Acesse sua conta
Ainda não é assinante?
Ao continuar, você concorda com a nossa Política de Privacidade
ou
Entre com o Google
Alterar senha
Preencha os campos abaixo, e clique em "Confirma alteração" para confirmar a mudança.
Recuperar senha
Preencha o campo abaixo com seu email.

Já tem uma conta? Entre
Alterar senha
Preencha os campos abaixo, e clique em "Confirma alteração" para confirmar a mudança.
Dados não encontrados!
Você ainda não é nosso assinante!
Mas é facil resolver isso, clique abaixo e veja como fazer parte da comunidade Correio *
ASSINE

Por que Salvador faz aniversário em 29 de março? Entenda como a data foi escolhida

Sem registro oficial por séculos, Salvador teve o 'b-day' definido em acordo entre intelectuais

  • Foto do(a) author(a) Mariana Rios
  • Mariana Rios

Publicado em 29 de março de 2026 às 04:00

O desfile começou com um grande carro alegórico representando as naus portuguesas da frota de Tomé de Souza, simbolizando a fundação da cidade em 1549
O desfile começou com um grande carro alegórico representando as naus portuguesas da frota de Tomé de Souza, simbolizando a fundação da cidade em 1549 Crédito: Museu Tempostal

Aniversário a gente não escolhe. Mas quem nasce no fim do ano — perto do Natal ou do Ano-Novo — costuma fantasiar, quando criança, em mudar de data: a festa vira reunião de família e os amigos ficam de fora. Salvador vive o oposto. Como não há registro do dia exato em que a cidade nasceu, o aniversário precisou ser escolhido depois. Em 1949, às vésperas das comemorações dos 400 anos, historiadores e intelectuais decidiram adotar 29 de março, data da chegada de Tomé de Souza à Bahia.

O debate sobre o dia da fundação, na verdade, já vinha de muito antes. Desde pelo menos os anos 1920, historiadores discutiam qual seria a data correta e sugeriram dias variados, como 1º de novembro, 6 de agosto, 13 de junho, 20 de junho, 24 de junho e 30 de maio, baseados em interpretações de documentos históricos (veja boxe). A questão foi reaberta em 1940 pelo historiador Pedro Calmon que, com a proximidade das comemorações dos 400 anos, defendeu a necessidade de se firmar a data de fundação da “primeira capital cidade da América portuguesa e centro inicial da nacionalidade”.

“Tudo é invenção no final das contas. Episódios, cenas, eventos e mesmo atos administrativos são fabricados e investidos de significados e importância. Historiadores estão aí para problematizar esses momentos”, explica o historiador Alan Passos, que atualmente desenvolve pesquisa de doutorado em História na Universidade Federal da Bahia (Ufba) dedicada a trajetória biográfica e intelectual de Pedro Calmon e é professor do Colégio Militar de Salvador (CMS). Há cerca de dez anos, Alan defendeu dissertação de mestrado na Ufba na qual analisou a escolha do 29 de março.

Até meados do século 20, a cidade simplesmente não tinha uma data de aniversário consensualmente definida. “Até hoje, não se localizou – se é que de fato chegou a existir e sobreviveu arquivado em acervos institucionais – um documento que registre com precisão o dia exato de sua fundação”, explica Passos. “Diante dessa lacuna documental, optou-se pela adoção uma data simbólica, o 29 de março de 1549, correspondente ao desembarque de Tomé de Souza na região hoje conhecida como Porto da Barra. Tal escolha ancorava-se no fato de que uma de suas atribuições era precisamente fundar a cidade de Salvador, concebida como sede do Governo-Geral do Brasil”.

No entanto, como ressalta o historiador, a fundação de uma cidade não se confunde com o instante de chegada de seu agente fundador. “Isso desencadeou um intenso debate, deu uma polêmica danada, um quiprocó entre a intelectualidade de Salvador que se viam diante da necessidade de celebrar os 400 anos da cidade, em 1949, sem dispor de uma data factualmente inequívoca da fundação”, explica Passos.

A primeira festinha a gente nunca esquece: história da Bahia em espetáculo público em 1949 por Fotos: Museu Tempostal

Batalha de história

Como até a década de 1940 não se sabia, exatamente, e nem estava definido no calendário cívico municipal o dia do aniversário da cidade, não havia uma tradição comemorativa anual, como acontece com o Dois de Julho.

As discussões e o rito de instituição da data ocorreram durante a administração do prefeito Elísio Lisboa que tinha como meta fixar, oficialmente, uma data e orientar a organização das celebrações. Ao final, a data só foi realmente sancionada em 1952, na administração seguinte, de Osvaldo Velloso Gordilho.

O debate sobre o dia da fundação vinha de muito antes. Desde pelo menos os anos 1920, quando se propôs um projeto de lei para se estabelecer o 1º de novembro como data de fundação e aniversário de Salvador.

Para tentar resolver a questão, ainda em 1923 o Conselho Municipal chegou a formar uma comissão com historiadores como Teodoro Sampaio, Braz do Amaral e Bernardino de Souza. Mesmo assim, não houve consenso. Segundo o próprio debate da época, o problema era ‘simples’: não existia documentação capaz de comprovar o dia exato da instalação da cidade.

A decisão política

Com a aproximação dos 400 anos de Salvador, a discussão voltou à pauta nos anos 1940. Em janeiro de 1943, um mês após sua posse, Elísio Lisboa instituiu uma comissão preparatória do quarto centenário. A primeira demanda foi a exigência de se estabelecer o uso correto do nome da capital - corriqueiramente chamada de “Bahia”. Foi também nesse momento que se reavivou a polêmica sobre a data exata da fundação de Salvador.

O então prefeito Elísio Lisboa chegou a propor, em 1945, que a data oficial fosse 1º de maio de 1549, ideia que foi colocada em consulta pública e analisada por historiadores.

A proposta, porém, foi contestada. Em meio às críticas, jornais da época apontaram que, diante da falta de provas documentais sobre a fundação, o mais seguro seria usar um fato histórico comprovado: a chegada à Bahia da frota de Tomé de Souza, o primeiro governador-geral, em 1549. Essa chegada ocorreu em 29 de março - escolhido como símbolo do nascimento da cidade.

A data ligada ao desembarque de Tomé de Souza acabou sendo considerada a mais segura historicamente. “Depois de muita polêmica, o 29 de março foi instituído como data simbólica da fundação da cidade, permanecendo até os dias atuais”, diz Passos.

Em 29 de março de 1945 (dia simbólico da fundação da cidade), quando ninguém esperava, Lisboa pediu demissão do cargo de prefeito - mas só deixou o cargo em 28 de abril. Em seu lugar o interventor nomeou Aristides Milton Silveira que já exercia o cargo diretor de obras da prefeitura. Mas a data só foi sancionada em 1952, na administração seguinte, de Osvaldo Velloso Gordilho.

O aniversário que nasceu no século 20

Na prática, portanto, o aniversário de Salvador é uma construção recente. Mais do que uma curiosidade de calendário, o episódio mostra como a memória das cidades também é construída ao longo do tempo, em debates que misturam história, política e identidade.

O momento mais aguardado das comemorações do IV Centenário foi o “Cortejo dos Quatro Séculos”, um grande desfile histórico realizado na tarde de 29 de março de 1949, nas ruas do centro de Salvador. O cortejo reuniu mais de mil figurantes voluntários e contou com 12 carros alegóricos que representavam momentos da história da Bahia.

O desfile começou com um grande carro alegórico representando as naus portuguesas da frota de Tomé de Souza, simbolizando a fundação da cidade em 1549. “As imagens do desfile desse primeiro aniversário de 400 anos de Salvador até chegaram a circular na imprensa da época, mas ficaram pouco conhecidas depois. E mostram a encenação pública de uma certa versão da história do Brasil e da Bahia, focando no papel dos portugueses e na convivência das três raças na formação nacional”, afirma o historiador Daniel Rebouças, que enviou ao CORREIO as fotos de 1949.

“Outro aspecto interessante é notar a popularidade de determinados personagens históricos, como Catarina Paraguaçu, Castro Alves, saudados nas ruas. Na prática, são imagens que mostram ‘tradição inventada’ sendo criada, mas dialogando com universo cultural e de memória existente”, finaliza.

Nas comemorações dos 400 anos de Salvador, a ideia era aproveitar o marco para reafirmar Salvador como primeira capital do Brasil e “berço da nacionalidade” - e não Rio e São Paulo. Toda a epopeia em torno da data e das celebrações buscava projetar uma imagem de tradição e prestígio histórico.

Escultura modernista projetada pelo arquiteto Diógenes Rebouças e inaugurada em 1949 para marcar os 400 anos da cidade. O conjunto em pedra e bronze celebra a fundação de Salvador e a instalação do governo-geral do Brasil por Arisson Marinho

As possíveis datas para a festinha:

1º de Novembro Baseada na interpretação de relatos antigos sobre o período em que a cidade já estaria estruturada e funcionando administrativamente, organizada como sede do governo-geral.

6 de Novembro A sugestão partia da leitura de documentos coloniais e de cronologias do governo-geral, tentando relacionar o início efetivo da administração portuguesa na cidade com um momento posterior à chegada da frota.

13 de junho Dialogava com a tradição católica — dia de Santo Antônio — e foi associada simbolicamente à instalação da nova cidade sob proteção religiosa, algo comum nas fundações coloniais.

20 de junho A hipótese partia da ideia de que a fundação teria ocorrido algumas semanas após a chegada de Tomé de Souza, quando as primeiras estruturas administrativas e militares estariam de fato organizadas.

24 de junho Com vínculo religioso ao dia de São João. A interpretação associava a fundação a uma tradição de batizar eventos importantes com datas de santos do calendário católico.

30 de maio Tentava calcular quanto tempo teria passado entre a chegada da frota portuguesa e a instalação formal da cidade.

O projeto Aniversário de Salvador é uma realização do Jornal Correio, com patrocínio do Salvador Bahia Airport, apoio institucional da Prefeitura Municipal de Salvador e apoio do Salvador Shopping.

Tags:

Salvador História