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Da Redação
Publicado em 9 de fevereiro de 2023 às 13:51
- Atualizado há 3 anos
‘Saudade de Itapoã, me deixa’, diz uma composição do cantor e compositor baiano Dorival Caimmy. Bom, nesta quinta-feira (9), após dois anos, ela deixou os milhares de frequentadores da tradicional lavagem que toma conta do bairro e das imediações. Completando 118 anos, os festejos, que reúnem manifestações sagradas e profanas em torno da Paróquia Nossa Senhora da Conceição de Itapuã, voltaram a ser realizados e fecharam o ciclo que antecede o Carnaval. >
Foi perto das 13h que aconteceu a principal lavagem em frente à paróquia — e não mais em suas escadarias —, realizada pelas baianas, com direito a água de cheiro até para quem quisesse se banhar, como o segurança Dário Cardoso, de 32 anos. “A sensação é maravilhosa! Depois de dois anos de pandemia, sem ter esse calor humano. A Bahia é tudo!”, comemorou ele, que vai ao evento desde que ‘se entende por gente’. >
À baiana Edite Ferreira, 66, que já participa do evento há mais de 20 anos e é uma das responsáveis pela lavagem, faltavam palavras para descrever o momento. “É uma alegria; uma satisfação enorme. Que Jesus nos abençoe e tome conta da gente, e que essa festa continue linda e bela, sem problemas”, pediu Edite. >
Presente, o governador Jerônimo Rodrigues declarou apoio às festas populares durante sua gestão. “É uma alegria muito grande estar retomando com minha fé, no meio desse povo, e quero dizer que a presença nossa é para demarcar um espaço: nós vamos apoiar as festas populares em Salvador e em todo o estado”, afirmou. >
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Lavagem nativa >
A lavagem feita pelas baianas veio antecedida do qualificador ‘principal’ porque, há 35 anos, passou a existir outra, no mesmo dia. A ideia partiu de Dona Niçu, moradora de Itapuã: ela tinha tido um sonho — não revelado — e resolveu introduzir às 5h uma lavagem nativa, apenas com residentes do bairro e usando água, sabão e flores perfumadas. >
“Ela só dizia pra gente que o teor do sonho era pedir pela paz em Itapuã, já que a lavagem do bairro era tida como uma das mais violentas”, contou sua filha, a pedagoga Leonice Gomes, 64, que, com os irmãos, dá continuidade à prática. >
Com o passar dos anos, a lavagem nativa foi crescendo e o café da manhã oferecido logo em seguida, por Dona Niçu, em sua casa, consequentemente, também. “Quando a gente chega na frente da igreja, já tem uma multidão esperando. [...] Ao sair da igreja, eu deixo meu irmão caçula, Celso Lázaro, responsável pelo samba de roda”, acrescentou Leonice. >
É nesse momento que ela volta para casa e serve o café da manhã. “Hoje, foram servidos mingaus de tapioca e africano e munguzá. [...] Graças a Deus e algumas valiosas contribuições, nós conseguimos preencher 400 kits, com frutas, pão, cuscuz e bolo”, citou alguns elementos do banquete, que é servido à vontade. >
Riqueza cultural >
Para o publicitário e jornalista Nelson Cadena, colunista do CORREIO, a Lavagem de Itapuã é, entre as festas populares da Bahia, uma das que mais se destacam. “Essa é uma festa das que mais têm elementos culturais e históricos, e é muito importante esse retorno dela, como a gente vê com o grande público presente”, disse ele. >
As palavras de Cadena podiam ser confirmadas na satisfação que estampava o rosto do escritor e filósofo Fernando Araújo, 80. Frequentador da lavagem há tantos anos, ele até já perdeu as contas. >
“Essa festa é realmente o simbolismo do que existe de melhor na Bahia: essa negritude e essa fé maravilhosa que o baiano tem nas divindades de matriz africana e nos santos da Igreja Católica”, exaltou Fernando. >
Baleia Rosa do Amor >
Nesta quinta, também retomou seus moldes tradicionais a Festa da Baleia Rosa do Amor, responsável, há 36 anos, pelo desfile do mamífero inflável durante a Lavagem de Itapuã. Neste ano, o desfile homenageou Armindo Biriba, nativo de Itapuã e primeiro campeão brasileiro com o Bahia, em 1959. >
O desfile foi embalado pela Orquestra do Maestro Reginaldo de Xangô. Recentemente, a baleia foi destaque na 20ª Ala da Escola da Viradouro, na Sapucaí. >