Voluntários aproveitam erro em sistema e se vacinam até quatro vezes na Bahia

salvador
20.08.2021, 05:00:00
(Paula Fróes/CORREIO)

Voluntários aproveitam erro em sistema e se vacinam até quatro vezes na Bahia

As quase três mil pessoas que participaram de testes - 2889 da Pfizer e Janssen - não constam na base de dados da SMS ou Sesab 

Imunizados por terem sido voluntários nos testes de eficácia das vacinas contra a covid-19, ao menos três baianos tomaram de novo doses de outras fabricantes que não eram aquelas testadas por eles, em postos de Salvador. Uma das voluntárias misturou quatro doses de três tipos de imunizante – Janssen, Oxford/AstraZeneca e Pfizer – em sete meses. Quase três mil voluntários na Bahia – 2.889 somente da Pfizer e Janssen -, participaram da terceira fase de estudos clínicos e não foram cadastrados no Sistema Único de Saúde (SUS) como vacinados.  

A reportagem teve conhecimento dos casos e procurou as secretarias estadual e municipal de saúde, o Ministério da Saúde, além dos laboratórios e fabricantes das vacinas para entender a razão dessas pessoas não terem sido impedidas de se revacinar e se há protocolo que regulamente a situação. As secretarias afirmaram aguardar orientações do Ministério da Saúde e o MS não respondeu até a publicação desta reportagem.

A hipótese mais provável, até agora, é de que houve falha de controle por parte dos órgãos sanitários, já que os voluntários não constam na base do Data Sus. A Secretaria Municipal de Saúde de Salvador (SMS) disse que solicitou, formalmente, orientações do governo estadual sobre essa conduta e disse ter sido comunicada que a Secretaria da Saúde do Estado da Bahia (Sebab) aguardava um posicionamento do Ministério da Saúde.

Já a Sesab informou que “não conduz estudos sobre vacinas nem teve acesso à lista de voluntários. Desta forma, não é possível responder aos questionamentos”, alegou, em nota. A pasta ainda disse que, como não foi notificada, não tem como orientar ou aplicar sanções. O Ministério Público da Bahia (MP-BA), por sua vez, não recebeu denúncias sobre a situação, mas informou que entrará em contato com a Sesab para verificar as informações. 

De acordo com o Hospital Universitário Professor Edgard Santos (Hupes), da Universidade Federal da Bahia (Ufba), que conduziu o estudo da Janssen no estado, foram 1.340 voluntários baianos— de 18 a 60 anos – que receberam o imunizante.  

O professor de infectologia da UFBA e chefe do laboratório de pesquisa em infectologia do Hupes, Carlos Brites, explica que os dados serão gradualmente enviados ao Ministério da Saúde, para inclusão no cadastro nacional de imunizações. Não houve, no entanto, nenhum tipo de orientação aos voluntários ou proibição de tomar outra dose de outra vacina.  

“Se você tá no estudo e toma vacina, vai obviamente bagunçar o estudo. Mas isso não está escrito, não tem uma cláusula dizendo que é proibido tomar outra vacina. Vai do bom senso das pessoas e a gente orienta que elas não devem fazer alguma coisa que interfira com aquele resultado”, esclarece Brites.  

Mesmo não havendo regulamentação, ele reforça que não é recomendado misturar vacinas de fabricantes diferentes. “Não é uma recomendação de nenhuma autoridade de saúde. Se você está em um estudo que quer avaliar a eficácia de uma vacina e se vacinar com outra, vai bagunçar os resultados. Se você quiser fazer isso por sua conta e risco, você sai de estudo”, detalha.

Terceira dose em estudo

Brites ainda ressalva que é possível uma terceira dose, mas com intervalo de, pelo menos 8 meses. “Agora se começa a falar de terceira dose, mas é uma questão de imunidade, que ainda está muito nebulosa. É possível o reforço com outra marca, depois de, pelo menos, oito meses, porque até esse período a proteção é bastante razoável. Mas tomar três doses diferentes em espaço de tempo curto é falta de senso. Ainda não existem dados sobre essas situações, nem evidência que sugere que a proteção vai aumentar se tomar vacinas diferentes”, orienta. 

Da Pfizer, foram 1.549 participantes da pesquisa na Bahia, segundo o infectologista Edson Moreira, coordenador do Centro de Pesquisa Clínica das Obras Sociais Irmã Dulce, instituição que coordenou a pesquisa no estado.  

De acordo com Moreira, os voluntários foram orientados a não tomarem outra vacina contra covid-19 durante e depois do estudo. Ele disse ainda que fornecerá os dados dos vacinados ao ConecSUS, após cadastramento no Plano Nacional de Imunização (PNI). “Todos os participantes receberam um comprovante de vacinação assinado por um dos médicos investigadores do estudo, contendo as datas da 1ª e 2ª doses com respectivos lotes da vacina e data de validade”, completa o coordenador. 

Já da Oxford, não foi possível descobrir a quantidade. A Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que coordenou a pesquisa nacional da Oxford, só sabia o número total de participantes no Brasil – 10 mil. 

A Rede D’or não respondeu aos e-mails e o Hospital São Rafael, que conduziu estudo da Oxford, disse que não pode falar sobre o assunto. Portanto, são mais de 2.889 baianos que participaram de estudos de eficácia e podem ter tomado mais doses que o necessário. 

Janssen e duas doses da Oxford 
Uma das participantes do estudo, de 35 anos, que prefere não se identificar, recebeu a vacina da Janssen, em março, e quer tomar outra vacina no posto para reforçar a proteção. Como, até o momento, ainda não se sabe por quanto tempo as vacinas contra a covid-19 protegem, ela disse que teme que possa ser infectada por novas variantes, como a Delta, originada na Índia, que tem maior resistência aos imunizantes.  

Outra voluntária da Janssen, de 57 anos, que pediu anonimato e é professora da rede pública, preferiu garantir sua terceira dose. Ela tomou a dose única da Janssen, em março e, dois meses depois, em maio, tomou a primeira dose da Oxford/Astrazeneca.  

“Quando abriu vacina para professor, tomei também, porque ainda não tinha garantia de tempo de eficácia de vacina da Janssen. Pandemia é guerra, você não sabe o que está certo, o que é seguro. Se eu tomasse a segunda dose, me manteria protegida por mais tempo e, possivelmente, vamos ter que tomar outra dose. Foi questão de sobrevivência”, justificou.  

Ela chegou a comunicar aos pesquisadores da Janssen, que fazem acompanhamento semanal dos voluntários, que tinha tomado vacina de outra fabricante. “A médica me ligou perguntando por que eu tinha feito isso, que não deveria, porque tinha casos de trombose com a Astrazeneca e a Janssen”, explica.  

Por conta da baixa incidência dessas reações, a professora não ficou receosa. “Fiquei um pouco impressionada, porque ela me botou medo da trombose, mas são pouquíssimos casos, 6 em um milhão de pessoas. Mas esse protocolo de cruzamento de vacinas já está sendo adotado em outros países, então por que aqui teria problema?”, indaga.  

Uma servidora pública que também pediu anonimato e foi voluntária do estudo, tomou a Janssen em dezembro e as doses da Oxford até final de julho. “Quis participar do estudo para contribuir com a ciência e, no momento que participei, não tinha vacina”, conta. 

Ela tomou as outras duas doses por dois motivos – garantir imunização e constar no banco de dados do SUS. “As vacinas dos ensaios clínicos não vão para o prontuário do Conecta SUS. Então se precisasse de passaporte de vacinação por algum motivo, não teria como confirmar que tomei a vacina”, esclarece. As duas continuam no estudo. 

O estudante João Gabriel Veiga, 24, preferiu não tomar quando chegou sua vez, porque recebeu o imunizante, em junho, devido à sua participação no estudo da Janssen. Ele disse que não houve orientação do laboratório quando a interdição ou não de tomar outra dose de vacina de covid.  

“Como tomei a vacina no teste clínico, quando chegou a convocação para o pessoal da minha idade, não fui, porque tinha um mês que tinha tomado. Percebi que não precisava, porque meu corpo já tinha criado resposta imune”, conta.  

Pfizer 
Os estudantes Yan Couto e Pedro Mendes, participantes do estudo da Pfizer, disseram ter sido orientados pelo laboratório a não tomar outra vacina, caso contrário, sairiam do estudo. Mendes nem considerou tomar uma terceira ou quarta dose, disponível no posto de saúde de Salvador.  

“Nem passou por minha cabeça tomar no posto, porque já tinha tomado a vacina”, confessa Pedro Mendes. Ela participou do estudo para ficar logo imunizado. “Meu pai, com quem convivo, é grupo de risco, então seria a melhor opção participar do estudo, porque ainda não tem cura e não tinha perspectiva de nada na época”, conta. Ele tomou a primeira e segunda dose em fevereiro.  

Já Yan Couto, como está cotado para o estudo da terceira dose da vacina, não tomará a dose guardada no posto de saúde. O mesmo ocorreu com a aposentada Karla Leite, 56. “Não há necessidade de tomar outra dose, é melhor deixa para quem precisa”, opina.  

A médica pneumologista Larissa Voss, que participou do estudo de Oxford, também preferiu não tomar, pois a ciência ainda não dá respostas concretas a respeito.

“Não foi orientado nem a tomar outra vacina nem a não tomar, até mesmo porque essa resposta não se tem hoje. Os estudos estão ainda em fase de análise. E não tomei nenhuma vacina depois do estudo porque vou aguardar evidências científicas”, explica.  

Atitude prejudica os demais 
Cientistas alertam que esse tipo de atitude é preocupante e não deveria acontecer, principalmente porque ainda não há estudos suficientes sobre os efeitos da combinação de vacinas — nem em relação à segurança dessas misturas e nem sobre a capacidade de aumentar ou diminuir a proteção contra o vírus.  

Pesquisadora da Fiocruz Bahia, a médica imunologista Viviane Boaventura, professora da Ufba, explica que é preciso aguardar: “É plausível imaginar que não haverá maiores riscos, mas pode ter mais efeitos adversos, por exemplo”. 

Especialistas consideram, ainda, que esse é um equívoco grande porque tais voluntários já estão com o esquema vacinal completo e não precisam de doses adicionais. Essa busca é prejudicial para o avanço da cobertura vacinal no estado. Até ontem (19), mais de 32% da população baiana com mais de 18 anos não tinham tomado sequer a primeira dose e cerca de 71% não tomaram a segunda, conforme dados da Sesab. 

Para Boaventura, essa busca por dose extra no braço é, inclusive, “individualista e baseada em conclusões equivocadas, que prejudicam a comunidade e a própria pessoa”, alerta ela. “Precisamos direcionar as vacinas para proteger os mais vulneráveis, que podem adoecer e agravar. Devemos reforçar que vacina é uma estratégia de saúde pública: funciona se administrada para grande parte da população, reduzindo a circulação do vírus e o impacto sobre o sistema de saúde”, completa. 

Na visão de muitos cientistas, essa discussão sobre doses de reforço ainda não deveria ser pauta no Brasil, já que há tanta gente que não teve acesso à vacina. Pesquisadora ligada também à Fiocruz Bahia, a médica infectologista Fernanda Grassi desaconselha que as pessoas tomem doses extras fora de ensaios clínicos controlados ou sem orientação do Ministério da Saúde.  

“Misturar vacina por ideia da própria cabeça definitivamente não é uma boa estratégia”, adianta. No Brasil, não há indicação da Anvisa nem para mix de vacinas e nem para aplicação de doses adicionais (ou de reforço, como são chamadas). 

O infectologista Claudilson Bastos, do Instituto Couto Maia, hospital referência no tratamento de doenças infecciosas na América Latina, e secretário da Sociedade Brasileira de Infectologia (regional Bahia), informa que não há problemas em cruzamento de vacinas.  No Brasil, no entanto, ainda não existe recomendação técnica do Ministério da Saúde para a adoção da terceira dose anticovid.

“Até o momento, não existem relatos de uma quarta dose, mas está existindo a questão do reforço, na Inglaterra, por exemplo, e a intercambialidade já existe, não seria um complicador. Mas depende de cada situação, é preciso ver a resposta e a reação vacinal da pessoa. A longo prazo, ainda não podemos julgar, porque as tecnologias são muito recentes”, detalha.  

Baiana tomou quatro doses contra a covid-19 
Uma pesquisadora baiana que pediu anonimato tomou quatro doses da covid-19. Primeiro, ela participou do estudo da Janssen e conseguiu a dose única em novembro de 2020. Depois, tomou a primeira dose da Oxford/Astrazeneca na prefeitura de Salvador. Em julho, tomou as duas doses da Pfizer nos Estados Unidos, quando foi passar as férias com o esposo, que é cidadão americano.  

"Já havia passado mais de 6 meses da Janssen quando fui chamada para vacinar pelo SUS. Não se sabia se a proteção da Janssen seria superior a seis meses”, conta. Ela decidiu tomar a Pfizer para completar o esquema vacinal.  

“Não estava com a vacinação completa e nos EUA a população já estava sem máscara. Para evitar contaminação e pela disponibilidade da Pfizer, escolhi por me proteger e completar o protocolo com a Pfizer. Já havia informação técnica sobre misturar Oxford e Pfizer. Inclusive, o governo brasileiro está agora recomendando essa combinação”, justifica. 

A pesquisadora não teve reações adversas graves, somente fadiga e dor no local da aplicação. Nenhum profissional de saúde a orientou a não tomar quatro doses, segundo ela. Ela não planeja tomar a segunda dose da Oxford – que seria a quinta.

“Enquanto estiver protegida pela Pfizer, não vou tomar mais vacina. Acho mais justo deixar a dose da Oxford para algum brasileiro que precise mais do que eu”, completa. Ela saiu do experimento da Janssen após vacinar-se com a Pfizer. 

Casal denunciado em Minas Gerais 
No mês passado, o Ministério Público de Minas Gerais entrou com uma ação penal de estelionato contra um casal da alta sociedade de Belo Horizonte que tomou três de vacinas contra a covid-19. Os denunciados foram a dona de uma joalheria chamada Terezinha Geo Rodrigues e o marido dela, Jacques Rodrigues, proprietário de uma empresa de engenharia. 

Eles receberam duas doses da Coronavac na capital mineira e, depois, mais uma dose da Pfizer, em outra cidade no interior do estado. O MP-MG pediu pagamento de multa de R$ 500 mil por dano moral coletivo e R$ 500 mil por dano social pela gravidade da conduta, para cada um, totalizando R$ 2 milhões ao casal. De acordo com o G1, o órgão teve conhecimento do caso após denúncia anônima à Ouvidoria e o cruzamento de dados das secretarias das duas cidades permitiu comprovar que eles receberam as três doses contra a covid-19. 

*Com a orientação da chefe de reportagem Perla Ribeiro

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