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Conheça a história da igreja de Salvador onde aconteceu o 'estalo' que transformou Antônio Vieira em grande líder religioso

Com mais de 300 anos, Igreja da Sé foi demolida em 1933 para a passagem dos bondes

  • Foto do(a) author(a) Amanda Palma
  • Foto do(a) author(a)  Arthur Max
  • Amanda Palma

  • Arthur Max

Publicado em 29 de março de 2026 às 12:00

Igreja da Sé e Padre Antônio Vieira
Igreja da Sé e Padre Antônio Vieira Crédito: IPAC e Reprodução

Há 100 anos, onde hoje fica a Praça da Sé, uma igreja suntuosa vivia seus últimos anos de glória e poder. A Igreja da Sé, a primacial do Brasil, ocupava quase todo espaço onde hoje fica a praça até chegar o frontispício, entre o Museu da Misericórdia e o Palácio Arquiepiscopal. Mas a igreja foi demolida em 1933, para passagem dos bondes, e com essa demolição, uma história sobre o Padre Antônio Vieira quase ficou esquecida.

Foi nesta igreja que ele viveu um “estalo” na mente. A história foi registrada com bom humor por Jorge Amado, no livro Guia de Ruas e Mistérios, que teve a primeira versão publicada em 1938: “ Ali, naquela igreja negra, se dera o estalo do menino tapado que virou o padre mais inteligente do seu tempo. Quem não conhece essa história?”.

Mas ela também foi contada pelo professor Manuel Mesquita, no livro A Sé Primacial do Brasil, publicado no ano da demolição da igreja, reforçando que o milagre realmente aconteceu - ou pelo menos o boato ficou registrado em livro histórico. O CORREIO teve acesso a uma das raras edições do livro. Mesquita narra que, ao chegar a Salvador, Vieira, ainda menino, foi para o Colégio dos Jesuítas. Mas tinha uma dificuldade grande de aprendizado. Não acompanhava a turma e ninguém botava fé - apesar de ser um lugar religioso - que ele era capaz de se tornar um grande líder. Ele era considerado pelos colegas como medíocre e sem vocação intelectual, diz Mesquita.

Escadaria e entrada principal da Sé por Coleção Rafael Dantas

Infeliz com a sua condição intelectual, quando passava pela catedral, antes de chegar ao colégio, o padre rezava e pedia para a Virgem das Sete Maravilhas - uma das santas mais importantes da época - que lhe ajudasse a ser mais inteligente. Então, um dia aconteceu o tal “estalo” na mente do jovem.

O professor Manuel Mesquita conta que durante as orações, o jovem Vieira “sentiu com ardor como que estalar qualquer cousa no cérebro, com uma dor vivíssima, pensou que morria, logo o que parecia obscuro e inacessível à memória na lição que ia dar, se lhe volveu lúcido e dizo na retentiva. Dera-se-lhe na mente uma transformação de que tinha consciência”, narra Mesquita.

Vieira já chegou ao Colégio dos Jesuítas transformado. Pediu para argumentar na classe e surpreendeu a todos com seu novo dom de argumentar. Seus sermões tornaram-se um marco lá mesmo no púlpito da Sé. Ele usava sua voz para defender as minorias e seus sermões ficaram amplamente conhecidos.

Confira a história completa da Igreja da Sé no vídeo abaixo:

A derrubada da Sé

Sem a Sé, a história de Vieira acabou se perdendo na memória da cidade. Talvez seja difícil imaginar que uma igreja tão grande tenha sido derrubada para a passagem dos bondes. Jorge Amado a descreveu como: “Enorme, de pedras colossais, negra, pesada, magnífica. Sem dúvida era o monumento histórico mais importante da cidade”. Ao lado da igreja havia um parque que servia de lazer. Tinha boemia, encontros amorosos às escondidas e até luta de boxe.

De frente para o mar da Baía de Todos-os-Santos, a igreja era o símbolo dos poderes políticos e religiosos da chamada América Portuguesa. Além de sua importância histórica, Jorge Amado a relembrou como “um dos orgulhos. Talvez o maior. Um historiador acadêmico disse, certa vez, que naquele templo até o bolor era histórico”.

O historiador Rafael Dantas reforça que a igreja, fundada em 1552, passou por diversas transformações ao longo do tempo. “A antiga Sé da Bahia acompanhou todas as transformações políticas arquitetônicas da cidade do Salvador ao longo do tempo. É uma construção que surge junto com a fundação da então Fortaleza do Salvador no século XVI. Nesse perímetro primeiro, inserida na primeira cumeada, logo próximo da então Praça Municipal, praça essa que concentrava os poderes políticos daquela época e também as construções religiosas de maior destaque”, explica.

A catedral era suntuosa. O CORREIO teve acesso a imagens de um outro livro raro, publicado em 1928, com fotografias de como era o interior do santuário antes da derrubada. Elementos de ouro e prata, capelas, diversos santos e estrutura de jacarandá compunham o cenário. O auge da igreja aconteceu entre os séculos XVII e XVIII.

“Sua fachada imponente, tão importante, voltada para a Baía de Todos-os-Santos, se destacava naquele contexto como a maior construção, a mais alta de um perímetro a outro, inclusive mais alta que a nossa Catedral Basílica do Salvador, com detalhes imponentes, uma arquitetura bem peculiar, bem característica característica e que se destacava nesse paredão com restos de verdes e os casarios ainda pintados de cal branco, como a própria Santa Casa de Misericórdia, atual Museu da Misericórdia e outras construções”, detalha Dantas.

A igreja imponente, com rebuscados detalhes arquitetônicos, também precisou se adaptar ao terreno instável da encosta da Cidade Alta e acabou perdendo elementos importantes da fachada. O professor Manuel Mesquita relembra que em 1716, um desabamento matou um homem e derrubou uma casa. Causando a primeira tragédia da instabilidade do solo. As duas torres foram então retiradas para reduzir o impacto daquela imensa igreja no solo.

Os anos passavam mas as polêmicas envolvendo a estrutura da igreja continuaram até a chegada dos bondes. Jorge Amado relembra que de vez em quando “umas pedras rolavam sobre os bondes que faziam a curva ao redor da Igreja” e algumas pessoas ficavam feridas. Assim, o santuário passou a ser uma pedra - na verdade, várias - no caminho dos bondes, que eram o símbolo da modernidade nos anos 1930. Por isso, a empresa inglesa Companhia Linha Circular, que administrava este tipo de transporte, queria demolir a Sé.

A empresa fez uma grande campanha para conseguir convencer a Igreja de que era necessário derrubá-la para o progresso passar. A Igreja “tão baiana”, como dizia Jorge Amado, tinha o apego do povo, mas a empresa usava os jornais da época para dizer até que ela estava abandonada.

A Circular venceu e conseguiu convencer o arcebispo Augusto Álvaro da Silva, que foi ao Vaticano e conseguiu a autorização para demolir a Antiga Sé da Bahia. Em 1933, a igreja veio abaixo para o progresso chegar. Sem uma política de preservação do patrimônio - o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) só foi criado em 1937 - não houve cuidado com a demolição. Estruturas históricas, como as portas imponentes e os ossuários, ficaram espalhados pelas ruas da cidade.

“A Sé foi dilapidada, destruída e demolida. Uma cena catastrófica. Uma loucura que se fez com o nosso patrimônio”, observa Dantas. Algumas partes da Sé atualmente compõem a capela que fica no Instituto Feminino da Bahia, no Politeama.

Após a demolição da Sé, que já tinha mais de 300 anos, os bondes circularam por mais apenas 30 anos. O largo da Sé então virou um terminal de ônibus. Hoje, quem passa pela Sé pode ver o busto de Dom Pedro Sardinha, o primeiro arcebispo do Brasil, exatamente onde ficava o altar-mor da igreja. Lá também estão preservados achados arqueológicos da antiga estrutura, e o monumento da Cruz Caída, construído pelo artista plástico Mario Cravo Junior, em 1999. E as lembranças da Antiga Sé ficaram apenas nos livros de história.

O projeto Aniversário de Salvador é uma realização do Jornal Correio, com patrocínio do Salvador Bahia Airport, apoio institucional da Prefeitura Municipal de Salvador e apoio do Salvador Shopping.