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Maiara Baloni
Publicado em 21 de maio de 2026 às 05:00
O cadastro mais importante do país está sofrendo de um inchaço populacional que desafia a matemática oficial do próprio governo. Uma auditoria recente do Tribunal de Contas da União (TCU) revelou que a base de dados da Receita Federal possui cerca de 13 milhões de CPFs cadastrados como "regulares" a mais do que o total de habitantes vivos registrados pelo Censo Demográfico do IBGE. A descoberta desse "país de papel" acendeu o sinal de alerta em Brasília e resultou em uma determinação definitiva: o fisco tem agora um prazo de 90 dias para apresentar um plano de ação robusto que explique e saneie essa distorção histórica. >
CPF NA NOTA
O choque entre os números oficiais mostra o tamanho do desalinhamento estatístico. Enquanto o Censo do IBGE apontou que a população real do Brasil gira em torno de 203,1 milhões de cidadãos, a base da Receita Federal contava com impressionantes 216,8 milhões de inscrições ativas na mesma faixa comparativa de nascidos. A diferença supera qualquer margem de erro técnica aceitável e abriu espaço para uma enxurrada de boatos nas redes sociais sobre um suposto cancelamento em massa de documentos. O plano exigido pelo tribunal, contudo, passa longe de um apagão automático de registros e foca no cruzamento de dados para identificar falhas estruturais de comunicação.>
O ponto mais crítico e impressionante dessa auditoria está concentrado no topo da pirâmide etária, onde os registros do governo desafiam a própria lógica biológica. O sistema do CPF mantém ativos hoje nada menos que 349,6 mil cadastros de pessoas que teriam 100 anos ou mais de idade. Ocorre que, segundo o IBGE, o número real de centenários vivos em solo brasileiro é de apenas 37,8 mil. Na prática, a base do fisco trabalha com um inflador de mais de 824% nessa faixa etária, o que significa que existem pelo menos 311 mil CPFs de idosos teoricamente na ativa, mas que pertencem a pessoas que já faleceram. >
Essa pane crônica no encerramento do ciclo de vida dos documentos tem explicações burocráticas antigas. O TCU identificou que falta integração real entre as bases da Receita Federal, os cartórios de registro civil, o Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) e os dados de benefícios por morte geridos pelo INSS. Além dos falecidos que continuam "vivos" para o fisco, a lista de inconsistências que engordam o sistema inclui títulos de eleitor inválidos e múltiplos CPFs atrelados a um único título de eleitor, um cenário fértil para a ocorrência de fraudes e desvios de recursos em programas sociais.>
Para quem está com as obrigações em dia, o cenário não é de alarde. Ninguém vai acordar com o documento bloqueado do dia para a noite apenas para cumprir a meta estipulada pelo tribunal. O plano de ação de 90 dias vai desenhar uma estratégia progressiva e cirúrgica para que a Receita passe a rastrear o estoque de cadastros antigos e cruzar dados de óbito de forma automatizada. O objetivo é congelar cadastros comprovadamente falsos ou dar baixa definitiva naqueles de cidadãos que já partiram. >
O risco real de cancelamento ou suspensão continua existindo, mas ele segue estritamente os ritos administrativos tradicionais do órgão. A Receita Federal fará as verificações de forma individualizada e com base em indícios reais de fraude ou duplicidade. Cadastros legítimos, com nome, filiação e dados consistentes, permanecem intactos. Especialistas alertam que o momento de transição costuma ser prato cheio para criminosos virtuais, a recomendação é ignorar mensagens alarmistas no WhatsApp ou links que prometem "regularização urgente de CPF" mediante pagamento de taxas. Qualquer consulta de situação cadastral deve ser feita exclusivamente de forma gratuita pelos canais oficiais do governo, como o portal Gov.br ou o sistema e-CAC.>