RECÔNCAVO

Quem foi Dona Cabeluda, cafetina mais famosa do Recôncavo Baiano

Renildes Alcântara dos Santos, conhecida como Cabeluda, morreu nesta segunda-feira (6)

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  • Raquel Brito

Publicado em 8 de maio de 2024 às 07:30

Renildes Alcântara dos Santos era conhecida como Dona Cabeluda
Renildes Alcântara dos Santos era conhecida como Dona Cabeluda Crédito: Divulgação

Por Cachoeira, é difícil encontrar alguém que não conheça Dona Cabeluda. A cafetina de 80 anos, que faleceu nesta segunda-feira (6), é a mais famosa da região e considerada a última da cidade. Dona de um brega em pleno centro do município, existiu resistindo nas quase cinco décadas que viveu na cidade do recôncavo.

Natural de Itabuna, no sul do estado, Renildes Alcântara dos Santos sofria agressões dos pais durante a infância. Se casou aos 12 anos com um homem mais velho e foi morar com ele numa casa na fazenda da família. O casamento também era abusivo: a violência agora vinha do marido. Cerca de quatro anos depois, deixou com a mãe as duas filhas que teve no casamento e fugiu. Na rota, estavam cidades como Feira de Santana e Candeias. De parada em parada nos carros de viagem, sem lenço, documento ou alfabetização, chegou em Cachoeira.

Começou vendendo bebidas e foi apresentada à prostituição por uma amiga. Seu primeiro ponto foi na Travessa Tavares, próximo ao estádio da cidade. Mesmo precisando de dinheiro, ela preferia ser prostituta a trabalhar em casas de família, relatou Gleysa Teixeira, autora do livro Uma História de "Cabeluda": Mulher, Mãe e Cafetina, fruto da sua pesquisa de mestrado.

“Até a questão da cafetinagem dela era diferente. Porque ela ela é dona de uma casa de prostituição, mas é como se fosse uma ‘cafetinagem branda’, se assim posso dizer, porque ela não agenciava o valor do programa, ela alugava o quarto para as meninas. E a gente sabe que, na história da prostituição, muitos cafetões acabavam também agenciando o programa em si, quanto vale o programa o sexo daquela mulher. No caso de Cabeluda, as mulheres tinham a liberdade de determinar seus preços”, conta.

Ainda assim, ela incomodava as autoridades. Segundo Gleysa, havia na Justiça um processo que pedia o fechamento do brega, que só foi arquivado após o lançamento do livro. O filho adotivo mais velho, Aguinaldo de Souza, de 54 anos, afirma que esse não foi o único pedido do tipo.

“Ela foi a última a resistir, e nós vamos continuar resistindo. Todo juiz que entra quer fechar a casa dela, mas não consegue”, diz.

Gleysa e Cabeluda se tornaram amigas próximas nos cinco anos de pesquisa. Quando chegou o momento de defender o mestrado e apresentar o resultado dos anos de observação, fez questão de apresentar no brega, para que a cafetina pudesse assistir de perto e com o objetivo de levar a academia ao local.

Para a pesquisadora, o falecimento da amiga marca o fim de um ciclo. “O vestido que estou usando hoje, eu só usei uma outra vez, que foi na defesa do mestrado. Depois disso, nunca mais consegui, nem na Bienal deste ano, não sei por quê. Hoje, tive que usar. Ele significou o início de um ciclo, que agora eu encerro com um vazio dentro de mim”.

Com oito filhos adotivos, Reinildes é conhecida também pela facilidade em acolher a todos que precisam. Aguinaldo, o mais velho, foi amparado por ela ainda aos 13 anos. Na época, uma enchente no Rio Paraguaçu tomou conta da casa onde a cafetina morava, o que a fez alugar outra no bairro de cima. O menino, distante dos pais, logo se apegou a ela.

“A gente fez amizade. Era ‘minha mãe’ para lá, ‘minha mãe’ para cá, e quando ela desceu eu desci junto com ela. Meus pais morreram em Salvador, eu tenho oito irmãos, morava com uma avó”, conta.

Sempre de cabelos longos e muitos pelos no corpo, não demorou muito para que Reinildes passasse a ser chamada de Cabeluda pelas pessoas ao seu redor. O apelido pegou e, posteriormente, deu nome ao brega comandado por ela.

O professor e sacerdote Marcelino Gomes, 74, cultivou com ela uma amizade desde que era garoto. Na juventude, após ministrar aulas durante todo o dia, por vezes conseguia ir até o brega e ‘namorar’ com uma das meninas.

“O que nós estamos passando agora com ela, passamos com a morte de Damião, dono do bar vizinho à casa dela, há uns seis meses. A meninada ficava sempre entre o bar dele e o dela. Agora, ela foi embora e a gente já ouviu alguém falar que acabou a farra maravilhosa de Cachoeira”, relata.

*Com orientação da chefe de reportagem Perla Ribeiro.