Acesse sua conta
Ainda não é assinante?
Ao continuar, você concorda com a nossa Política de Privacidade
ou
Entre com o Google
Alterar senha
Preencha os campos abaixo, e clique em "Confirma alteração" para confirmar a mudança.
Recuperar senha
Preencha o campo abaixo com seu email.

Já tem uma conta? Entre
Alterar senha
Preencha os campos abaixo, e clique em "Confirma alteração" para confirmar a mudança.
Dados não encontrados!
Você ainda não é nosso assinante!
Mas é facil resolver isso, clique abaixo e veja como fazer parte da comunidade Correio *
ASSINE

Matota e Marata: seita matou 8 crianças em ritual de sacrifício em praia de Salvador

Crianças foram jogadas no mar em um sacrifício religioso na praia de Stella Maris, em 1977

  • Foto do(a) author(a) Wladmir Pinheiro
  • Wladmir Pinheiro

Publicado em 28 de março de 2026 às 07:00

Caso Matota e Marata: sacrifício religioso levou à morte de oito crianças em praia de Salvador
Casal Matota e Marata: oito crianças foram lançadas ao mar na praia de Stella Maris, em Salvador; crianças eram filhas e netas de integrantes da seita Crédito: Reprodução/Revista Manchete

Na noite de 30 de abril de 1977, um grupo de 21 pessoas - homens, mulheres, idosos e crianças - marchou em silêncio pelas dunas de Stella Maris. Os membros da seita Universal Assembleia dos Santos deixaram o acampamento nas dunas da Lagoa do Abaeté, onde haviam passado os últimos 45 dias, e seguiram em direção à praia. Caminharam por uma hora na escuridão até que o profeta Matota apontou para o lugar indicado em uma de suas visões. O mar estava agitado, e as ondas quebravam com violência na praia.

Marata, a esposa do profeta, entrou na água por volta das 22h. Ela ergueu o queixo magro e estendeu as mãos calosas em direção à areia. Uma mulher lhe entregou a filha de dois anos no colo. Marata virou-se para o mar e avançou com dificuldade. Sem hesitar, afundou a menina na água. A criança se debateu até perder a força. O corpo da menina relaxou, já sem vida, e foi lançado às ondas.

Foi a vez de Matota pegar um menino de dois anos, filho de outro casal da seita. Andou com ele em direção ao mar e lançou no ar a criança, que sequer despertou. Quando caiu na água, o garoto, ainda pequeno, afundou de imediato.

Maria Nilza e José Maurino, Marata e Matota por Reprodução/Revista Manchete

Na areia, os pais aguardavam em silêncio o momento em que o casal de profetas tomaria os filhos deles no colo. O ritual se repetiria outras cinco vezes, até que Matota voltou-se para José Carlos, a última e mais velha daquelas oito crianças, entre 7 meses e 8 anos, que seriam mortas em sacrifício naquela noite.

Ele ergueu o menino e o levou nos braços. O corpo rechonchudo do garoto afundou em pouco tempo assim que foi jogado no mar. Muito ágil, o menino se debateu e provocou um estardalhaço na água ao tentar voltar à margem. Trazido pelas ondas, Matota pediu que outros dois membros da seita o ajudassem a manter o garoto submerso. Lançaram-no diversas vezes, até que o corpo do menino finalmente desapareceu no oceano.

O encontro sagrado

José Maurino de Carvalho tinha 27 anos quando conheceu Maria Nilza Pessoa em uma igreja evangélica, em 1975. Ele, que morava em Salvador, havia ido até Feira de Santana para vender telas para aparelhos de televisão. Nilza, que tinha 20, também estava de passagem e visitava amigos da igreja. Morava em Barra, povoado do município de Mundo Novo, na região Piemonte da Chapada Diamantina, mas já havia morado em Feira anos antes. Naquela tarde, os dois conversaram sobre a Bíblia, a fé e o que pensavam do mundo. A conexão foi imediata, e eles começaram a namorar através de cartas.

Como vendedor, José Maurino andava por todo o centro de Salvador, cidade que o acolhera após a chegada de Santo Antônio de Jesus. Até meados da década de 1970, Salvador crescia rapidamente e alcançava a marca de seu primeiro milhão de habitantes, grande parte vinda do interior do estado.

‘Salvador começa a se modernizar a partir desse período. Até 1950 e 1960, o centro urbano era muito restrito, ainda tinha aquele ar de interior, das pessoas se conhecerem pelas famílias. Quando abrem as avenidas de vale, Canela, Bonocô, Ogunjá, que Salvador começa a se tornar uma cidade grande. Antes, passou de Amaralina, praticamente não existia nada, a ocupação era muito dispersa’, relata Pablo Magalhães, professor da Universidade Federal do Oeste da Bahia (UFOB).

Logo depois do encontro com Nilza, ele teve a visão que mudaria a vida dos dois para sempre. Caminhava de volta para casa, no IAPI, quando viu um homem todo de branco, o rosto iluminado e sereno e teve certeza de que via Jesus Cristo. Chorou ao perceber que o rosto de Nilza surgiu após a imagem do homem desaparecer. Ali, teve a certeza da sacralidade do encontro.

Combinou com Nilza que os dois deveriam se casar. Obedeceriam apenas à vontade divina, e ela deveria vir até Salvador encontrá-lo. Consentido o pedido, Maurino a levou até o Monte das Oliveiras, lugar que ele escolheu entre as dunas da Lagoa do Abaeté. Deitaram-se e fizeram o que Deus havia mandado que seus filhos fizessem. O pecado original estava perdoado. Nesse momento, também como os apóstolos, mudaram de nome e deixaram de ser Maurino e Nilza para o mundo.

Havia chegado a hora de Matota e Marata viverem juntos e serem líderes do evangelho.

Caso Matota e Marata: sacrifício religioso levou à morte de oito crianças em praia de Salvador
Membros da seita Universal Assembleia dos Santos (em pé), seguidores de Matota e Marata (sentados) Crédito: Reprodução/Revista Manchete

A formação da seita

A vila da Barra tinha poucas casas de reboco descascado, três ou quatro ruas assimétricas, alguns botecos e armazéns, além de uma estação de trem. Por ali passava o chamado Trem da Grota, que só seria extinto em 1978. Três anos antes, quando o casal chegou ao povoado, a linha já sentia o reflexo do declínio do sistema ferroviário no Brasil, mas a Barra ainda mantinha certo prestígio de ser um entreposto.

‘Na década de 1970, essa região era isolada dos grandes centros, as estradas de rodagem eram muito ruins. Ainda existia o Trem da Grota, já em decadência, que trazia novidades, levava notícias, e a Barra era esse ponto de convergência, esse lugar importante para quem queria se deslocar na região’, conta o historiador e professor Rodrigo Lopes.

Matota e o sogro, seu Fidélis, nunca se entenderam bem no tempo que o genro morou por lá. O casamento improvisado e o proselitismo insistente não desceram bem ao pai de Marata. Aliás, Nilza, como ele fazia questão de continuar chamando a filha.

Caso Matota e Marata: sacrifício religioso levou à morte de oito crianças em praia de Salvador
Povoado de Barra, em Mundo Novo, na região da Chapada Diamantina Crédito: Reprodução/Revista Manchete

Os dois frequentavam a Igreja Pentecostal Assembleia de Deus, mas a concorrência com o pastor Agenor logo provocou a ruptura com a igreja do povoado e deixou Matota sem ovelhas. Foi Marata quem o levou até a Fazenda Havana pela primeira vez. Mais de 40 pessoas moravam nas terras do fazendeiro Valdomiro Brandão, o Seu Vavá.

Nesse meio tempo, Marata ficou grávida. No fim de novembro de 1976, nasceu Biulene. Se o velho Fidélis amoleceu, Matota ficou arrasado. Esperava que o primeiro filho fosse um menino. Assim, o nome dado pela mãe foi trocado para Morotó após o batismo conduzido pelo pai.

A convivência na mesma casa com o velho Fidélis ficou insustentável. Sob proteção de Godofredo, o casal e o pequeno Morotó foram morar na Fazenda Havana. Nos meses em que morou na fazenda, o novo pastor realizou batismos, deu nomes de apóstolos aos novos seguidores, desfez e refez casamentos.

‘A pobreza era muito forte, a região sofria muito com as migrações para São Paulo, para trabalhar nas usinas, quem ficava era para trabalhar na terra, na agricultura. Junto com a falta de instrução, ficava fácil a cooptação por religiões populares ou outras formas de manipulação, como o coronelismo’, alerta o historiador.

Antes da mudança para Salvador, Matota ordenou que rasgassem a Bíblia, assim como os antigos documentos, e alertou que o grupo deveria estar pronto para sair pelo mundo pregando o novo evangelho sob os novos nomes. O grupo juntou pouco mais de 18 mil cruzeiros. Chegaram a Salvador no dia 18 de março de 1977, e seguiram até as dunas do Abaeté. Tinham pão, água e a fé que os sustentariam no Monte das Oliveiras. Até a noite de 30 de abril.

Os achados dos corpos na praia

A catadora Geraldina do Espírito Santo saiu bem cedo, na manhã do feriado de 1º de maio, para caminhar pela praia de Ipitanga. O céu estava cinza, o mar arredio e ventava forte. A velha avistou ainda do alto o primeiro volume depositado na areia e, à distância, pensou que se tratava de material descartado que poderia vender no ferro-velho. Logo, percebeu que havia outros cinco daqueles grandes objetos na areia, afastados um do outro por algumas centenas de metros. Ao se aproximar, percebeu que do grande volume brotavam dois pequenos braços que terminavam em dedos igualmente pequenos e arroxeados. Correu pela praia e viu os outros quatro corpos. A praia virou, num instante, um amontoado de curiosos, jornalistas e carros de polícia.

O corpo da sexta criança apareceu dois dias depois, não muito longe dali. O pescador Clarindo do Nascimento foi quem o encontrou. No dia 4 de maio, quando o mesmo Clarindo jogou a tarrafa de pesca no local conhecido como Porto das Jangadas, na praia de Stella Maris, percebeu que os cachorros latiam e mordiam outros dois corpos na beira da água. Chamou a polícia. Naquele momento, o delegado Antônio Medrado, 39 anos, diretor da Divisão de Polícia da Capital, já sabia que não se tratava de um caso de afogamento acidental.

Dunas, abelhas tontas e o paradeiro da seita

O fazendeiro Valdomiro Brandão procurou a delegacia depois de ver no jornal a manchete do dia 2 de maio, ‘Mistério na morte de 5 crianças na praia de Ipitanga’, e desconfiar da ligação indireta com o caso. Contou que funcionários da fazenda que tinha em Mundo Novo haviam abandonado as terras para seguir um casal de profetas que moravam em um areal.

Soube disso por um ex-funcionário de 17 anos que abandonou o grupo e voltou para a Barra, onde relatou as ameaças do profeta e contou que via diariamente “abelhas metálicas” no céu. Seu Vavá morava em Salvador, pouco ia à fazenda e deixava a gestão da fazenda com o filho. O velho suspeitou que as tais abelhas eram os aviões que decolavam do aeroporto.

A denúncia deu início à caçada pelo grupo no parque do Abaeté e nas dunas de Itapuã. Eles foram encontrados na manhã de 3 de maio, sujos e maltrapilhos. Matota, tratado com temor e respeito pelos demais, carregava no colo o bebê Morotó. Vivo.

O grupo foi levado para o prédio da Secretaria de Segurança Pública, na rua Direita da Piedade, onde prestaram os primeiros depoimentos. Multidões, armadas com paus e pedras, cercavam os carros que levavam os integrantes do grupo. ‘Monstro, por que não matou seu filho?’, gritou uma testemunha na saída do IML. Jornalistas de toda parte do Brasil, entre eles o experiente repórter Joel Silveira, da Revista Manchete, viajaram para Salvador para cobrir o caso, que a essa altura alcançava repercussão nacional.

Caso Matota e Marata: sacrifício religioso levou à morte de oito crianças em praia de Salvador
Corpos de crianças mortas em sacrifício religioso foram enterrados no Cemitério Quinta dos Lázaros Crédito: Reprodução/Revista Manchete

‘Houve no Nordeste, no interior da Bahia, alguns casos de sebastianismo, movimentos messiânicos, em que há relatos do sacrifício de crianças. Teve um desses em Morro do Chapéu [a 100 km de Mundo Novo], onde há relatos de que foram encontradas ossadas de crianças em uma gruta e descobriu-se que havia uma seita na região’, relembra o historiador Rodrigo Lopes.

O sebastianismo surgiu com a crença de que o rei português Dom Sebastião, morto em uma batalha em 1578, retornaria para restaurar a grandeza de Portugal. O mito foi trazido séculos depois para o Nordeste pelos colonizadores, estimulou o surgimento de profetas que espalharam no imaginário a volta redentora do messias e até casos de sacrifícios humanos.

Acuados e condenados

Os membros do grupo não negaram a participação nas mortes, mas puseram nas mãos do pastor Matota e de sua esposa Marata a responsabilidade por guiá-los até ali. Os extensos e duros interrogatórios minaram a união da seita e a liderança de Matota, a essa altura já abatido. Na delegacia, chegou a ser ameaçado por outros presos.

‘A gente lá no mato, ele chegou com isso e a gente se influenciou’, contou Maria da Paz, que entregou dois filhos para sacrifício nas mãos do pastor, em depoimento ao delegado. ‘Dizia ele que nós ficaríamos loucos, cegos ou doentes. Nossas crianças eram espancadas e castigadas com a fome e nós fomos obrigados a ficar na chuva porque ele dizia que era Deus’, disse.

As oito crianças foram enterradas no Cemitério da Quinta dos Lázaros. A pequena Morotó, abrigada no Juizado de Menores, foi levada pelo irmão de Nilza até os avós. Considerados meros espectadores da tragédia, a maioria das mulheres, junto com o velho José Catarino, foram levados pela polícia de volta para o povoado de Barra. José Silveira escreveu na Revista Manchete que ‘a lei não encontrou em toda a sua parafernália de penalidades, nem mesmo em suas armadilhas mais sutis, um só artigo no qual o atarantado ancião pudesse ser enquadrado’.

As palavras do psiquiatra Hamilton Meira, mais de 20 anos depois, resumem o entendimento dos médicos à época. ‘Não era loucura. Era uma crença. Não existia a perda da realidade, no sentido psiquiátrico do fenômeno da alteração de personalidade, um quadro que tivesse conduzido aquelas pessoas a aquele discurso. Era uma coisa mais voltada para as circunstâncias da religião, da crença religiosa. O que você vê em Matota você vê aí em outras personalidades religiosas’, concluiu.

Matota e Marata foram levados para a Casa de Detenção no dia 22 de agosto de 1977 e depois transferidos para o Manicômio Judiciário, como era chamado o Hospital de Custódia e Tratamento (HCT), destino de todos os outros cinco integrantes da seita que enfrentaram alguma punição da Justiça: Floraci, batizada como Ana, Dario de Jesus, o Daniel, Pedro dos Santos, o Fanuel, Godofredo, o Josué, e Janilton, o Arão.

Menos de um ano depois, na tarde de 4 de julho de 1978, Floraci morreu no Hospital Getúlio Vargas, em Salvador, vítima de uma broncopneumonia. Os outros acabaram soltos porque, segundo os psicólogos avaliaram, na época dos crimes eles não eram capazes de entender o caráter criminoso do que praticavam.

Nos oito anos em que permaneceram no Manicômio Judiciário, Matota e Marata ficaram em alas diferentes do imenso prédio antigo na Baixa do Fiscal. Mas sempre davam um jeito de se encontrar, e para isso precisavam pedir autorização especial. Matota trabalhou no refeitório dos funcionários, enquanto, Marata foi ajudante do dentista que atendia aos internos.

Contava o mês de setembro de 1985 quando Matota e Marata cruzaram juntos o portão do Manicômio Judiciário. Livres.

O projeto Aniversário de Salvador é uma realização do Jornal Correio, com patrocínio do Salvador Bahia Airport, apoio institucional da Prefeitura Municipal de Salvador e apoio do Salvador Shopping