Acesse sua conta
Ainda não é assinante?
Ao continuar, você concorda com a nossa Política de Privacidade
ou
Entre com o Google
Alterar senha
Preencha os campos abaixo, e clique em "Confirma alteração" para confirmar a mudança.
Recuperar senha
Preencha o campo abaixo com seu email.

Já tem uma conta? Entre
Alterar senha
Preencha os campos abaixo, e clique em "Confirma alteração" para confirmar a mudança.
Dados não encontrados!
Você ainda não é nosso assinante!
Mas é facil resolver isso, clique abaixo e veja como fazer parte da comunidade Correio *
ASSINE

Como um pequeno negócio transformou um espaço esquecido em atração cultural no Centro Histórico de Salvador

Fundado por um fotógrafo, o Café e Câmera une empreendedorismo, economia criativa e patrimônio histórico em um espaço que já conquistou moradores, turistas e até o The New York Times

  • Foto do(a) author(a) Millena Marques
  • Millena Marques

Publicado em 7 de junho de 2026 às 07:00

Café e Câmera
Café e Câmera Crédito: Marina Silva

Ao subir as escadas da Igreja da Ordem Terceira dos Irmãos Carmelitas, na Ladeira do Carmo, um cheiro de café convida turistas, religiosos e moradores a uma experiência sensorial no Centro Histórico de Salvador. É no canto direito da histórica igreja, construída entre 1788 e 1860, que funciona o Café e Câmera (@cafeecamera), uma cafeteria diferente de todas as outras da capital. Por lá, além do bom expresso, câmeras, xilogravuras, fotografias e discos compõem um acervo de antiguidades responsável pela sensação de "casa de vó".

Fundado em 2023 pelo fotógrafo, artista e marceneiro Adriano Viana — que também trabalha como agente de saúde —, o espaço nasceu de um sonho antigo. A ideia surgiu quando ele morava na Austrália, em 2017. Adriano viveu por três anos em Adelaide, capital costeira e cosmopolita do país. Foi lá que fez um curso de barista, profissional especializado no preparo de cafés de alta qualidade.

Inicialmente, o objetivo era montar apenas uma cafeteria. Depois, o desejo mudou. "Eu pensava em alugar um espaço fechado, onde eu pudesse montar uma loja de antiguidades e uma galeria", conta. Ao conhecer o cantinho ao lado da igreja, que estava fechado havia oito anos, decidiu reunir todas as paixões em um só lugar.

"No meio do caminho, eu pensei em colocar o café, que também seria um museu de câmeras. Liberaram o espaço da frente para colocar mesas e cadeiras, e tudo foi fluindo", diz. Com a escolha do espaço, Adriano precisava vencer um dos maiores desafios para montar o negócio: a falta de dinheiro.

Foi por meio de uma amiga que o sonho virou realidade. "Mulher costuma enxergar coisas além, né? Ela disse que eu iria abrir o café e me deu o dinheiro para comprar a máquina de café que eu queria", conta, aos risos. Na época, o equipamento, fabricado nos anos 1970, custava R$ 8 mil. No total, o investimento inicial foi de R$ 20 mil, incluindo a compra de mesas, cadeiras, luminárias, poltronas, forno, radiola e prateleiras.

Se for colocar na ponta do lápis, o investimento é muito maior. Para se ter uma ideia, Adriano possui um acervo com cerca de 400 câmeras, adquiridas de colecionadores e lojas de antiguidades. A mais antiga delas é feita de madeira, não possui marca identificada e tem origem datada do século XIX. Ela foi comprada em um lote com outras quatro câmeras por R$ 1,5 mil.

A coleção começou a ser montada há cinco anos. Como ele conseguiu reunir tantos equipamentos? A resposta é simples: "Energia. O artista faz o café, prepara a comida, atende os clientes, coleciona, cuida do financeiro, cuida de tudo".

Quando abriu o café, o acervo era menor: cerca de 150 peças. Em menos de três anos, o número mais do que dobrou. "Eu continuo comprando câmeras até hoje. Tenho modelos de diferentes formatos e marcas", conta. Há exemplares de fabricantes como Kodak, Rolleiflex, Miranda, Kiev e Panasonic.

Além das câmeras, o espaço conta com aproximadamente 150 discos de vinil de grandes nomes da música brasileira. Entre eles estão Gilberto Gil, Djavan, Jorge Ben Jor, Milton Nascimento, Bebeto, Jovelina Pérola Negra e Chico Buarque. Há também fotografias do próprio Adriano, além de telefones, rádios, máquinas de escrever e quadros artesanais.

Montar um negócio praticamente sozinho não foi fácil. Adriano conta que não sabia estabelecer preços e chegou a quebrar a máquina de café pouco tempo depois da inauguração.

Não fiz consultoria nenhuma. Eu montei tudo do zero. Errei bastante, tive muito prejuízo. Isso é uma escola

Adriano Viana 

Proprietário do Café e Câmera

Hoje, as coisas estão mais estabilizadas. Em meses de alta estação, como novembro e dezembro, cerca de 600 clientes passam pelo local por semana. Nos períodos de menor movimento, esse número gira em torno de 300.

No espaço, Adriano vende bolos caseiros a R$ 14 a fatia, torta de chocolate (R$ 20), cookie (R$ 14), quiche (R$ 17) e outras delícias. O cardápio varia diariamente. O que nunca falta é o café especial vindo de Piatã, na Chapada Diamantina: R$ 8 o expresso e R$ 16 o coado. Café latte (R$ 14) e cappuccino (R$ 16) também estão entre os itens mais pedidos.

Café e Câmera por Marina Silva

Economia criativa

Diferente de tudo. É assim que a coordenadora pedagógica e influenciadora digital Bárbara de Carvalho (@oxe_babi), de 32 anos, descreve o Café e Câmera. Nascida nos anos 1990, ela viveu a transição dos equipamentos analógicos para os digitais e, por isso, o local desperta tantas memórias.

“Quando conheci o Café e Câmera, aquele universo analógico logo me trouxe lembranças da infância. O toca-discos da minha avó tocando Martinho da Vila, as fotografias em um álbum simples da Kodak, o sentimento de casa, de aconchego”, descreve. A descoberta aconteceu por meio do Instagram.

Bárbara gostou tanto da experiência que passou a indicar o café para outras pessoas. Foi assim que surgiu a ideia de criar uma roda literária no espaço. “Como dizia Vinicius de Moraes: ‘a vida é a arte do encontro’. Uma dessas pessoas também se encantou pelo espaço e sugeriu criarmos uma roda literária para discutir alguns títulos”, conta. Há duas semanas, ela e outras seis pessoas deram início ao clube de leitura. "Foi incrível. Discutimos títulos que marcaram nossas vidas", diz. 

A vida imita a arte ou a arte imita a vida? Porque, às vezes, viver parece um sonho e, no Café e Câmera, a vida parece um filme

Bárbara de Carvalho

Coordenadora pedagógica e influenciadora digital

É nesse sentido que o Café e Câmera se destaca. O empreendimento integra um universo de 4.788 empresas ativas do segmento de lanchonetes, casas de chá, sucos e similares em Salvador, segundo dados da Receita Federal disponibilizados pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae).

Desse total, 4.664 são micro e pequenas empresas (MPEs), o que representa 97,4% do mercado, demonstrando que o setor é fortemente impulsionado por pequenos empreendedores. "Existe hoje uma busca maior por negócios com identidade própria, mais criativos e independentes. Muitas cafeterias surgem unindo café, gastronomia, arte, música e cultura baiana”, explica Hirlene Pereira, analista do Sebrae em Salvador.

O estudo aponta uma média de 229 novas empresas abertas por ano, e os negócios autorais aparecem entre os principais motores desse crescimento. “Muita gente vê nesse segmento uma oportunidade de empreender com algo mais autoral e próximo do seu estilo de vida. Redes sociais, turismo e valorização do consumo local também ajudam bastante a impulsionar novos negócios”, pontua Hirlene.

A artista e pesquisadora Juliana Lino (@julianaclino) mora no Carmo há quatro anos e acompanhou de perto o nascimento do negócio de Adriano. Ela, assim como Bárbara, sabe exatamente qual é o diferencial do café para o bairro. “É diferente do movimento de abrir comércios para gringo ver. Quando enxergamos o espaço sob essa perspectiva de envolvimento cultural, surge a sensação de que ele realmente pertence ao bairro”, afirma.

Juliana Lino
Juliana Lino Crédito: Marina Silva

O reconhecimento do Café e Câmera ultrapassou fronteiras. Em 2025, o estabelecimento foi citado em uma reportagem do jornal americano The New York Times. O jornalista Michael Snyder descreveu o local como “um ótimo lugar para um café e uma boa conversa”.

Vida ao Centro

O Centro Histórico de Salvador vive um processo contínuo de revitalização econômica nos últimos anos. De acordo com dados da Receita Federal, a região possui 2.450 empresas, sendo que 47% iniciaram suas atividades entre 2021 e 2026 — caso do Café e Câmera. Somente neste ano, 146 novas empresas começaram a operar.

Segundo Luciana Buck, diretora de Desenvolvimento Econômico da Secretaria Municipal de Desenvolvimento, Emprego e Renda (Semdec), cafeterias autorais e empreendimentos culturais contribuem diretamente para a movimentação da economia local. "Todas essas atividades se complementam e se fortalecem mutuamente. As atividades culturais se destacam e atraem públicos diversos, entre moradores e turistas. Isso fortalece os negócios relacionados a bares, restaurantes e cafeterias", afirma. Ao todo, são 231 empresas ativas nesse segmento no Centro Histórico.

O impacto também se reflete nos números do turismo da capital baiana. "Esses novos espaços vêm ajudando a transformar o Centro Histórico em um ambiente ainda mais vivo, criativo e acolhedor. O turista de hoje busca experiências autênticas, e as cafeterias autorais, restaurantes e espaços gastronômicos acabam proporcionando exatamente isso", afirma Gegê Magalhães, diretor de Qualificação e Promoção do Turismo de Salvador.

Estabelecimentos como o Café e Câmera, que funcionam dentro de um templo histórico e religioso, também contribuem para o crescimento do turismo religioso na capital. Dados da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo apontam um aumento de 166% no número de turistas que realizam roteiros religiosos em Salvador em apenas dois anos. Em 2023, foram 26 mil visitantes. No ano passado, esse número saltou para 70 mil. Para o historiador Rafael Dantas, preservação patrimonial e atividade comercial podem caminhar juntas. O equilíbrio, segundo ele, acontece por meio do diálogo, da construção coletiva e do planejamento de longo prazo.

A ocupação responsável, associada ao turismo, à habitação e aos empreendimentos locais, é o que garante o fluxo de pessoas e faz a economia criativa girar. É isso que mantém o Centro Histórico vivo

Rafael Dantas

Historiador

A instalação de negócios de pequenos e médios empreendedores em prédios históricos e religiosos também integra estratégias do Programa de Desenvolvimento do Turismo (Prodetur), da Prefeitura de Salvador. “O objetivo é que essa estratégia, associada a consultorias especializadas e ao acesso ao crédito para empreendedores, impulsione a geração de renda, contribua para a movimentação econômica do território e dinamize a região para além do horário comercial”, diz Maylla Pita, diretora de Empreendedorismo e Agronegócio da Semdec.

A reportagem solicitou às secretarias dados atualizados sobre a ocupação desses imóveis por empreendedores, mas os órgãos informaram que não possuem um mapeamento consolidado.

Tags:

Salvador Economia