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Gabriel Moura
Publicado em 29 de março de 2023 às 08:30
- Atualizado há 3 anos
Vasculhando o calendário, nota-se que ela preenche cinco das sete lacunas, apesar de tradicionalmente ocorrer nos dias em que nem é citada. A primeira, aliás, nem existe. Resolveram começar a contar logo pela segunda e parar na sexta. Guiar-se pela semana para fazer a feira é uma confusão, felizmente os soteropolitanos não enfrentam esse problema pois, diariamente, é só dar cinco centavos de caminhada que rapidinho se esbarra em uma barraquinha para repor seu estoque de frutas, verduras e legumes.>
Presentes em toda a cidade, da periferia ao bairro de grã-fino, essas quitandas móveis contrastam o cinza dos prédios com uma infinidade de cores em cada bancada. No comando, sempre um vendedor sorridente, sempre pronto para atender o desejo da clientela.>
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“E aí, freguesa. O que vai querer hoje?”, pergunta Roque dos Santos a moça que se aproxima de sua banca, instalada em uma esquina da Barra. “O abacaxi hoje está docinho. Aliás, é docinho sempre, mas hoje está mais”, propagandeia ele, enquanto a cliente analisa o tabuleiro.>
“Tem que trabalhar sempre com um sorriso no rosto, não é? Tratar bem os fregueses, além de oferecer um produto de qualidade. Fico muito feliz sabendo que a maioria dos moradores aqui me conhecem e fazem questão de comprarem sempre comigo”, comemora ele, mais feliz ainda após vender o tal abacaxi docinho.>
Felicidade também do lado da cliente. Economista, Telma El-Bachá, 59, já fez os cálculos e percebeu que comprar na mão de ‘Seu Roque’ é mais vantajoso. “As coisas aqui são ótimas e mais baratas. Tem fruta que custa o dobro no mercado. Além de ser mais em conta, por aqui consigo comprar em menores quantidades e numa frequência maior, assim as frutas não estragam”, explica.>
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A 14 quilômetros dali, no Largo do Tamarineiro, a história se repete, mas com personagens diferentes. Vinicius Silva, 28, cultiva seu público há seis anos, montando sua barraca sempre no mesmo local. O que mudou foi a entrada da ‘primeira’ e ‘sétima’ feira na sua semana. “Antes eu conseguia me sustentar trabalhando menos dias, mas hoje preciso ficar aqui de domingo a domingo. A crise está forte, tudo aumentando, e a gente tentando não repassar tanto para os fregueses, porque assim vendemos ainda menos”, lamenta.>
Rotina Exaustiva também é a rotina diária. Para os vendedores, o dia começa bem antes do sol nascer. O despertador toca entre as três da manhã para pegar a BA-526 em direção a Ceasa, onde a maioria dos vendedores enchem seu estoque. Chegar cedo é fundamental para garantir uma maior variedade e melhor qualidade nos produtos que serão expostos nas bancas.>
“No final do dia, eu chego a trabalhar 14, 15 horas. É bem cansativo. Por isso, trago minha cadeira e um sombreiro para descansar ao longo do dia. E não reclamo também. Antigamente, eu trabalhava capinando na roça. Era quase a mesma carga horária, mas com muito trabalho manual. Aqui eu até consigo tirar um cochilo às vezes", brinca Roque dos Santos.>
Fiscalização Apesar disso, o que assusta mesmo os vendedores é o ‘rapa’. Segundo a Secretaria Municipal de Ordem Pública (Semop), 899 vendedores de frutas, verduras e hortaliças estão registrados em Salvador. Os que estão na irregularidade, por outro lado, estão sujeitos a penalizações.>
Foi o caso de Márcio Santos Cruz. 15 dos seus 45 anos ele passou vendendo frutas nas barraquinhas. Antes de se estabelecer no Corredor da Vitória, ele trabalhou na Graça, onde era alvo constante dos agentes da Prefeitura.>
“Eu trabalhava assustado. Aparece um morador que não gosta, ou o dono de um mercado dizendo que atrapalha as vendas dele. Então chamam a Prefeitura, que cai em cima da gente. Parece que tem gente que não quer ver você trabalhar. Já chegam expulsando, na ignorância. Mal dão apoio, tratam a gente igual a bicho. Já chegaram a dizer para eu montar minha barraca na periferia, pois ali não era lugar disso. Tive que sair da Graça por isso”, relembra ele, que hoje é regularizado e não tem mais problemas.>
Segundo a Semop, a fiscalização é feita por equipes fixas no Centro, Barra e Bonfim. Nas demais áreas da cidade, as ações são feitas por equipes itinerantes. “O objetivo das ações é fazer cumprir a legislação municipal vigente e manter o ordenamento nas áreas. É preciso que o comerciante informal tenha consciência de que ele não pode trabalhar em cima de uma calçada impedindo o fluxo de pessoas. Ele não pode colocar uma banca em uma faixa de pedestre, pois não é um local adequado nem seguro. A Prefeitura promove encontros, capacitações a fim de levar informações e conhecimento para que este trabalhador desempenhe seu papel da melhor maneira”, diz o órgão em nota.>
O processo de regularização é simples. O cadastro é feito no aplicativo da Semop, onde o interessado cria um cadastro preenchendo os dados pessoais. Após a análise, a secretaria dá o parecer informando se foi aceito ou não. No caso de uma banca de frutas, há uma taxa anual de R$ 297 a ser paga.>
“A Prefeitura trabalha na valorização do comércio ambulante, garantindo um espaço seguro, padronizando os equipamentos de trabalho com ações de ordenamento, construção de camelódromos com cobertura, limpeza e sanitários. Tirando esses ambulantes das ruas e calçadas e colocando-os em locais com melhor infraestrutura, para que esses possam exercer sua função, gerando emprego e movimentando a renda da nossa cidade”, diz a nota da Semop.>
*Este conteúdo especial em homenagem ao Aniversário de Salvador integra o projeto Salvador de Todas as Cores, realizado pelo Jornal Correio, com patrocínio da Suzano, Wilson Sons, apoio institucional da Prefeitura de Salvador e apoio da Universidade Salvador - Unifacs>