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Jorge Gauthier
Publicado em 28 de março de 2026 às 08:00
A pequena Cici não queria comer, só vivia com dor de cabeça e cansada. Aos 7 anos, foi desenganada pela medicina. "Devolva o dinheiro da consulta para a mãe dela que ela vai precisar para enterrar a filha", disse um famoso médico e médium da cidade, em 1961. No candomblé, através da fé da sua mãe, achou a salvação e uma vocação que lhe acompanharia até os dias de hoje. >
"Fui curada e estou aqui até hoje viva e com saúde desafiando a medicina e vendendo acarajé. Com 7 anos de idade, eu tinha que fazer as obrigações do meu orixá e tive que começar a vender", relembra Jaciara Sacramento Souza, a baiana Cici de Amaralina, hoje com 72 anos. São 65 anos de dedicação, dendê e muitas histórias para contar. Registros da Associação Nacional das Baianas de Acarajé, Mingau, Receptivo e Similares (Abam), apontam que Cici é uma das baianas mais longevas no ofício em Salvador. Inclusive, ela fez parte do grupo de profissionais que começou a colocar caruru e salada dentro do acarajé. >
Cici, acarajé e amaralina
"Os tempos eram outros e, depois que eu fui curada, fiz santo [ritual de iniciação na religião]. A questão é que eu precisava depois de seis meses fazer uma obrigação [cerimônia] para meu orixá, mas eu só poderia fazer isso com o meu dinheiro. Como eu era muito pequena minha avó de criação [mãe de santo Maria de Katendê, do terreiro Katê Espero, na Federação] me botou para vender no ponto dela em Amaralina", recorda Cici do tempo em que o acarajé era frito em panelas de barro. >
A avó dividiu o tabuleiro: metade de acarajé e metade de abará. Fritou tudo e deixou a pequena Cici vendendo. Horas depois, vieram buscá-la. O tabuleiro estava vazio com tudo vendido. A partir desse dia Cici passou a vender o acarajé em dias alternados ou quando alguém da família precisava de ajuda. Fez uma pausa quando sua mãe, Antonieta Sacramento, teve outros 3 filhos e precisou de reforço em casa para tomar conta das crianças. Antonieta, que também era baiana de acarajé, assim como sua irmã e outras mulheres da família, queria outro destino para Cici. >
"Minha mãe queria que eu estudasse porque ela não via futuro como baiana de acarajé. Hoje, você pode até se aposentar como baiana, mas naquela época o preconceito era muito grande. Eu estudava no colégio de freira [antigo Nossa Senhor da Luz] e eu não dizia que eu era filha de baiana de acarajé. Tinha medo e vergonha", rememora Cici, que chegava a levar acarajé escondido para a escola para trocar por quebra-queixo que os colegas levavam. >
Para tentar fugir do destino da família, Cici chegou a trabalhar como balconista, empacotadora , mas nada deu certo. O tabuleiro sempre chamava de volta. Foi em 1976, quando descobriu que estava grávida, que resolveu abraçar a profissão de forma definitiva. "Eu comecei a trabalhar fixa e não parei mais. Eu estava grávida e ninguém queria me dar emprego. Aí minha mãe e minha avó me deram um dia no ponto delas aqui em Amaralina. Conversei com meu marido e ele permitiu porque eu sempre gostei de ter o meu dinheiro. Eu cuidava da minha filha e trabalhava vendendo acarajé só dia de segunda-feira. Com um dia de trabalho eu tirava um salário de um mês. O povo comia muito acarajé ", recorda a baiana que lamenta que o movimento nos últimos anos caiu muito especialmente depois da entrada das grandes redes de fast food. "Depois que o McDonald’s chegou tudo ficou difícil". >
Por trás do tabuleiro de Cici há muitas histórias que se confundem com a tradição da venda do acarajé em Salvador. Há cerca de 50 anos, por exemplo, foi quando o caruru foi colocado pela primeira vez comercialmente no acarajé. E Cici estava lá. "Quando eu comecei a trabalhar aqui a gente não botava caruru no acarajé. Essa foi uma invenção nossa das baianas de Amaralina. Uma baiana chamada Nilda - que era minha comadre - tinha uns clientes que vinham comer comida baiana com ela. Um dia ela fez uma grande quantidade mas veio pouca gente e sobrou caruru. Aí falamos para colocar no acarajé para provar. Os clientes que estavam perto começaram a pedir também", recorda Cici que reforça que na época a adição do caruru não foi unanimidade. Sua mãe, por exemplo, escondia o caruru no tabuleiro. >
"Minha mãe não botava de jeito nenhum. Ela botava uma bandeja de acarajé e colocava em cima. Tinha muita resistência, mas um dia chegaram 9 clientes e me perguntaram se tinha caruru. Eu não tinha. Perdi os clientes e depois desse dia sempre tenho caruru. >
Atualmente, há muita controvérsia com relação ao caruru no acarajé. Muitas baianas deixaram de vender dizendo que estão proibidas. Coordenadora da Associação Nacional das Baianas de Acarajé, Mingau, Receptivo e Similares (Abam), Rita Santos, reforça que a decisão de vender ou não o acarajé com caruru é de cada baiana. "Não há nenhuma proibição de nenhum órgão", explica Rita.>
Cici acredita que a razão está no bolso. "Com caruru ou sem é o mesmo preço. Fizemos um curso na Abam uns anos atrás e na planilha de custos ficou provado que o caruru é prejuízo. Por isso muitas não vendem, mas eu faço questão de ter. Eu respeito a tradição">
A mesma coisa aconteceu cerca de 10 anos depois com a adição da salada. "Era acompanhamento do peixe e da passarinha (baço de boi). Quando acabou o pescado alguns clientes começaram a pedir para colocar um pouco de salada", explica a coordenadora da Abam.>
Inclusive, caro (a) leitor (a), a salada é o grande diferencial do acarajé de Cici, que é delicioso. Tomate maduro, cebola roxa, coentro e um molho secreto. "A salada não fazia parte do acarajé. Hoje, minha salada é meu grande diferencial. Tem gente que pede para comer só o acarajé com a salada de tão boa que é". Eu garanto: é boa mesmo! >
A receita que Cici usa é quase a mesma há mais de 65 anos - e vem de sua geração de antepassadas. "A minha receita continua sendo a mesma. Uma coisa que eu acrescentei na de minha mãe foi que ela não usava castanha de caju. E também no meu vatapá eu não coloco leite de coco. No meu vatapá eu uso feijão fradinho e farinha de trigo. É um sabor do jeito que só eu faço", garante. E é bom mesmo! >
Diferente do que muitas baianas fazem atualmente, Cici prepara a própria massa do acarajé. Ela não usa a massa pronta (que é vendida em feiras). "Eu continuo trabalhando com feijão lavado. Eu lavo o meu feijão e passo no ralo. Não trabalho com massa pronta. Quando eu comecei, eu passava feijão na pedra. Tem outro sabor", defende.>
Religiosa, Cici deixou o candomblé em 1998 depois que sua mãe de santo faleceu. "Quando ela morreu eu jurei que não ia mais em candomblé nenhum. Ela me ensinou tudo mas eu não queria ser mãe de santo. Mas nunca deixei de seguir a minha fé. Sempre fui católica, como minha mãe de santo também era. Levava o andor dos santos nas procissões. Hoje eu sou só católica e faço parte do grupo de oração", pontua Cici que não deixa de usar suas contas e guias de seus orixás. >
Mas, como diz o ditado, uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa: "Sou filha de Xangô. Criada por Oxum, feita por Xangô e raspada por Oxossi. Mas sou católica e muito devota de São José e de Santa Dulce e ainda tenho o orgulho de ter minhas duas filhas - Jacilene e Juciene Sacramento - como missionárias da Comunidade Católica Shalom", inclusive regularmente Cici visita as filhas e leva mais de 60kg de insumos para fazer acarajé para os católicos. >
As filhas são fruto do amor de Cici e Porcino de Souza. Em julho deste ano, fazem 50 anos de casados, sempre morando no bairro de Amaralina. Já são 55 juntos com muito acarajé e pimenta para temperar o relacionamento que começou de uma grande amizade. "Ele nasceu em Salvador, mas com uns 7 anos foi morar no Rio de Janeiro com a mãe. Quando ele voltou, aos 18 anos, a gente se tornou grandes amigos. Minha mãe só confiava nele. Ele me levava para namorar com outro. Quando eu mandei o outro pastar a gente se aproximou e estamos juntos até hoje". >
Cici trabalha duas vezes na semana em seu ponto no Largo das Baianas, em Amaralina. Com 72 anos, ela já pensou em parar, mas lidar com o acarajé é mais do que um trabalho. "Eu fiquei doente um tempo atrás e passei seis meses sem trabalhar. Fiquei com depressão e síndrome do pânico. Fazer e vender acarajé aqui é importante para cuidar da minha saúde mental", reflete a baiana.>
A coordenadora da Abam afirma que há em torno de 8 mil baianas ligadas à associação registradas no Brasil, a maioria na Bahia. "É um ofício que tem, hoje, uma rotatividade muito grande. Muitas pessoas resolvem vender acarajé por não ter outra opção. É um trabalho árduo e sacrificado. Mesmo como todas as tecnologias ainda é artesanal. Temos muitas baianas idosas já depois dos 60 anos ainda em atividade. É uma questão de autoestima para muitas dessas mulheres também poderem se sentir ativas", explica Rita.>
O primeiro abrigo [ponto de vendas fixo ordenado] de baianas de acarajé em Salvador foi instalado em 1954 no Farol da Barra. Na época foi chamado de Abrigo da Preta do Acarajé. Segundo o professor da Universidade Federal da Bahia (Ufba) e doutor em antropologia, Vilson Caetano, na época, ele teve o objetivo - segundo as autoridades do período - de tornar o comércio de acarajé "mais higiênico".>
"Em 1965, a prefeitura e a superintendência de turismo fizeram um convênio que dividia a cidade em sete zonas, e aí incluindo pontos fixos para essas baianas. A justificativa era para que o trânsito, imagine, fluísse melhor. E com essa justificativa nós temos a criação de outros espaços que, durante muito tempo, foram cartão postal de Salvador. A criação desses pontos, na verdade, era uma espécie de desterritorialização dessas mulheres. Ou de algumas mulheres que já tinham os seus pontos estabelecidos em algumas esquinas de Salvador, a partir de um determinado tempo", explica o professor.>
Foi exatamente o que ocorreu com Cici e seus familiares. "Minha avó e minha mãe já vendiam acarajé aqui em Amaralina desde antes de 1965. Acreditamos que esse ponto está com ocupação de baianas há mais de 80 anos porque era o relato que eu ouvia delas. Aqui em Amaralina foi o primeiro ponto de grande concentração de baianas de acarajé de Salvador. Chegamos a ter aqui 38 mulheres vendendo acarajé ao mesmo tempo. Depois, isso foi crescendo para outros cantos da cidade", relembra Cici que destaca a força dessas mulheres: ‘Brigamos e lutamos muito para termos o nosso espaço para vender nosso acarajé". >
A história do acarajé com Salvador começa bem antes disso, como explica o professor Vilson. A comida típica chegou ao Brasil através dos africanos escravizados e passou por um processo de transformações e adaptações à realidade local para chegar ao acarajé que consumimos atualmente. >
"Na Nigéria, onde o acarajé surgiu, ele chama-se akara, e a receita é a mesma. É um bolinho de feijão fradinho, com cebola e pimenta frita no azeite de dendê. Então, ele chegou aqui pra gente e assim, com o passar do tempo, na Nigéria, a maioria dos acarajés começaram a ser fritos no azeite de oliva por conta do processo de demonização do azeite de dendê. A principal diferença é que os nossos acarajés cresceram. Eles ficaram do tamanho de um hambúrguer. E isso foi feito a partir dos anos 80, pra poder concorrer com alguns fast foods que chegaram aqui no Brasil", pontua o professor. Os akarás africanos são menores (cerca de 5 cm), parecidos com as porções que se servem nas praias. >
Para o antropólogo, o processo de lembrando que a aglutinação das baianas pela cidade tinha o objetivo de controlar a expansão delas. Cici recorda-se que havia muita briga e conflitos pelos melhores pontos no auge da comercialização dos produtos. >
"Muita coisa mudou. O meu medo é saber que minha história não vai continuar na minha família. O acarajé ainda terá muitos anos pela frente, mas aqui no meu ponto talvez não. Minhas filhas são missionárias do Shalom e já falaram que não têm interesse em continuar com o ponto que está com a nossa família há 80 anos. Minha história vai ficar por aqui, mas o importante é que estarei aqui até o fim", reflete Cici que não abre mão de todos os dias de trabalho comer dois acarajés (tamanho pequeno) e também não abre mão de provar seu doce de caju, que ela faz pouco justamente porque de tão gostoso quase não sobra nada para vender.>
Vai lá! >
Baiana Cici >
Largo das Baianas de Amaralina >
Quartas e domingos a partir de 10h>
O que tem no tabuleiro: acarajé completo com camarão (R$15), acarajé completo sem camarão (R$14), cocadas (a partir de R$ 10), doces (a partir de R$ 10) e bolinho de estudante (R$7)>
O projeto Aniversário de Salvador é uma realização do Jornal Correio, com patrocínio do Salvador Bahia Airport, apoio institucional da Prefeitura Municipal de Salvador e apoio do Salvador Shopping.>