Vamos falar sobre racismo?

rafael santana
16.10.2019, 05:00:00
Atualizado: 16.10.2019, 07:59:42

Vamos falar sobre racismo?


Em momentos como o que vivemos, o jornalismo sério ganha ainda mais relevância. Precisamos um do outro para atravessar essa tempestade. Se puder, apoie nosso trabalho e assine o Jornal Correio por apenas R$ 5,94/mês.

Há quem diga que futebol e política devem caminhar em lados opostos. Se você está lendo esse texto e pensa dessa forma, eis aqui minha missão: te fazer mudar de ideia quando tiver alcançado a última linha. O futebol, meu caro leitor, é agente de transformação social, assim como qualquer outro esporte. Expor as vísceras da sociedade estruturalmente racista em que vivemos, como o técnico Roger Machado fez tão bem no último final de semana, é chamar atenção para um problema que humilha, subalterniza e mata o negro no Brasil há quase dois séculos - atenho-me ao período pós-escravocrata. Justamente por ter sido varrido para debaixo do tapete por tanto tempo é que sempre foi difícil enfrentar o racismo. E como bem disse o treinador do Bahia, negar e silenciar é confirmá-lo.

Não é de se estranhar que a primeira punição a um clube brasileiro por um episódio racista tenha acontecido apenas há 14 anos. Foi o Juventude, em 2005. Em uma partida contra o Internacional, torcedores do time de Caxias do Sul “imitavam sons de macaco” toda vez que o meia Tinga tocava na bola, como relatou em súmula o árbitro Alicio Pena Júnior. O clube foi multado em R$ 200 mil e perdeu dois mandos de campo.

O caso do Juventude abriu espaço para que outros clubes e atletas fossem punidos ao longos desses 14 anos. A manifestação racista normalmente vem das arquibancadas, como no caso dos torcedores do Grêmio flagrados chamando o goleiro Aranha de macaco, mas também vem do campo de jogo, como quando Danilo, ex-zagueiro do Palmeiras, foi acusado de xingar e cuspir em Manoel, então zagueiro do Athletico-PR. Além de Aranha e Manoel, o racismo produziu inúmeras vítimas no Brasil: o árbitro Márcio Chagas, os volantes Tchê Tchê, Jeovânio e Arouca, o lateral Jeff Silva, o zagueiro Paulão, o técnico Antônio Carlos da Silva, e tantos outros que você sequer deve se lembrar.

A despeito das punições impostas pelo Superior Tribunal de Justiça Desportiva, os casos não estão diminuindo. De acordo com o relatório anual produzido pelo Observatório da Discriminação Racial no Futebol, os casos envolvendo racismo no futebol brasileiro saltaram de 20, em 2014, para 44 em 2018. Isso significa que nosso país é mais racista do que há cinco anos? Tenho absoluta certeza de que não. Creio que esse aumento está diretamente ligado ao encorajamento da vítima e das pessoas ao redor a denunciar atitudes discriminatórias. E esse encorajamento, por sua vez, só é possível graças ao empoderamento da sociedade, que hoje está debatendo sobre o tema mais abertamente.

É por isso, meu caro leitor, que discursos como o de Roger Machado são tão necessários. Que relatos como o do comentarista de arbitragem Márcio Chagas são tão essenciais. E que atitudes como as de Roberto Carlos, que, quando técnico, abandonou uma partida na Rússia, devem ser celebradas. São gestos assim que colocam o tema indigesto do racismo na mesa do brasileiro. Precisamos refletir sobre ele, discutir sobre ele e lutar contra ele. Sejamos seres políticos no futebol, no trabalho, em casa ou onde quer que seja. Desculpa se me alonguei.

Rafael Santana é repórter do globoesporte.com

***

Em tempos de coronavírus e desinformação, o CORREIO continua produzindo diariamente informação responsável e apurada pela nossa redação que escreve, edita e entrega notícias nas quais você pode confiar. Assim como o de tantos outros profissionais ligados a atividades essenciais, nosso trabalho tem sido maior do que nunca. Colabore para que nossa equipe de jornalistas seja mantida para entregar a você e todos os baianos conteúdo profissional. Assine o jornal.


Relacionadas