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Thais Borges
Publicado em 29 de março de 2026 às 05:00
Durante a madrugada, Catharina Paraguaçu teve o mesmo sonho pelo menos duas vezes. Uma embarcação afundara e, entre os tripulantes, uma mulher pedia socorro. Eles sofriam com frio e fome, enquanto a jovem mulher trazia um bebê nos braços. Catharina pediu que seu marido, Diogo Álvares Correia (o Caramuru), vasculhasse a costa. Por aqui, não achou ninguém. Mas, ao descer até o Sul da Bahia, encontrou náufragos espanhóis. Não havia mulher alguma com eles. >
Narra a história oral, contudo, que Catharina continuou a sonhar e seguiu pedindo que o Caramuru procurasse mais uma vez. Nessa nova incursão, ele encontrou uma imagem da Virgem Maria em meio aos destroços do navio. Quando entregou a santa a Paraguaçu, ela não teve dúvida: era a mulher que tinha aparecido em seus sonhos. Ali, chamou-a de Nossa Senhora da Graça e mandou construir uma capela para aquela que é considerada por muitos a primeira manifestação mariana nas Américas. Esse episódio foi o ponto de partida para que um dia surgisse a Igreja da Graça - sim, a atual - e o próprio bairro da Graça, além de outras tantas marcas de Catharina Paraguaçu por Salvador. >
Se essa história realmente aconteceu, é difícil dizer. O que se sabe, de fato, é que a parábola sobreviveu à própria colonização - é só uma das muitas histórias de Catharina, a mulher que é mais velha do que a própria história de Salvador. Guaimbipará, como era seu nome original antes de se tornar Catharina por batismo já adulta, estava aqui antes da chegada de Tomé de Souza para um dia fundar a cidade. >
Os marcos da trajetória de Catharina Paraguaçu em Salvador
Catharina já é extraordinária somente por ter existido - de forma oficial, com documentos e registros que podem ser comprovados. "É uma das poucas representantes dos povos originários que a gente tem o nome na História. Porque a maioria dos indígenas a gente sabe que existiu, mas não tem seus nomes", explica a museóloga e historiadora Simone Trindade, pesquisadora e diretora operacional do Tecnomuseu. >
Assim, Catharina é um ícone também pela ausência - ou mesmo pela incapacidade de o Brasil conhecer mais dos povos originários. Mesmo assim, pouco se sabe sobre ela, se formos comparar com outras figuras que tiveram trajetórias semelhantes de alguma forma. "A gente conhece muito mais dos Estados Unidos e de Pocahontas, por causa da Disney, do que da nossa história de Caramuru e Catharina", critica Simone. "A gente está falando de uma história que é o começo da nossa formação. Se a gente comemora o 29 de março hoje, ela (Catharina) começa antes disso tudo, porque já estava aqui antes da colonização portuguesa chegar efetivamente", pontua. >
As marcas que ela deixou são visíveis e invisíveis. Entre as concretas, é possível chegar à Igreja da Graça, onde estão seus restos mortais até hoje, mas também à Fonte da Nossa Senhora da Graça e até ao próprio nome do bairro. Mas o que está no imaginário é ainda maior: Catharina influenciou o catolicismo na colônia, assim como o que ainda é contado sobre sua época e até o que veio bem depois, como a Independência da Bahia. >
França>
Não é possível dizer, ao certo, quando Guiambimpará nasceu. O há de oficial é que ela era uma indígena tupinambá filha do cacique de uma comunidade que vivia na região da Baía de Todos os Santos - provavelmente, entre as áreas onde ficam o Rio Vermelho e a Barra hoje. De acordo com o historiador Ricardo Carvalho, isso indica que ela ocupava uma posição de relevância dentro daquele grupo. >
"No entanto, grande parte do que se conhece foi registrado posteriormente por cronistas europeus, o que exige uma cautela histórica. Sua história inicial foi em muitos aspectos reinterpretada sob a ótica da colonização, então, muito de sua identidade foi apagada. Sua identidade originária vem reforçando a narrativa que se insere como o mito fundador, dessa ponte de entre dois mundos, a Europa e a América original", pondera Carvalho.>
Mais de 20 anos antes de Salvador existir formalmente, Catharina já tinha até saído do Brasil. Em 1527, ela e o Caramuru viajam a Saint-Malo, na França, onde acontece tanto o batismo dela quanto o casamento dos dois no ano seguinte. Foi ali que, após anos de convivência no Brasil, Catharina e Diogo casaram "de papel passado", como explica a museóloga e historiadora Simone Trindade. >
A França, porém, chama atenção. Por que não Portugal, que mantinha presença aqui havia quase três décadas? No entanto, tudo aconteceu antes da chegada de Tomé de Souza. "Antes dessa formalização, existia uma rede de comércio muito ativa com a França, que a gente chamaria de corsários. Era um comércio informal e o Caramuru ficava muito à frente disso, porque ele falava línguas. Por isso, eles foram para lá, por uma questão comercial", acrescenta Simone. >
Até aquela viagem, a protagonista dessa história ainda se chamava Guaimbimpará. Lá, recebeu esse nome católico. Há quem diga que foi uma homenagem a Catharina de Médici, rainha da França. A certidão de batismo, contudo, indica que Katherine du Brésil recebeu o mesmo nome de Katherine des Granches, que foi sua madrinha na cerimônia e era esposa do explorador Jacques Cartier. Após o batismo e o casamento também ali, Guaimbimpará se tornou Katherine du Brèsil – ou Catharina do Brasil. >
A presença de Catharina na França - que durou até meados de 1532, quando o casal retorna à Bahia - provocou curiosidade, agitação e interesse na corte europeia. Mais do que uma viagem pessoal, era um evento político. O historiador Ricardo Carvalho reforça que o matrimônio na França ocorreu segundo a tradição cristã europeia, o que deu "legitimidade" à união que já era reconhecida localmente. >
"Essa união simboliza uma das primeiras alianças, no sentido colonial, entre indígenas e europeus no Brasil e funcionou como um modelo inicial de mediação cultural. Ela representa, ao mesmo tempo, cooperação e assimetria, porque é um elo estratégico para os colonizadores e um ponto de inflexão para as dinâmicas sociais indígenas diante da presença europeia". >
Três anos após o retorno à Bahia, a Igreja da Graça foi construída. A partir daí, não há tantos registros documentais sobre a relação de Catharina com o governo local, por exemplo, mas um dos fatos mais importantes é que, um ano após a implantação da Ordem Beneditina na Bahia, Catharina doa a igreja e os terrenos da Graça aos monges beneditinos. >
"Ela foi uma personagem protagonista primeiro por ter essa liderança, junto com Caramuru, e por ser a nossa matriarca. Ela deu origem a uma das primeiras famílias brasileiras, considerando a origem dos filhos", explica a museóloga e historiadora Simone Trindade. Era uma família que ainda trouxe outros marcos: Catharina é considerada a primeira mulher brasileira - não apenas indígena - a aprender a ler e a escrever, embora o título de pioneirismo também seja comumente atribuído à sua filha, Madalena Caramuru. >
Marcas>
Quem passa por certas localidades de Salvador, hoje, pode não perceber, mas as marcas de Catharina Paraguaçu na cidade permanecem - especialmente, no bairro da Graça. Além da Igreja homônima, construída por ela e onde foi sepultada, há também a Fonte de Nossa Senhora da Graça, a mais antiga do município. >
Assim como a história oral repassa a história da imagem de Nossa Senhora no naufrágio até hoje, os relatos da tradição oral são de que a fonte foi construída pelo Caramuru e era onde Catharina se banhava. >
Segundo o registro da Fundação Gregório de Mattos no Mapa da Cultura do Ministério da Cultura, a fonte servia também para abastecer os barcos que chegavam a Salvador e para o piquenique de famílias tradicionais. Por sua construção, era possível aproveitar a corrente de águas subterrâneas por um sistema de galeria. >
A fonte, contudo, já teve dias melhores. Localizada no largo chamado Praça Catarina Paraguaçu (inaugurada em 2007), o equipamento parece esquecido e sem visitação. No dia em que a reportagem esteve no local, na última semana, a movimentação mais recente parecia ter sido de pessoas em situação de rua que usavam o espaço para se abrigar. >
Mas a principal representação de Catharina, contudo, não foi nem mesmo sua contemporânea. Trata-se de uma estátua de Catharina no Monumento ao Dois de Julho, na Praça do Campo Grande. Ela fica ao lado da estrutura de outra mulher, que representa a Bahia. Lá, contudo, nem mesmo todos os frequentadores costumeiros sabem bem quem é aquela. >
"Já ouvi falar (de Catharina), mas não sei nada sobre isso, não", disse uma vendedora de pipoca que não quis se identificar, mas contou trabalhar na praça há cinco anos. Moradora do Campo Grande há 30 anos, a aposentada Doralice Lopes, 84 anos, lamentou que o conhecimento sobre Catharina venha se perdendo. "Eu sei a história dela, mas acho que o pessoal não sabe. Eu só sei a história porque sou descendente de índio (sic), minha família veio de Porto Seguro. Esse monumento é maravilhoso, mas o pessoal hoje não liga para nada", afirma. >
A cuidadora de idosos Angela Maria, 71, que também frequenta o largo diariamente, admite que lembra pouco sobre a figura histórica. "Não sei mais nada, porque tem mais de 50 anos que ouvi a história dela, na escola ainda. Como não tive filhos, acabei não tendo como relembrar, porque quando você tem filhos, é forçado a aprender de novo", conta. >
O que pode confundir algumas pessoas, porém, é que as lutas pela independência ocorreram quase três séculos após a morte de Catharina. De acordo com a museóloga e historiadora Simone Trindade, a fusão entre Catharina Paraguaçu e a Cabocla do 2 de Julho é fruto de uma construção na época da Independência. >
"Naquela época, há uma procura por afastar da identidade tudo que era do colonizador, do opressor, e uma busca pelo que realmente é seu. O que era da gente antes dos portugueses? Os indígenas. Por isso, o símbolo da cabocla. Mas quem era a indígena mais famosa, uma das únicas que a gente conhece? Catharina", argumenta. >
Para o historiador Ricardo Carvalho, o que torna Catarina uma figura tão extraordinária é justamente o rompimento com os padrões esperados das mulheres indígenas no início do século 16. "Ela vai transitando entre mundos distintos com uma certa autonomia. Sua presença na Europa, seu batismo, sua alfabetização e sua inserção em redes de poder a colocam em uma posição raríssima no período colonial brasileiro".>
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