Vegano 'fake': 10 coisas que você precisa saber sobre esse tipo de produto

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01.01.2022, 11:00:00
O estudante Filipe Amorim já cansou de ver no supermercado falsos produtos veganos (Paula Fróes/CORREIO)

Vegano 'fake': 10 coisas que você precisa saber sobre esse tipo de produto

É vegano ou não é? Especialistas dão dicas para identificar se o que você está comprando é realmente 'cruelty free' e livre de insumos de origem animal

Era uma vez uma granola, que na embalagem se dizia vegana. Isso até o estudante Filipe Amorim, de 24 anos, ler a composição do produto no rótulo e constatar: tem manteiga. 

Sério? “Eu já tive prejuízos pequenos como comprar algum produto que não sabia que tinha ingredientes animais e só descobri depois. Sempre leio a lista de ingredientes e a parte de ‘alérgicos’ no rótulo. Tem informando se o produto leva leite, ovo, amendoim ou outros alimentos alergênicos. Aí facilita saber a composição”, conta Filipe.

Se o item escolhido tem qualquer traço de origem animal na composição ou foi testado em animais em alguma das suas etapas de produção, não se deixe enganar porque o que está levando para casa não é vegano. Por uma questão conceitual.

Mas nem sempre é fácil perceber tal nuance. Um exemplo é dado pela nutricionista e especialista sênior em políticas alimentares no programa Alimentação Consciente Brasil, operado pela ONG Mercy For Animals no Brasil, Bruna Nascimento. 

“Alguns produtos alimentícios ultraprocessados levam insumos que não são comumente conhecidos pelos consumidores, por serem termos mais técnicos. O caseinato de sódio, por exemplo, é um insumo utilizado como estabilizador e texturizante e é derivado da caseína, que é uma proteína do leite”, ilustra.

Se apareceu lactose, carne, ovos, gelatina, corantes à base de inseto como o carmim de cochonilha, mel, o produto pode ser qualquer coisa, menos vegano, por mais que o rótulo insista no contrário. 

“As pessoas precisam saber o que elas estão de fato consumindo para terem um olhar mais crítico sobre a composição dos produtos. Nem sempre essas informações são claras para a população. É importante que não só a pessoa vegana se informe e lute por uma rotulagem mais justa, mas sim, todas as pessoas que consomem produtos embalados”, defende. 

O termo é amplamente utilizado, mas, efetivamente, o que é um produto vegano? E o que não é? Hoje, no Brasil, não há uma legislação sobre indicação de produto vegano na embalagem. No entanto, desde 2013, a Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB), emite um selo que certifica, sob demanda, produtos que seguem os critérios como o de não conter ingredientes de origem animal e não ter teste finalizado em animais. Exigência que inclui não somente a empresa, mas os seus fornecedores.

O selo é elegível tanto para alimentos como produtos de higiene, limpeza e cosméticos. Segundo informações disponíveis na página da entidade, mais de 3.050 produtos foram certificados e mais de 600 fabricantes fornecedores avaliados. Além disso, são 4,5 mil ingredientes verificados. 

Professora da Escola de Nutrição da Universidade Federal da Bahia (Ufba), Lílian Lessa Andrade, pontua que o selo facilita essa identificação de produto que contém apenas ingredientes de origem vegetal, mas o consumidor não deve só depender disso. Produtos importados e reembalados dificultam a análise. 

“É importante ler a lista de ingredientes do produto, pois nela está descrita na ordem do que tem mais para o que tem menos naquela embalagem. É fácil nos enganarmos com alusões no rótulo a ingredientes naturais, ainda que registrem nas letras miúdas ‘imagens meramente ilustrativas’”, comenta Lílian.

Filipe Amorim, o cliente que comprou a granola, passou a ficar mais atento. “Muitos (produtos) possuem embalagens que remetem a alimentação natural como tons de verde, cores mais terrosas. É torpe a estratégia de vender um alimento tentando passar algo que ele não é. Isso fere a autonomia das pessoas de poder escolher sobre sua própria alimentação”, reclama. 

Cadeia produtiva
A universitária Gabriela Campos, 22 anos, é alérgica a proteína do leite. Ela já se surpreendeu quando comprou um leite supostamente vegetal, sem, necessariamente, ser. “Não consigo mais confiar nas marcas. Tem o prejuízo financeiro por não poder consumir o produto, porém, há o impacto na minha saúde com os problemas gastrointestinais”.

Para fugir desse tipo de cilada, a nutricionista Janaína Farias recomenda que o consumidor busque informações sobre toda a cadeia por trás da produção.

“Outra alternativa é priorizar produtos de pequenos comerciantes e feiras locais. Mesmo que um produto seja isento de ingredientes de origem animal, ele pode não ser vegano se a forma de fabricação não for sustentável”.

Coordenador do curso de Nutrição da UniRuy Wyden, Anderson Carvalho concorda. Ele ressalta que o consumidor saiba diferenciar, sobretudo, o Selo Vegano da indicação de que o produto é cruelty free (sem crueldade em animais). “É mais uma confusão muito comum. Esses selos cruelty free, geralmente, são dados a produtos que não testam em animais e, não necessariamente, esses produtos são 100% veganos, porque o fato de dizer que não comete crueldade contra animais não quer dizer que não use derivado de animal na composição”. 

A estudante Laura Gomes, 19, é mais uma consumidora que cansou de ver - principalmente, nas prateleiras de produtos fitness do mercado - biscoitos, massas e molhos que se vendem como veganos, mas, na hora de ler o rótulo, decepcionam. “Acredita que isso aconteceu com um catchup que comprei? Descobri que é usado um corante vermelho que é extraído do exoesqueleto da fêmea de um inseto. Depois disso, sempre procuro o produto na internet inserindo a pergunta: ‘é vegano?’”. 

Expansão
Segundo o estudo mais recente feito pela empresa especializada em pesquisa de mercado Mintel em colaboração com Veganuary, em países da América Latina, como o Brasil, a oferta de veganos aumentou 2 pontos percentuais nos últimos quatro anos. Com um mercado total de 7%, o país só está atrás do Chile, que lidera com 12% do total do setor alimentício. 

Os principais rótulos que os produtos veganos carregam na América Latina são Allergen Free (sem alergênicos) e Gluten Free (sem glúten), o que no Brasil chegam a 86,3% e 77,9%, respectivamente. 

Para a biotecnologista, especialista em engenharia de Gestão da Segurança de Alimentos, Josenai Penha, é cada vez mais evidente a mudança de comportamento de compra do consumidor. “Em um projeto de consultoria de análise de mercado, no questionário de prospecção de lançamento, percebemos que os consumidores que buscavam o produto vegano não eram veganos, celíacas ou intolerantes a lactose, mas o procuravam para serem mais sustentáveis em suas ações com o planeta ou porque acreditavam ser um produto mais saudável”. 

E ser vegano é ser natural? Nem sempre. “Tudo depende dos ingredientes utilizados. Infelizmente, muitas vezes as indústrias, para melhorar o paladar e aceitação sensorial do produto, usam ingredientes que não são tão saudáveis ao consumidor, como o excesso de sódio, açúcar e gordura”, alerta Josenai.

Em 2021, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), em conjunto com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), deu início ao processo de análise regulatória sobre produtos “plant-based”, ou seja, aqueles de origem vegetal como as carnes vegetais que têm surgido no mercado.

A nutricionista e especialista em Saúde Pública do programa de Alimentação do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), Laís Amaral, diz que ainda existe pouca clareza em relação aos principais pontos da norma, mas pode ser que saia uma definição mais precisa que contemple os produtos veganos. 

Até lá, o melhor caminho é mesmo buscar informação. “Prefira aqueles que não são compostos por aditivos como corantes, aromatizantes, emulsificantes e adoçantes. A comida de verdade, baseada em alimentos in natura e minimamente processados, é sempre a melhor opção”, orienta. 

Em caso de publicidade enganosa, o consumidor deve fazer uma denúncia no Procon e buscar o Observatório de Publicidade de Alimentos (Opa) do Idec. “Por meio do Opa, conseguimos analisar as denúncias recebidas, as qualificamos e as enviamos aos órgãos competentes em alguns casos”, completa Laís Amaral.


10 PERGUNTAS E RESPOSTAS SOBRE ALIMENTOS VEGANOS  

1. Produto vegano é realmente saudável? 
Nem sempre. Isto porque existem no mercado, produtos alimentícios ultraprocessados, portanto, não saudáveis, uma vez que são compostos por excessivas quantidades de açúcares, sódio e gorduras, além de apresentarem aditivos alimentares. Ou seja, vai depender muito da sua origem e composição.  

2. Que produtos podem causar confusão? 
Esta confusão pode acontecer, sobretudo, com os produtos alimentícios ultraprocessados que levam insumos que não são comumente conhecidos pelos consumidores e podem ter a presença de algum tipo de resíduo de origem animal ou não ser, efetivamente, cruelty free.  

3. Existe uma legislação que regulamente a produção de veganos? 
Não. Este ano, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, em conjunto com a Anvisa, deu início ao processo de análise regulatória sobre produtos “plant-based”, que seriam os de origem vegetal. Porém, ainda não há detalhes sobre os pontos que serão contemplados na norma.

4. O que é o selo vegano? 
É a certificação feita pela Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB). Os produtos analisados pela entidade levam um selo no rótulo que evidenciam a sua produção isenta de qualquer exploração animal e sem origem de ingredientes também de origem animal.  

5. Quais produtos são elegíveis ao selo? 
A análise e verificação feita pela SBV considera tanto a composição quanto o processo de fabricação. A certificação não é dada a uma determinada empresa ou marca, mas sim, ao produto. Entre os elegíveis ao selo estão os produtos de higiene, limpeza, alimentos e cosméticos.  

6. Há algum tipo de multa ou punição para o vegano fake?  
Como não existe uma legislação brasileira para produtos veganos, logo não há punição. Porém, caso as empresas que já possuam o selo da SBV façam alterações nos produtos que não estejam de acordo com a certificação, elas podem sofrer sanções como multa e suspensão do selo.

7. Que informações devem ir no rótulo?  
Com base na Resolução nº 259, de 20 de setembro de 2002 da Anvisa, todos os alimentos embalados, veganos ou não, devem conter no rótulo o nome do produto, lista de ingredientes, lote e prazo de validade, origem, conteúdo (peso), informação nutricional, possíveis alergênicos e se contém ou não lactose.  

8. Há previsão de mudança na rotulagem?
A partir de outubro de 2022, passam a valer também as novas regras de rotulagem frontal determinadas pela Anvisa (RDC 429). Entre as mudanças, as empresas ficam obrigadas a incluir um alerta na frente da embalagem informando nutrientes que estão acima dos valores de referência definidos.

9. Como saber se é vegano ou não?  
A orientação é checar sempre os ingredientes do rótulo e evitar aqueles que são compostos por aditivos alimentares, como corantes, aromatizantes, emulsificantes e adoçantes. Outra dica é pesquisar e conhecer toda a cadeia produtiva do item.

10. Existem alimentos naturalmente veganos?
Sim. Qualquer alimento vegetal não processado pela indústria é naturalmente vegano, o que inclui frutas, legumes, nozes, sementes, feijões e legumes. No entanto, mesmo os produtos de origem vegetal podem ter explorado o trabalho animal para sua produção e transporte.

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