Velhos e novos Carnavais: como a festa de Salvador se transformou através do tempo

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14.02.2021, 07:00:00
Atualizado: 15.02.2021, 19:42:19
Carnaval na Barra em 1989, ainda incipiente (Foto: Luiz Hermano/Arquivo CORREIO)

Velhos e novos Carnavais: como a festa de Salvador se transformou através do tempo

Folia foi criada para parecer com festa francesa, mas logo a principal característica do Carnaval soteropolitano ganhou corpo: a participação popular

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Imagina um Carnaval sem gente. Os trios sozinhos na rua, enquanto as pessoas assistem a festa de casa, pela televisão. Um desfile de afoxés com um público na arquibancada, só observando. A saída do Ilê só para ver, sem ninguém por perto para sentir. E um bloco sem gente, sem empurra-empurra, sem suor misturado com cerveja e chuva. Difícil? Pois é. Em 137 anos de história moderna do Carnaval de Salvador, muita coisa mudou: a festa começou com clubes e outros elementos foram se juntando: cordões, batucadas, afoxés, escolas de samba, blocos, camarotes. Mas há algo que se mantém firme há mais de um século: a relação das pessoas com o festejo. O folião soteropolitano não quer só ver a festa passar. Ele quer viver.

Já faz tempo que a participação popular comanda o modelo de Carnaval de Salvador. Talvez esta tenha sido a primeira grande mudança na festa, suspensa este ano de forma inédita. Em 1884, primeira vez que a cidade teve uma festa chamada de Carnaval – antes disso, se chamava Entrudo –, a estrutura da festa foi importada. Da França. “O Carnaval de Salvador foi inventado, criado para se parecer com um Carnaval do sul da França, de Nice, com carros alegóricos, máscaras e a continuação da rua para os bailes”, explica Caroline Fantinel, pesquisadora do Ihac/Ufba e coordenadora do projeto Memórias do Reinado de Momo.

Em 1989, o circuito da Barra já recebia foliões, mas ele só foi se consolidar em meados dos anos 1990
(Foto: Luiz Hermano/Arquivo CORREIO)

A primeira parte funcionou, a princípio: o primeiro clube do Carnaval soteropolitano, o Cruz Vermelha, botou seu carro alegórico na rua na folia de 1884 e só saiu de cena de 1962, quando já tinha outro nome: Cruzeiro da Vitória, para não ser confundido com a instituição de ajuda humanitária. Junto com ele, fizeram sucesso o Fantoches da Euterpe e os Inocentes em Progresso. Mas, com o tempo, esse modelo foi se modificando à medida que, nos primeiros anos do século XX, a participação popular se fortaleceu no Carnaval de Salvador.

“Apesar de tantas mudanças que aconteceram, tem algo em comum que vai permanecendo e se fortalecendo, que é um caráter popular e de participação do Carnaval de Salvador. O público não quer só assistir o carro alegórico passar, assim como não quer só assistir ao desfile da escola de samba lá na década de 1960. O folião do Carnaval de Salvador quer participar”, completa Fantinel. Na prática, a festa aqui não acontece se não tiver gente na rua. Justamente o caso de 2021.

Formatos
Ao longo de mais de 100 anos, o formato do Carnaval de Salvador mudou, mas alguns elementos permaneceram, se reinventaram, deixaram herdeiros. Do final do século XIX até os primeiros anos do século XX, os clubes e bailes dominavam a festa. Mas, com uma presença mais forte do povo na rua, os cordões e batucadas foram surgindo e ganhando força, levando para a avenida as pessoas que não podiam curtir as festas promovidas pela elite.

“Não é que um modelo termina e outro começa, eles vão se entrecruzando”, explica o historiador Luan Alves, que pesquisa o Carnaval de Salvador. No início do século passado, por exemplo, mesmo com as pessoas cada vez mais presentes na rua, sobretudo no Centro da cidade, as agremiações matriz africana eram proibidas de passar pelos circuitos oficiais, mas elas desfilavam em outros locais, o que mudou entre 1914 e 1915 com o fim da proibição.

Isso abriu espaço para que os cordões e batucadas ganhassem as ruas. No Carnaval de 1919, eles estavam na Baixa dos Sapateiros e Largo de São Miguel, palco da folia mais popular da cidade. A partir de 1920, esse movimento se tornou ainda vez mais forte: as pessoas negras, que não tinham espaço na festa pensada e desejada pelas oligarquias, passaram a aproveitar o Carnaval ao seu modo.

Clube Fantoches ainda fez concurso de fantasias em 1963
(Foto: Arquivo CORREIO/Divulgação)

Enquanto os cordões ganhavam destaque, os clubes ainda faziam seu Carnaval, os corsos - automóveis enfeitados - se exibiam pela Rua Chile e, ano após ano, novas ideias foram nascendo. “As escolas de samba surgem no final da década de 1950 e início de 1960, por exemplo, quando ainda existem grandes clubes, existem afoxés, blocos, cordões como os Filhos de Gandhy, os Cavaleiros de Bagdá. Ou seja, essas coisas vão coexistindo”, continua Luan Alves.

Tudo isso mostra uma dinâmica que, para Caroline Fantinel, espelha a história da cidade e da própria sociedade que festeja o Carnaval.

Pioneiros
As décadas de 1940 e 1950 são marcadas por mudanças e pela entrada de novas ideias na folia de Salvador. É em 1949 que os Filhos de Gandhy fazem seu primeiro desfile, inspirados numa tradição orientalista. Em 1950 nasce o trio elétrico, inaugurado no ano seguinte com Dodô e Osmar. É do final da década de 1950 o surgimento das escolas de samba e da década de 1960 a explosão dessas agremiações.

“Essas agremiações que vão surgindo servem para a gente pensar as relações de Salvador consigo mesma e com o mundo. Os Filhos de Gandhy saem de uma classe de estivadores, que é muito importante do ponto de vista do abastecimento da cidade, mas eles bebem na fonte de uma tradição orientalista, do cinema. Tem os Mercadores de Bagdá, ligados a uma classe média negra ligada à exploração de petróleo no Recôncavo”, aponta Luan.

Escolas de samba tiveram seu auge nos anos 1960; elas se concentravam entre o Garcia e a Federação
(Foto: Arquivo CORREIO)

E ainda há, nos anos seguintes, a criação de blocos vinculados principalmente a grupos de trabalhadores, quase todos levados por trios elétricos: os Filhos do Fogo, por exemplo, eram ligados aos bombeiros, e os Filhos do Porto e Filhos de Oyá, a estivadores e doqueiros. Em 1974, vem outro pioneiro: o Ilê Aiyê, considerado primeiro bloco afro do Brasil. Em 1980, o Olodum.

Herdeiros
Quem aproveitou carnavais de décadas atrás certamente vai enxergar semelhanças entre alguns elementos do passado e aqueles com ares mais modernos que fazem parte da festa hoje. Integrante e um dos fundadores do grupo Paroano Sai Milhó, Chico Mascarenhas engrossa o coro dos que defendem a vocação do folião para brincar. Tanta vontade, aliás, que os músicos têm ouvido pedidos de foliões para fazer uma festa pequena, com distanciamento, para 2021 não passar em branco. Mas o pedido foi recusado e a folia, pela primeira vez em 57 anos, vai ficar 'paroano' que vem.

"Permanece a mesma vontade de brincar do folião baiano. Tem uma música [de João Bosco] que diz 'Não põe corda no meu bloco / Nem vem com teu carro-chefe / Não dá ordem ao pessoal / Não traz lema nem divisa / Que a gente não precisa / Que organizem nosso Carnaval'. Ela é uma festa espontânea, é para o cara brincar como quer", defende.

Para Caroline Fantinel, existem, sim, herdeiros do passado entre os festejos de hoje. “Na minha opinião enquanto pesquisadora, temos sim herdeiros festivos, e o Projeto do Memórias do Reinado de Momo acontece justamente para deixar muito nítido, apresentar essa herança que às vezes ficou escondida. Temos muitos herdeiros dos elementos antigos. Por exemplo, os primeiros afoxés não acabaram para ali na década de 1950 ao nascer dos Filhos de Gandhy. Tudo que foi feito no princípio do Carnaval de Salvador reverbera, nos tempos atuais, aponta.

Afoxé Filhos de Gandhy em 1959, dez anos após seu primeiro desfile
(Foto: Pierre Verger/Divulgação)

Ela cita a resistência da cultura afro-baiana como um legado, assim como os camarotes em relação aos blocos guardam elementos dos clubes em relação às pessoas que não podiam participar da festa. “Toda mudança social impacta na dinâmica do Carnaval de Salvador, mas alguns elementos, ao invés de serem excluídos, superados, a exemplo do racismo, da perseguição à cultura negra, encontrou formas de se manter na festa”, avalia.

Novo Carnaval
O Centro da cidade foi, por muito tempo, o principal palco do Carnaval de Salvador: Campo Grande, Dois de Julho, São Pedro, Rua Chile e Baixa dos Sapateiros estiveram em evidência. Mas, na década de 1980, a orla da Barra começou a receber foliões. Em 1983, o CORREIO mostrou em sua edição da Quarta-feira de Cinzas que o Farol não Barra não tinha “aderido” ao Carnaval, como se esperava. No ano seguinte, ainda se falava da pouca animação no local, mas em 1986, o jornal falava em “delírio total” na Barra.

Para Caroline Fantinel, foi a partir dos anos 1980 que um conjunto de mudanças causou grande impacto na festa e nos envolvidos nela, como o trio elétrico a pleno vapor e suas tecnologias sonoras, os blocos e a aposta no sucesso da axé music e os jovens conduzindo os blocos de corda, o que contribuiu para o avanço do Carnaval como negócio.

Aos 73 anos, o mesmo Chico Mascarenhas que reconhece que a vontade de brincar o Carnaval continua a mesma, também aponta que a mercantilização da festa causou um forte impacto na folia. "Ele mudou evidentemente quando o poder econômico entrou no Carnaval para tirar proveito. Isso mudou muito porque deixou o folião muito limitado. No instante em que ele saiu do cordões e batucadas para os trios elétricos, e lógico que muita coisa acompanhou, muita coisa bonita ficou, mas isso tira do folião a sua chance, a sua espontaneidade, a sua forma de brincar", aponta. O Paroanó, por exemplo, foi perdendo espaço e saiu dos dois principais circuitos para o Pelourinho.

Foi também o crescimento do Carnaval que fez com que um novo circuito surgisse. Em 1992, a Barra, que já começava a receber alguns foliões, ganhou novo nome: Circuito Dodô. Um pouco mais adiante, o lugar foi finalmente “inaugurado” com a presença de Daniela Mercury, primeira artista consagrada a se apresentar por lá. Daniela se instalou e ficou, atraindo mais gente para a orla. Além do trio, inaugurou seu camarote, para ajudar a chamar a atenção das pessoas para aquele que já começava a ser chamado de circuito mais “charmoso” da folia. Logo também seria o mais disputado.

Em 1996, Daniela Mercury foi com trio e camarote para a Barra, 'inaugurando' o circuito
(Foto: Raimundo Silva/Divulgação/Arquivo CORREIO)

De lá para cá, muita coisa aconteceu. Os blocos de corda foram protagonistas, abriram espaço para os camarotes e, nos últimos anos, viram a pipoca ganhar cada vez mais espaço, além do surgimento de movimentos que tentam lembrar os antigos Carnavais, como o Fuzuê e o Furdunço.

“Talvez não seja um resgate, seja uma continuação dessa dinâmica. Formas carnavalescas que pareciam acabadas vão aparecendo e se reconfigurando. Não tem nada fixo, talvez o ponto central do Carnaval seja a descontinuidade do cotidiano, a ideia de que vai se viver dias de descontinuidade, de interrupção da vida cotidiana. É esse o barato do Carnaval, ele é muito representativo do que está acontecendo na cidade”, afirma Luan Alves.


O Carnaval através do tempo

- 1883: Criado o primeiro clube carnavalesco de Salvador, o Cruz Vermelha. Estreou no Carnaval seguinte, de 1884

- 1914-1915: Fim da proibição para que agremiações afro-baianas desfilassem nas ruas principais do Carnaval de Salvador. Elas, obviamente, desfilavam em outros pontos da cidade

- 1920: A partir dessa década, os cordões e batucadas ganham força com o Carnaval cada vez mais popular

- 1939-1945: Durante a Segunda Guerra Mundial, o clube Cruz Vermelha passa a se chamar Cruzeiro da Vitória, para não ser confundido com a Cruz Vermelha - instituição de ajuda humanitária internacional

- 1963: Provável fim dos desfiles de clubes. A Fobica, precursora do trio elétrico, já tinha sido criada há 13 anos e os clubes perdiam espaço para a guitarra elétrica

- Década de 1980: a Barra passa a ter um circuito, mas ainda sem um nome oficial. Em 1988, o Olodum desfila lá - é o primeiro grande bloco a ir para a Barra

- 1992: O circuito da orla é oficialmente batizado de Dodô.

- 1996: Daniela Mercury "inaugura" o circuito. Foi a primeira artista consagrada a desbravar a orla e montar ali um camarote para convidados

- 2012: Começa articulação para criação do Afródromo

- 2014: Furdunço é criado e Carlos Gomes deixa de integrar momentaneamente o Circuito Osmar

- 2015: Salvador recebe título de Cidade da Música pela Unesco

- 2016: Fuzuê é criado. Carnaval fica ainda maior, com desfiles do Fuzuê e Furdunço no final de semana anterior ao início da festa.

O Correio Folia é uma realização do jornal Correio com o apoio da Bohemia Puro Malte e da Drogaria São Paulo. A transmissão é da ITS Brasil e E_Studio.

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