'Uma sofre, todas choram': mães partilham dor por morte de Cristal Pacheco em protesto

salvador
04.08.2022, 05:00:00
(Marina Silva/CORREIO)

'Uma sofre, todas choram': mães partilham dor por morte de Cristal Pacheco em protesto

Homenagem à adolescente teve muita emoção

Choque, revolta e a dor de uma mãe e um pai compartilhada por muitas outras famílias. O ato que tomou as ruas do Campo Grande, nesta quarta-feira (03), misturou o luto pela morte da adolescente Cristal Pacheco com um protesto por mais segurança em Salvador e as homenagens de familiares, amigos, professores e colegas à adolescente que teve a vida interrompida de forma trágica. Cristal foi morta com um tiro no peito, anteontem, por volta das 6h30 da manhã, em uma tentativa de assalto, quando ia para a escola com a mãe e a irmã. 

Ela passava pela calçada do Palácio da Aclamação quando foi rendida por duas mulheres, uma delas  estava armada e atirou no peito da garota a uma distância quase à queima-roupa. O crime aconteceu há menos de 200 metros do Passeio Público e do Quartel dos Aflitos, o comando geral da Polícia Militar baiana.
Muitas mães de estudantes na faixa etária de Cristal e que se chocaram com o caso, participaram do ato, independente de conhecerem a menina e sua família.

Elas choraram a morte precoce da jovem e participaram da caminhada para pedir por segurança e justiça. No semblante de cada uma, o sofrimento de Sandra Pacheco, mãe de Cristal. 

Mara Andrade, 50, é mãe de Maria Louise Andrade, 14, colega de sala e amiga de Cristal. Ela afirma que as mães da escola partilham a tristeza da família e dos amigos da adolescente.

"Nós somos mães de estudantes que passavam pelas mesmas coisas que Cristal, com idades parecidas e vidas também. Vendo isso, a dor é imediata. Não podemos imaginar o que Sandra está passando, mas quando uma sofre, todas choram juntas porque amor materno é assim", disse Mara, muito abalada.

Outra que não segurou o choro foi Jucimar Gomes, 53, mãe de outra aluna da mesma sala de Cristal. Mesmo 24 horas depois do assassinato, ela disse que ainda é difícil assimilar tudo o que aconteceu. 

"Não caiu a ficha, era uma menina maravilhosa. Soube em casa com uma ligação da escola e fiquei em estado de choque. É difícil aceitar, essa dor também chega na gente. Quando uma amiguinha da nossa filha parte assim não tem como não chorar e se desesperar junto", afirmou.

(Marina Silva/CORREIO)
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Eliene de Brito Alves, 43, que é amiga da família e tem dois filhos no Colégio das Mercês, onde a adolescente estudava, destaca a união das mães na dor e no protesto. "Todas aqui estão de coração partido. Temos muitas mães, avós e tias aqui bastante comovidas. Estamos firmes e fortes para representar a mãe dela, que nesse momento não tem como estar aqui porque é muito difícil. Esse lugar que ocupamos de mãe é de muita comoção. Por isso, pedimos justiça por Cristal e segurança pelos estudantes que ainda estão aqui", enfatizou.

Por Cristal e por todos 
As dezenas de pessoas que estavam com as mães no protesto saíram do ponto onde Cristal foi assassinada e caminharam em volta do Campo Grande, na Avenida Sete de Setembro e também na Avenida Carlos Gomes, nas imediações de Casa de Itália.  No percurso, gritavam palavras de ordem como "Justiça por Cristal" e "Prendam antes que aconteça".  Apesar da interrupção temporária do tráfego nas vias, a caminhada seguiu sem confusão e com apoio da Transalvador.

Durante o trajeto, familiares, amigos e colegas pararam em frente à sede da Policia Civil (PC), na Praça da Piedade, e também no Quartel dos Aflitos. Nas duas sedes, demandaram por mais segurança nas ruas da cidade. 

 Amigo da família, Fábio Nascimento Rodrigues de Oliveira, 54, afirmou que o protesto foi feito por Cristal e por todos. "É por quem partiu, mas também por quem permanece. O objetivo aqui é pedir por segurança e não que a PM esteja aqui só hoje. Queremos que as autoridades olhem mais para os nossos filhos e nos deem a tranquilidade de ver eles saírem de casa e saber que vão voltar", afirmou o eletricista naval.

O motorista de ônibus Luiz Cláudio Carvalho, 48, pai de outra colega de Cristal, compareceu ao protesto no lugar da filha, que  não teve condições. "Quantas Cristais vamos ter que perder? Queremos segurança e justiça". 

Luiz Cláudio saiu do Subúrbio para participar de ato

(Foto: Marina Silva/CORREIO)

Prática repetida

De acordo com moradores da região do Campo Grande e da Avenida Sete de Setembro, assaltos são mais do que comuns na área e as duas suspeitas - uma já presa pela polícia - não são rostos desconhecidos por quem vive na região. Uma comerciante conta que viu as imagens que circularam da ação e que conhece as duas de ver passar na rua. 

"Nunca fui vítima delas duas, mas a gente conhece de vista, vê que andam juntas e fazem essas coisas. Ninguém aqui fala nada porque é um risco pra gente também, se ficarmos dizendo quem é quem podemos virar alvos, mas nós, da loja, conhecíamos elas de ver pela região", conta ela, que preferiu não se identificar.

Outro que prefere não revelar seu nome é um ambulante que também afirma saber quem são as suspeitas e o método de ação delas na área. "Aqui tem muita gente que rouba, pessoas que ficam na Praça da Piedade e também na região do Campo Grande. Pelos vídeos, eu sei que já vi as duas sentadas na praça. Andavam juntas, sempre roubando pela área. Mas não é só elas, tem muita gente que rouba aqui e não podemos fazer nada, até porque são presos e voltam no dia seguinte", relata ele.

Essa realidade é apontada pelo Tenente Coronel da PM-BA, Valter Menezes. Ele conversou com os manifestantes durante o protesto e disse que mudanças são necessárias para a melhora da segurança. "Nós continuamos trabalhando e combatendo a violência 24h por dia. Pedimos que cobrem mudanças nas leis porque é um absurdo prendermos marginais de alta periculosidade e, em menos de 24h depois, eles estarem soltos, como já aconteceu", destacou Menezes.

'Eu ouvi o disparo', diz mãe

A mãe da estudante Cristal Rodrigues Pacheco, Sandra Pacheco, falou na noite de quarta-feira (03), pela primeira vez sobre a morte da filha mais velha. Em entrevista à TV Bahia, ela deu detalhes sobre a tentativa de assalto que culminou no assassinato da filha. Sandra depôs na polícia também nesta quarta. 

À TV, ela contou que andava com as filhas pelo passeio,  quando foi abordada pelas criminosas. "Foi muito rápido. Uma era baixinha e uma do cabelo aloirado. Ela simplesmente anunciou o assalto, falei que não tinha celular e ela disse: 'você tem um relógio e uma aliança'. Ela baixou a cabeça e me mostrou um revólver que não consegui identificar o calibre, porque não tenho conhecimento, só sei que a arma era pequena. Ela também estava com uma faca estilo açougueiro com o cabo branco", lembra.

A mãe de Cristal também agradeceu as homenagens que vem recebendo de colegas da filha e pessoas que não conheciam a vítima. “Me senti abraçada e amada ao saber que minha filha era muito querida".

Adolescentes pintaram as mãos de vermelho para protestar contra insegurança

(Foto: Marina Silva/CORREIO)

Suspeita presa tem passagem por tráfico e roubo

A suspeita presa por participação no assalto que terminou com a morte da estudante Cristal Pacheco já tem passagens por roubo e tráfico de drogas, mas respondia por esses crimes em liberdade, informou  a Polícia Civil. A mulher foi presa na noite de terça-feira (02), horas depois do crime, em um bairro do subúrbio de Salvador.

A polícia diz também que a mulher, que tem 31 anos, mas não teve nome revelado,  tinha um mandado de prisão em aberto  por tráfico de drogas, que foi expedido em março desse ano pela 1ª Vara de Tóxicos de Salvador.

Em 2011, ela foi flagrada pela primeira vez traficando drogas em Salvador. Em 2015, foi presa pela 5ª Delegacia (Periperi) por conta de roubos. Em 2017,  foi encontrada com cocaína e levada para a 14ª Delegacia (Barra). 

A polícia continua em busca da segunda envolvida na morte da estudante. A arma do crime também não foi encontrada ainda.

Relembre o caso:

Rotina  - Todos os dias, por volta das 6h30, Cristal Rodrigues Pacheco, 15 anos, fazia o mesmo caminho para o Colégio Nossa Senhora das Mercês, que fica localizado na Avenida Sete de Setembro, junto com a mãe e a irmã mais nova, Fernanda, de 12 anos. A  estudante era moradora de um prédio no Campo Grande, próximo ao Corredor da Vitória. Segundo amigos e vizinhos, a adolescente sempre foi educada, de- dicada aos estudos - ela cursava o 9° ano do ensino fundamental -, e amorosa com os pais e a irmã caçula;

Abordagem  - Cristal, a mãe e a irmã passavam em  frente ao Palácio da Aclamação, na terça-feira (02), quando, do lado direito da avenida, duas mulheres se separaram e, em questão de segundos, abordaram as três, assustando-as. A tática é conhecida e muito usada por duplas de assaltantes que atuam no centro da cidade; 

Tentativa de assalto  - A mãe de Cristal contou à polícia que as mulheres anunciaram o assalto e que ela informou não estar com celular. Uma das assaltantes mostrou a arma e pediu a aliança e o relógio de Sandra Pacheco;

O tiro  - A suspeita presa contou à polícia que sua comparsa se atrapalhou durante a ação e a arma acabou disparando, feridondo-a de raspão e atingindo em cheio a estudante. Cristal recebeu um tiro no peito dado por uma pistola pequena - possivelmente calibre 653, mas que ainda não foi achada pela polícia -, em curta distância. Segundo o médico e perito do Departamento de Polícia Técnica (DPT), Marcos Mousinho, foi "um tiro direcionado para matar";

Ajuda -  Nas imagens das câmeras de segurança que filmaram a cena, dá para ver que a mãe de Cristal, vendo a filha caída no chão, correu para socorrê-la e não percebeu que as duas suspeitas levaram a mochila da estudante com todos os pertences. À TV Bahia, Sandra Pacheco disse que as duas suspeitas sairam correndo após os disparos contra Cristal. Fernanda, a irmã mais nova, correu para pedir ajuda, mas   Cristal morreu no local do crime, nos braços da mãe. O corpo da adolescente foi enterrado no começo da noite de terça-feira (02), no Campo Santo, sob forte emoção.

*Orientado por Perla Ribeiro e com as colaborações de Maysa Polcri, Brenda Viana e Kívia Souza

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