Tá perdido? Entenda como está o debate sobre a ida do Carnaval para a Boca do Rio

salvador
27.07.2022, 05:30:00
Mudança será da Barra para a Boca do Rio (Foto: Marina Silva/ CORREIO)

Tá perdido? Entenda como está o debate sobre a ida do Carnaval para a Boca do Rio

Decisão foi adiada para fim de agosto e caso pode ir parar na Justiça

Uma comissão técnica vai avaliar a possibilidade de mudar o Carnaval da Barra para a Boca do Rio. Essa foi a conclusão da reunião do Conselho Municipal do Carnaval de Salvador (Comcar), realizada nesta terça-feira (26). O resultado do estudo será transformado em um projeto que será encaminhado para a aprovação da Prefeitura de Salvador, até o final de agosto. 

A reunião aconteceu em um prédio empresarial, no Caminho das Árvores, e durou cerca de duas horas e 30 minutos. Dos 32 conselheiros, 22 compareceram para debater o futuro da maior e mais importante festa da cidade. Na prática, se a medida for aprovada, os grandes artistas passarão a desfilar na Boca do Rio, já no Carnaval de 2023, enquanto as fanfarras, blocos de sopro, percussão e similares ficarão com a Barra.

O presidente do Comcar, Joaquim Nery, está otimista. Segundo ele, os membros do conselho entendem que há mais aspectos positivos do que negativos na mudança, mas o assunto ainda deve ser analisado detalhadamente.

“Decidimos pela criação de uma comissão envolvendo a mesa diretora do Comcar e técnicos das áreas que mais atuam no Carnaval: a Saltur [Empresa Salvador Turismo], técnicos da prefeitura ligados à mobilidade, saúde, segurança. Para, dentro do prazo mais rápido possível, apresentarmos ao prefeito Bruno Reis um projeto para o Carnaval na orla de Salvador. A gente estabeleceu um tempo limite de até o final de agosto para esse projeto estar na mão do prefeito”, afirmou.

Joaquim Nery disse que estudo vai determinar a viabilidade da mudança (Foto: Ana Albuquerque/ CORREIO) 

A principal preocupação é com o tempo. No dia 11 de julho, as associações Baiana dos Blocos Carnavalescos com Trios Elétricos (ABT), Baiana dos Camarotes (ABC), dos Blocos Alternativos e dos Blocos da Barra enviaram ofício ao Comcar afirmando que não há tempo hábil para fazer a mudança para 2023. O presidente discordou. “Acreditamos que é possível, mas precisamos convencer a população e correr com o projeto”, disse.

Ele frisou que a mudança de bairro ainda não foi decidida. A comissão precisa primeiro analisar a viabilidade da alteração. Atualmente, o desenho do futuro novo circuito é entre o Centro de Convenções e a terceira ponte, em Patamares, porém não há definição se o sentido será Itapuã ou o contrário. Tudo isso deve ser analisado pelos técnicos, que vão observar também soluções de mobilidade, segurança e saúde.

O presidente da Saltur, Isaac Edington, participou da reunião e afirmou que o circuito Barra/Ondina não atende mais as necessidades do Carnaval. Ele disse que a cada ano tem mais dificuldade para colocar a infraestrutura necessária para funcionar no espaço, que ficou pequeno devido ao crescimento do público. Além disso, também há entraves para expandir os camarotes.
Isaac afirmou que a prefeitura fará novos investimentos no circuito do Campo Grande (Osmar) e do Centro Histórico (Batatinha). Ele apontou que a mudança é necessária por uma questão técnica e destacou as vantagens da Boca do Rio.

“Existe um fator de desenvolvimento da cidade onde está tendo bastante investimento, onde temos um circuito completamente à beira do mar e de aproximadamente 4 km, todo em linha reta. Inclusive alguns pareceres em diálogo com a área de mobilidade até agora só nos demonstraram vantagens nesse circuito para a mobilidade, para os pontos de táxi e carros de aplicativos. Ou seja, existe uma série de vantagens que estamos observando preliminarmente e que apontam que esse é o melhor local”, adiantou.

Isaac Edington afirmou que há vantagens na mudança (Foto: Ana Albuquerque/ CORREIO)

Debate

O principal receio dos críticos à mudança é de que ela intensifique o esvaziamento dos circuitos do Campo Grande e do Centro Histórico, onde desfilam a maioria dos blocos afros e afoxés. Dois representantes desses segmentos têm cadeira no conselho e participaram da reunião. Eles disseram que vão se encontrar com as lideranças das entidades para debater a proposta apresentada pelo Comcar.

O represente dos blocos de afoxé, Nadinho do Congo, avaliou que é preciso analisar os impactos que a mudança vai causar nos circuitos tradicionais e na logística dos blocos, mas preferiu não emitir opinião até conversar com as entidades. Ele disse também que são necessários investimentos na folia dos circuitos tradicionais e nos bairros.

“É preciso fazer uma revitalização no Centro Histórico, onde começou o Carnaval da Bahia, e a partir daí avançar para outras áreas. São 29 blocos afoxés, alguns como os Filhos de Gandhy tem mais de 5 mil associados. Além disso, são 57 blocos afros, os maiores como Olodum, Ilê e Muzenza tem de 2 a 3 mil pessoas, cada. O Cortejo Afro reuniu 2 mil foliões. É muita gente, por isso, os impactos dessa mudança precisam ser bem analisados”.

Representantes de blocos afros e afoxés durante a reunião (Foto: Ana Albuquerque/ CORREIO)

Tribunal 

Antes da reunião do Comcar começar, um grupo de manifestantes ocupou a calçada em frente ao prédio onde aconteceria o encontro e pediu que a mudança seja abandonada. Líderes do Movimento SOS Carnaval pretendem acionar a justiça caso a proposta seja levada adiante pela prefeitura.

O grupo levou um conjunto de 5,5 mil assinaturas físicas e afirmou que tem outras 3,3 mil assinaturas virtuais de pessoas que são contra a mudança. Segundo Marco Schoneborn, representante do movimento que mora e é proprietário de uma pousada na Barra, a população da região é contra a alteração.

“São assinaturas de empresários e moradores da Barra, Ondina e também das comunidades. A população é contra essa mudança. É preciso que aconteça audiências públicas para fazer esse debate. Tem a chance do Carnaval do Campo Grande morrer, porque há uma simbiose dos circuitos. Não pode cortar um braço e esperar que o resto vá sobreviver”, analisou.

Manifestantes fazem panfletagem antes da reunião (Foto: Ana Albuquerque/ CORREIO)

Ele avaliou que falta diálogo. Já o presidente do Comcar, Joaquim Nery, contou que o conselho se reuniu com moradores da Barra no dia 4 de julho, com a presença de várias associações que representam também comerciantes da região, e o próximo passo será fazer reuniões com moradores de Ondina e da Boca do Rio. “A percepção geral dos soteropolitanos também está sendo monitorada, acompanhando pela imprensa”.

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