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Da Redação
Publicado em 10 de maio de 2010 às 10:31
- Atualizado há 3 anos
Os dedos sobram nos sapatos, mesmo que os tamanhos sejam acima do número 43. O pó compacto e a máscara de cílios sobressaem à feminilidade nos corpos masculinos. No minúsculo camarim escuro e com infiltrações, de sacolas plásticas ou de malas luxuosas, salta o brilho das artistas. Transmutação. No pequeno palco, maquiadores, cozinheiros e estudantes viram damas, ladys...verdadeiras divas de um espaço abençoado pelos marujos que guiam Iemanjá. Na hoje sombria rua Carlos Gomes, a luz azul do bar Âncora do Marujo, de terça-feira a domingo, guia os peregrinos que buscam o riso nos cada vez mais raros espetáculos de transformistas em Salvador. >
Único bar no centro da cidade que sobrevive dos shows, o Âncora serve há dez anos como resistência da arte, que teve origem no teatro europeu no final do século XIX. A decoração inspirada no fundo do mar deixa as artistas tal qual as sereias da mitologia. Mas na parte peixe desses seres, o rabo é coberto de paetês coloridos. O encanto feminino é idêntico. Hipnotizante, mesmo quando a dublagem das músicas não segue a sintonia correta, seja pelo som que falha, seja pela artista que não sabe a letra. >
Bichas - cupimAlém do Âncora, as transformistas também se apresentam na Boate Tropical, na Avenida Contorno, no Caras & Bocas, em Periperi, no Beco dos Artistas, nos Barris, e da Off Club, na Marques de Leão, na Barra. Porém, os espaços dedicados a esse tipo de show já foram mais em Salvador. Com a decadência do mercado, muitas acabaram indo para a Europa. “Teve época, nos anos 70, 80, que tinha mais de dez casas.Umas cinco só no Centro. Mas as bichas- cupim destruíram tudo. As casas fecharam pouco a pouco sem clientes”, diz um dos sócios do Âncora, Antônio Fernando dos Santos. >
A seleção do público, segundo o agente de marketing e serviço Alex Ribeiro, cliente da casa há três anos, é o que torna o local aprazível. “Os donos não deixam qualquer tipo frequentar. Venho sempre. Deixei até de fumar, pois não quero sair para fumar lá fora, por conta da lei antifumo, para não perder o show”, explica. >
Os fios de barba salientes desaparecem com os toques de base, corretivo e batom dispensados na pele para dar o tom saudável. Desde os 16 anos, Edson Cunha Santana Júnior fica guardado nas sacolas plásticas dos camarins para que Scarlet Cabochard Sangalo ganhe vida nos palcos. >
GlossÀ medida que põe as calcinhas e a peruca, os gestos tornam-se mais doces, delicados. “Sou bonita, com apenas um gloss estou pronta”, brinca a artista de 26 anos que cursa do 7º semestre de publicidade na Faculdade Social da Bahia e há dez anos se apresenta vestido de mulher. “Faço show há dez anos. No Âncora, tenho quatro. No começo é difícil porque nos confundem com travesti, mas não vou para rua vestido de mulher”, relata Scarlet que descobriu a vocação para o transformismo em 99 durante uma festa de Halloween na escola. >
Cover de Ivete Sangalo, esnoba.“ Quando subo no palco, penso: quem é Ivete? Eu me sinto mais do que ela”, brinca Scarlet que continua fazendo animações em eventos para garantir renda. >
Mesmo com o parco cachê, que gira em torno de R$ 20 a R$ 40 por apresentação, as artistas fazemdo Âncora um berço, um vício. “Muitas vêm fora do dia de apresentação só pelo prazer de estar no espaço”, diz Santos, o proprietário. Se o retorno financeiro é baixo e não dá sequer para comprar as maquiagens, o ambiente familiar do bar atrai as meninas. Até nos dias que não são pagas para se apresentar, elas vão dar “close”. >
Em troca, ganham o carinho de Angélica, garçonete e madrinha de todas, como fazem questão de falar, de Wilson, sócio, decorador e DJ, e de Zé de Xangô, que toma conta da portaria da casa cobrando os R$ 3 de entrada. De sobra, ainda dão umas bebericadas, com canudo para não borrar o batom, no drink tarja preta, como foi batizada, no Âncora, a mistura de vodka com Coca Cola. >
Zaira O moreno sestroso com quase 2m de altura que hoje se equilibra em saltos altíssimos com total desenvoltura, relutou em se transformar na Zaira Lestat Wetter. Gil, como quer ser chamado, iniciou a vida artística aos 14 anos através do canto, seu parceiro até hoje, aos 37.>
Nunca pensou em dispor do corpo para dar vida a uma diva, mesmo quando há quatro anos teve proposta para trabalharem uma peça e ser uma cantora. “Depois que recusei o convite isso ficou apertando na minha mente. Até que há um ano e meio, me transformei pela primeira vez. Tive crise de riso. Não me reconheci”. >
Truques para transformaçãoO espaço acanhado não é problema para as transformistas que se apresentam na boate da Carlos Gomes Truque pouco é bobagem para virar mulher. Para pôr brincos na orelha sem furá- las, Superbonder. Para esconder o órgão genital, fitas adesivas. Outras usam artifícios impublicáveis. As dicas são ensinadas pelas madrinhas da noite, transformistas mais antigas que ajudam “irmãs pobrinhas”. >
No Âncora, são quase 30 artistas entre veteranas e bichas de show. “Uma semana depois de fazer 18 anos, bati na porta e disse que queria fazer shows. Antes eu ficava na porta babando de vontade”, conta Gabriel, recepcionista em um restaurante do Salvador Shopping. >
Para se montar, como se diz, Gabriel ganha apoio no empréstimo de perucas, roupas e maquiagens. De família cristã, convive com olhares tortos. “Meu irmão é homofóbico. Não me aceita”. >
Filho de pastores de uma Igreja Evangélica de Brasília, Jean Carlos Jesus, 20 anos, abandonou a terra natal para “causar” na noite de Salvador. Atraído por um amor, o garoto de corpo franzino ganha no palco feições das grandes divas, como Beyoncé. Mas Jean não desgosta da sua face masculina. “Meus pais não aceitam 100%. Sou homem em todos os lugares. Menos quando subo no palco”. >
Carlos Gomes tem história A Carlos Gomes teve tempos áureos. A professora Consuelo Pondé de Sena, presidente do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, lembra que a via nunca foi sofisticada como a Chile, mas teve momentos de glória no início do século XX. “Foi aberta na mesma época da Avenida Sete, por volta de 1915. Ficou como uma rua secundária, de serviços, com consultórios e empresas”. >
Preconceito sem máscaras ainda persegue artistas O fato de se vestir como mulher não indica que o homem é homossexual. Mas quando ele é, tem uma aceitação social mais complicada, segundo o professor do Instituto de Humanidades, Artes e Ciências da Ufba e coordenador do grupo de pesquisa em cultura e sexualidade, Leandro Colling. >
“O homossexual que se comporta dentro da norma heterossexual sofre menos preconceito em nossa sociedade. Quanto mais o sujeito transgredir à heteronormatividade, como fazem as transformistas e as travestis, menos aceito ele será”, avalia. >
E a confusão do transformismo com a prostituição é um dos motivos para o preconceito. “Já recebi convites para ir para a Europa, mas quem vai fazer show lá acaba caindo na prostituição. Sou artista”, assegura Scarlet Cabochard. >
Já Valércio Santos, 27, não é conhecido, mas Valerie O'hara é a diva. Há seis anos, o maquiador, que trabalha dando aulas em uma ONG, virou mulher nos palcos. “Comecei de brincadeira, com lençol na cabeça. Depois participei de um concurso no Curuzu e ganhei”. Hoje, reclamam dos cachês. “Faço shows em casas de outros estados e aqui em Salvador o salário é baixo”, conta Monyk Houston, personagem há 15 anos do cabeleireiro Marcos Andrade, transformista por influência da mãe. >
Tipos de transformista1 Diva - Faz performances mais clássicas a exemplo da Zaira Lestat Wetter, que aposta em visual mais sensual no palco. >
2 Drag - Face cômica e maquiagem exagerada. Tcheca Brasil é o secretário Tiago Paixão, drag há um ano. >
3 Caricata - Eyshilla Butterfly é o maquiador Fábio Dias. Exagera na risada e performances, como no bate-cabelo, quando roda a nuca e balança a peruca. >
Não é tudo igualTravesti - usa roupas do sexo oposto e se submete a tratamentos para ficar mais parecido com o outro sexo. >
Transformista - usa roupas do sexo oposto só em eventos. Não interfere na orientação sexual.>
Bicha-cupim - transformista que afasta o público da casa de shows, por gestos e atitudes ofensivos. >
Bicha de show - garotos que ficam na porta das boates querendo entrar.>
(Notícia publicada na edição impressa do dia 10/05/2010 do CORREIO)>