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Maiara Baloni
Publicado em 20 de maio de 2026 às 17:00
A corrida pelos votos da direita liberal no Brasil ganhou um componente de alta voltagem econômica e social. O ex-governador de Minas Gerais, Romeu Zema, filiado ao partido Novo, colocou de vez as cartas na mesa para sua pré-campanha presidencial com uma proposta que mexe diretamente com o bolso de quem estuda em universidades federais, uma cobrança de 1% sobre o salário dos profissionais formados nessas instituições. A declaração, dada ao Grupo ND+, de Santa Catarina, faz parte de um rastro de falas de forte impacto, que incluem desde a flexibilização do trabalho juvenil até pedidos de prisão de ministros do STF, usadas como estratégia deliberada para dar visibilidade nacional ao seu nome. >
Romeu Zema
A taxa para os formados em universidades públicas surge como alternativa para financiar o ensino superior sem a cobrança de mensalidades diretas. Enquanto o plano agrada a setores que defendem o enxugamento da máquina pública, a reação de entidades como a CUT e o Sind-UTE/MG foi imediata, acusando o mineiro de tentar minar os repasses estatais. O movimento traduz o DNA que Zema tenta projetar para o país, o do gestor com mentalidade empresarial que desafia o sistema tradicional em nome do controle rígido de despesas.>
A polêmica da educação se soma a outra fala de grande repercussão. Em participação no podcast Inteligência Ltda, o político defendeu flexibilizar as regras contra o trabalho na infância e na adolescência, comparando o Brasil aos Estados Unidos, onde jovens entregam jornais por centavos. Zema afirmou que a esquerda criou o mito de que o trabalho prejudica os jovens. Alvo de duras críticas de ONGs e especialistas em direitos humanos, ele precisou recuar em vídeo, argumentando que sua real intenção era defender a ampliação do programa Jovem Aprendiz a partir dos 14 anos para blindar os adolescentes contra a criminalidade. >
A retórica de Zema também subiu o tom contra a Praça dos Três Poderes. O ex-governador disparou que ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), como Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, deveriam ser presos, e não apenas sofrer impeachment, sob a acusação de conivência com a corrupção. O embate virou caso de Justiça quando o ministro Gilmar Mendes pediu uma investigação contra o político por calúnia, motivado por vídeos de sátira publicados nas redes sociais sobre fraudes no Ministério da Educação (MEC). Para consolidar o alinhamento com a ala mais conservadora, o mineiro ainda saiu em defesa da anistia aos envolvidos nos ataques de 8 de janeiro em Brasília.>
Toda essa plataforma nacional encontra sustentação no legado deixado em Minas Gerais, onde Zema encerrou o mandato com 52% de aprovação popular, segundo o instituto Genial/Quaest. Os bastidores desse número, contudo, revelam uma forte polarização interna: 32% consideravam a gestão ótima ou boa, 36% regular e 26% ruim ou péssima, um desgaste amplificado por greves sucessivas de professores da rede estadual por reajustes salariais. O núcleo duro de seu apoio está concentrado na classe média e no empresariado de grandes polos urbanos, atraídos pelo discurso de privatizações. >
O desafio reside em transformar esse capital regional em votos num Brasil polarizado. O levantamento nacional mais recente da Quaest aponta um cenário de primeiro turno amplamente dominado por forças tradicionais, com o presidente Lula na liderança com 39% das intenções de voto, seguido por Flávio Bolsonaro, com 33%. Juntos, os dois retêm 72% do eleitorado.>
Nesse tabuleiro engessado, Romeu Zema aparece com 4% das intenções de voto, empatado com o governador de Goiás, Ronaldo Caiado. Embora o político do Novo detenha uma margem importante para crescimento, dado que 28% dos entrevistados dizem que cogitariam votar nele no futuro, quebrar a barreira da polarização atual exige fôlego. A tática de verbalizar propostas polêmicas e de alto impacto econômico na internet é a cartada de Zema para blindar sua base e tentar capturar o eleitor órfão que busca uma terceira via fora do petismo e do bolsonarismo tradicional.>