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Perla Ribeiro
Publicado em 29 de março de 2026 às 05:00
Em meio ao vaivém de gente e buzinas de carros apressados, o aposentado Augusto Cezar Ribeiro de Azevêdo, 78 anos, mantém na Rua Thomaz Gonzaga, no bairro de Pernambués, um universo particular. É uma espécie de refúgio em meio ao caos de uma grande metrópole. Um lugar onde ele pode se dar ao luxo de ter árvores no quintal e a música que chega aos seus ouvidos é o canto dos pássaros. Por ali pousam bem-te-vi, assanhaço e sabiá. É como se vivesse distante da confusão da cidade grande. Mas, basta percorrer os 56 metros que separam o imóvel da rua, que se depara com um movimento pulsante, que nada lembra a Thomaz Gonzaga da sua infância. Enquanto há quem colecione endereços ao longo de uma vida, seu Augusto pode dizer que fincou suas raízes ali. Desde que nasceu, sempre morou na mesma rua. >
Numa viagem no tempo, ele resgata memórias, pincela lembranças e recortes de diferentes épocas e monta um grande mosaico da própria história. Em muitos momentos, suas vivências ajudam a compreender não só o crescimento de Pernambués, como o da velha Salvador, onde o Colégio Central era cobiçado, o transporte público era o bonde elétrico e passear na Rua Chile era um acontecimento. >
Aqui era tudo chácara', morador viu Pernambues nascer e se transformar no 3° bairro mais populoso de Salvador
O bairro que Augusto viu crescer deixou para trás o retrato de um lugar pacato ocupado por chácaras para se tornar o terceiro mais populosos da cidade e também o quinto metro quadrado mais valorizado da capital baiana. De acordo com dados do último Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), por lá vivem hoje 52.564 pessoas, distribuídas em 27.278 domicílios. Em números de habitantes, só perde para a Pituba e Itapuã. >
Quando seu Augusto fincou suas raízes ali, nos fins dos anos 40, Pernambués sequer era oficialmente um bairro, fazia parte do Cabula. A ocupação ainda era bem incipiente. Em vez de um adensamento de casas, ele convivia com os vazios habitacionais entre uma chácara e outra.>
Saiu da Maternidade Climério de Oliveira direto para o número 59 da Rua Thomaz Gonzaga, mais precisamente, na Chácara Viva Deus, onde a família morava em uma área de 10 mil metros quadrados. Embora os pais, Raimundo Azevêdo e Ophélia Ribeiro Azevêdo, só tivessem ele e a irmã, Maria Esther, a casa vivia cheia. Como dona Ophélia era de São Félix, a chácara funcionava como uma espécie de QG da parte da família do Recôncavo na capital.>
Era como se vivesse num interior dentro de uma cidade grande. Augusto corria pelo quintal, subia nas 16 mangueiras distribuídas pelo terreno, saía com seu badogue para caçar lagartixa e calango. No café da manhã, via chegar à mesa o leite fresquinhos recém saído das vacas que o pai mantinha em uma cocheira na propriedade. Os ovos também eram produzidos pelas galinhas que ciscavam naquele terreiro. >
Ali, ele podia dar asas à imaginação. A rua funcionava como uma extensão de sua casa. "Nessa época, 90% das moradias eram chácaras e tinha poucos vizinhos ao lado. Um deles era o ministro Aliomar Baleeiro, que morava no Rio de Janeiro. A família sempre vinha passar as férias aqui. Quando chegavam, os filhos dele, Marisa e Aliomar Filho, paravam na frente da minha casa e gritavam: 'amanhã passa na minha casa'. As brincadeiras eram lá", recorda, em alusão ao palacete que ele considerava maravilhoso. Ele foi demolido há dois anos e o terreno colocado à venda.>
Outra chácara famosa na vizinhança era a de Numa Pompílio Bittencourt, personalidade que hoje dá nome a uma importante rua do bairro. "Era uma fazenda de laranja que a gente usava e abusava. Os filhos eram bem mais velhos do que eu, mas ele era o meu padrinho e incentivava o futebol. Todo mundo tinha acesso à casa dele. Os jogos eram nas tardes de sábado e o casal sempre estava presente na beira do campo assistindo". No século 19, 20, a região do Cabula, que incluía Pernambués, possuía fazendas que cultivavam laranja.>
Até os 14 anos, a diversão era na vizinhança. "O único perigo que diziam que tinha aqui era a mula de sete cabeças", conta, se referindo a um folclore popular. Quando saía do seu universo lúdico, era como se estivesse em outra cidade. Diariamente, pegava o bonde elétrico em direção ao Educandário Jesus Crucificado, na Independência, e se deparava com uma Salvador mais desenvolvida do que a parte em que ele morava. Na época, só haviam dois carros em sua na rua e, ambos, importados. O Brasil iniciou a fabricação de veículos em 1956. >
Augusto crescia e junto com ele a curiosidade pelos espaços urbanos. Foi então que começou a expandir suas vivências e ampliou os territórios explorados. Passou a ir aos cinemas. Foi frequentador do Aliança, do Jandaia, do Tupi, do Pax. Também não abria mão dos passeios na Rua Chile. Perdeu as contas de quantas vezes cruzou com a Mulher de Roxo por lá. >
A Confeitaria Triunfo, que funcionava no alto da Ladeira da Praça, e era frequentada pela elite intelectual da cidade era outra parada obrigatória. "Eu ia lá para tomar um guaraná e ver os intelectuais", recorda. Também aproveitava dias ensolarados na praia da Boca do Rio ou na Pituba. Quando a família inteira ia, a farra ganhava outras proporções. "Meu pai tinha um caminhão e levava todo mundo da vizinhança que queria ir à praia".>
Enquanto se aventurava em desbravar a cidade com a curiosidade adolescente, uma mudança ocorreria na sua vida. Deixaria para trás a Chácara Viva Deus e iria com a família para outra propriedade. Dessa vez, no número 219 da mesma rua. Dez anos antes, o pai havia comprado dois terrenos e construiria em um deles. "Meu pai arborizou todo, então era tudo muito na parecido com o anterior. Só não vieram as vacas. Por isso, eu não senti falta nenhuma da outra". >
O segundo terreno foi vendido na década de 60 para o visionário Mamede Paes Mendonça e, tempos depois, passaria a abrigar um Paes Mendonça, o primeiro grande supermercado do bairro. Já nos anos 90, Augusto seria proprietário de uma das primeiras farmácias de Pernambués, a Vera Cruz. Isso, depois de ter rodado a Bahia trabalhando para uma grande farmacêutica. Podia até ficar longe de casa, mas sabia sempre pra onde voltar.>
Casou em 1973, mas continuou morando com os pais até 1976, enquanto aguardava a casa que erguia no terreno da família ficar pronta. Sairia de debaixo do mesmo teto, mas continuaria ali no terreno que foi palco de tantas histórias. É que a ligação com o bairro é tanta que, até na hora de casar, Pernambués entrou na história. "Eu tinha preguiça de ter que pegar ônibus para namorar meninas de outros bairros", conta, com graça. >
Foi aos 17 anos, numa fila do terminal de ônibus da Barroquinha, à espera da condução para casa, que ele começou a paquerar Maria Celia, de 15 anos. Ele, aluno do Colégio Central, enquanto ela era do Instituto Central de Educação Isaías Alves (Iceia). Embora fosse de São Gonçalo dos Campos, assim como Augusto, Maria Célia também morava em Pernambués. Depois de oito anos de namoro veio o casamento. De lá para cá, totalizam 52 anos como marido e mulher.>
Ao circular pelas ruas dessa Pernambués do presente, Augusto já não encontra mais muitos marcos da sua história. O terreno da primeira chácara onde morou, por exemplo, deu vida ao Condomínio Villa Tropical. Ao passar pelo número 58 da Thomaz Gonzaga, a única peça do passado que permanece ali é uma mangueira. O resto da paisagem foi alterado. >
"Eu senti as transformações do bairro ao longo dos anos. Pra mim, o progresso atrapalhou muito. A gente tinha muito mais liberdade, não tinha violência, não tinha nada. Depois do asfalto, tudo começou a crescer. Há muito tempo que não saio mais a noite". O bairro desenvolveu e ficou violento. A tranquilidade de outrora deu lugar a um território impactado pela disputa do tráfico e os tiroteios frequentes. Mesmo assim, paralelo a isso surgia outro cenário, o boom da valorização imobiliária. "Está tudo muito caro, há quatro terrenos grandes à venda há um bom tempo e ninguém comprou ainda". >
Quando vai para o miolo da cidade e vê o que virou aquela região do Shopping da Bahia, impossível Augusto não lembrar de quando ficava da casa de um vizinho amigo contemplando aquela construção gigante que era erguida em um terreno que antes especulavam que seria construído um campo do Bahia. A inauguração do Shopping Iguatemi, em 1975, foi um acontecimento que causou um rebuliço na cidade. Todo mundo queria conhecer aquele grande centro comercial, inclusive Augusto. "Foi a primeira vez que andei de escada rolante na minha vida. Lembro que minha mulher estava grávida e não queria subir na escada rolante".>
Em quase oito décadas de vida, Augusto viu a Thomaz Gonzaga testemunhar segredos, incontáveis alegrias, mas também muitas lágrimas. A rua que foi casa e colo também foi palco de duas tragédias familiares. Lá, perdeu o coração da família, a sua sustentação. Primeiro foi o pai, que morreu após ser atropelado, perto de casa, por um motorista embriagado no dia 1º de janeiro de 1979. >
A dor ainda pulsava forte, quando, 13 anos depois, a tragédia se repetiria praticamente no mesmo lugar. Dessa vez, a mãe, a tia e uma prima foram atropeladas por um motorista de uma kombi embriagado. Mais de 30 anos depois, Augusto ainda evita falar sobre o assunto. É que remexer nessa página da sua história ainda dói. É como se a ferida nunca tivesse cicatrizado. >
Mas, nem mesmo as tragédias familiares foram capazes de tirá-lo dali. 'Em nenhum momento pensei em sair, mesmo depois dos acidentes". É como se o sentimento de pertencimento e identidade falassem mais alto. É como se seus pais tivessem fincado suas raízes ali e, permanecer, fosse uma forma não só preservar uma história, mas de dar continuidade a ela. E ela se repete. Augusto e Maria Célia tiveram duas filhas. Ambas permanecem lá.>
O projeto Aniversário de Salvador é uma realização do Jornal Correio, com patrocínio do Salvador Bahia Airport, apoio institucional da Prefeitura Municipal de Salvador e apoio do Salvador Shopping.>