão e seda para confeccionar a medida, em São Paulo as fitinhas são de gorgurão, um tecido sintético. “As pessoas reclamam desse material mais resistente, porque a fita demora a partir. E todo mundo sabe que os pedidos são realizados apenas quando a fita parte”, afirma. 

De acordo com Cafezeiro, só houve produção das fitas, de forma profissional, aqui na Bahia, entre o final dos anos 1980 e início de 1990. A partir de 1993, elas deixaram de ser feitas em Salvador e passaram a ser fabricadas em larga escala no interior de São Paulo, no município de Sumaré. “O turista chegava aqui e pedia a fita do Bonfim. Eu dizia que era fabricada em São Paulo. ‘Como é que a Bahia, onde nasceu a tradição, não tem a fitinha?’, eles me perguntavam, em tom de deboche. Aquilo me dava uma raiva!”, conta. Inconformado com a situação, em 2013 o comerciante decidiu assumir a produção e a capital baiana retomou a atividade, através da cooperativa. 

 Mesmo sendo um símbolo tão marcante e genuíno da nossa baianidade, Cafezeiro assegura que não existe nenhum tipo de incentivo financeiro por parte do governo. O trabalho é realizado artesanalmente, em um galpão na Avenida Beira-Mar, na Ribeira. Apenas cinco pessoas são responsáveis pela produção, desde o corte do tecido, passando pela impressão das letras em serigrafia (silk) e o acabamento final. São confeccionadas 300 mil ‘medidas’ por mês, e vendidas para agências de turismo, próximo a navios de cruzeiros, em eventos e em pontos turísticos da cidade. A unidade custa R$0,40, nos pedidos a partir de mil unidades, que é a quantidade mínima. Ao consumidor final, é vendida a R$ 2. 

Durante a pandemia, sem trânsito turístico na cidade, não houve comercialização. Agora, Cafezeiro espera retomar a marca de vendas de antes da crise instalada pelo coronavírus. No dia 17, ele levará as medidas para o Congresso de Turismo Religioso Católico, em São Paulo. 

No ano que vem, elas nos representarão em um evento bastante profano: o Carnaval do Rio de Janeiro. A escola de samba Unidos da Tijuca terá como tema do desfile 2023 a Baía de Todos os Santos, com uma ala exclusiva para as fitinhas, que estarão amarradas em um gradil, réplica do portão da Igreja do Bonfim. 

 Também presidente da ONG Observatório da Baía de Todos os Santos, Cafezeiro atribui à medida a realização desse sonho: “Minha medida partiu em um dia, no outro eu recebi a notícia que a Baía seria o tema do Carnaval da Unidos da Tijuca. Lutamos há 36 anos por isso. Estou muito feliz!”

O tenista Novak Djokovic em foto para uma capa de revista usando a fitinha

(Foto: Reprodução)

.Sorte para o tenista 

O adereço amarrado em 2011 no pulso do tenista Novak Djokovic, 34, há muito se partiu. Bem antes de ser negacionista (ele chegou a ser deportado da Austrália, onde participaria de um torneio de tênis, depois de ter se recusado a tomar a vacina contra a covid), o sérvio recebeu da jornalista baiana Mariana Monteiro, 41, uma fita do Bonfim. 

Algum tempo depois, no Rio de Janeiro, Mariana entrevistou novamente o tenista, já na condição de melhor do mundo no tênis. Djokovic lembrou do presente. “Ele me disse: ‘você fez o meu sonho se realizar’ e deu o crédito à fitinha. Eu ofereci uma segunda fita e ele já sabia até como era o procedimento: para cada nó, um pedido”, relembra a jornalista. Djokovic não tirou mais essa segunda fita do braço. Inclusive, saíram várias fotos, postagens e até na capa do livro que publicou aparece sua imagem com a fitinha. “Claro que foi todo o comprometimento de um atleta de alta performance que o levou ao topo, mas a gente nunca duvida do axé da Bahia”, diverte-se Mariana. 

Djoko com a jornalista baiana Mariana Monteiro, que lhe presenteou com a fitinha (Foto: Acervo pessoal)

Versão chique 
Quem também não duvida do nosso axé é Astrid Fontenelle, 61. Casada com baiano e mãe de um menino baiano, a jornalista paulista foi diagnosticada com lúpus e atribui ao Senhor do Bonfim a remissão da doença. Uma fitinha azul e outra vermelha amarradas na perna fazem parte do seu ritual de fé: “Tenho um pedido recorrente, que eu sei qual é, e outros que sempre esqueço”, conta. O filho Gabriel também possui uma fita do Bonfim vermelha na perna, desde que nasceu, há 13 anos: “Para espantar o mau olhado”, garante a apresentadora do ‘Saia Justa’, programa do GNT. 

Declaradamente apaixonada pela Bahia - ela vez ou outra é vista pelas bandas de cá, entre praias, ruas e igrejas (inclusive, a do Bonfim) -, Astrid ama joias e tem versões mais sofisticadas da peça: “Tenho uma pequena coleção de fitinhas do Bonfim que foram feitas por artistas: a mais clássica de todas, por Carlinhos Rodeiro; uma outra que foi feita pelo Fause Haten, que é de couro com ouro…”.

Astrid Fontenelle tem 'fitinha' até de ouro (Foto: Acervo pessoal)

A peça a qual se refere, assinada pelo baiano Carlos Rodeiro, pode ser encontrada em prata; ouro amarelo e ouro branco; prata com banho de ouro; prata com banho de ouro cravejada com pedras Spinelli; e ouro branco e amarelo com brilhante. Os valores vão de R$ 1.500 a R$ 38 mil. Em 2023 a pulseira completa 18 anos. Para celebrar, serão realizadas diversas ações em memória ao joalheiro e designer de joias morto no ano passado, em decorrência de um tumor no cérebro.

História em fitinhas

Além-mar - A devoção ao Senhor do Bonfim (representação de Jesus Cristo) veio de Portugal para o Brasil com o navegador Manoel Teodózio de Farias, em 1740, após ele sobreviver a um naufrágio. O capitão-de-mar-e-guerra da marinha portuguesa trouxe a imagem que hoje encontra-se no altar-mor da Basílica do Nosso Senhor do Bonfim, fundada em 1754. A tradição das fitinhas foi idealizada por Manoel Antônio da Silva Servo, em 1809, que, à época, era tesoureiro da Igreja e queria aumentar a arrecadação financeira do templo. As irmandades produziam e eram vendidas na igreja; 

Colar do Bonfim - O amuleto era conhecido como “Medida do Bonfim”, pois media 47 centímetros de comprimento - distância entre a chaga do punho esquerdo e a chaga do coração da estátua que está na basílica. Tinha entre seis e sete centímetros de largura e era usada não no braço e nem na perna, tal qual fazemos hoje, mas no pescoço, como um colar. Nele, eram penduradas medalhas, santinhos e pingentes. Os fieis pediam que o padre benzesse, amarravam nos chapéus (acessório bastante usado na época), guardavam em caixas em casa ou colocavam em seus altares. A fita era confeccionada em tecido de algodão ou seda branco com o desenho e o nome do santo bordados à mão. O acabamento era em tinta dourada ou prateada, com fios de ouro;

Para todos - Não existem registros exatos, mas, com o tempo, e por serem muito caras para a maioria da população, as fitas deixaram de ser produzidas. Em meados do século XX, voltaram a ser feitas por devotos do Senhor do Bonfim que as distribuíam durante a Lavagem. Em 1970 começaram a ser vendidas para turistas nas escadarias da Colina Sagrada, onde está localizada a Igreja do Bonfim. Foi quando as fitas passaram a ser de diversas cores, amarradas no pulso, com a recomendação dos ambulantes de fazerem pedidos enquanto amarravam três nós - um para cada desejo;

Em casa - No final dos anos 1980 e início da década de 1990 eram feitas profissionalmente por artesãos localizados nos Arcos do Bonfim. Depois, deixaram de ser confeccionadas em Salvador e passaram a ser produzidas em Sumaré, interior de São Paulo. Em 2013, as fitinhas voltaram a ser feitas aqui, através da Cooperativa de Artesanato Religioso Genuíno da Bahia, no bairro da Ribeira.

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