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Carol Aquino
Publicado em 4 de maio de 2017 às 20:46
- Atualizado há 3 anos
O povo de santo estava todo paramentado para o dia histórico. Usando roupas típicas de rituais religiosos, eles se preparavam tocando atabaques decorados com objetos ritualísticos. Com cânticos, invocavam a presença de Xangô. “Eu vou, eu vou. Eu vou atender ao chamado, vou para a Pedra de Xangô”. Eles atenderam ao chamado e foram em massa para Cajazeiras X. O dia era de festa, de alegria. Depois de oito anos de luta, foi tombada nesta quinta-feira (4) a Pedra de Xangô e a área considerada sítio histórico do Quilombo Buraco do Tatu.A cerimônia começou com o agito dos xequerês das Filhas de Gandhy, que também compunham a plateia cheia de religiosos. Emocionada com a concretização do tombamento, Mãe Iara de Olorum interrompia a fala cada vez que relembrava a trajetória dos últimos anos. “Hoje sinto que a tarefa está cumprida, estou feliz. Meu neto, meu bisneto vão encontrar este odá. Ele vai estar aí, não vão implodir. É imensurável a minha satisfação. É essa vitória que eu vou deixar para o povo de santo”, falou. (Foto: Almiro Lopes/CORREIO)Caminho certo do povo de terreiro e lugar de rituais sagrados das religiões de matriz africana, A Pedra de Xangô é símbolo de resistência do povo negro. Na época da escravidão, ali foi esconderijo dos homens e mulheres negras explorados nos engenhos. A mata fechada escondia a pedra e fazia dali um espaço de liberdade. O Orixá que dá nome à rocha, é considerado o senhor das pedras, representa a Justiça e é protetor dos terreiros. A mestre Maria Alice Pereira da Silva, autora da dissertação intitulada “Pedra de Xangô: um lugar sagrado afro-brasileiro na cidade de Salvador”, explica que como muitos dos terreiros de Salvador não tem um espaço de mata, os rituais de religiões africana acabam convergindo para esse espaço. Nessas religiões, a natureza tem importância fundamental. “Só neste sítio histórico foram identificados doze espaços sagrados”, revela. Ela explica que ali os candomblés vão pegar as folhas para seus rituais e realizam no espaço celebrações dos mais diversos tipos.A Yá Kekere Sandra Bispa lembrou que “a pedra é um grande símbolo, é um ibá dos nossos orixás. É um elemento de grande energia e não pode ser destruído. Xangô é o grande senhor das pedras, aí ele está bem representado, então estamos agradecendo por sua preservação”.O ponto alto do dia foi ao final da assinatura de decreto de tombamento. Mães de santo, filhos e filhas, se dirigiram à pedra sagrada e deram início a mais um ritual. Do alto da rocha, uma pomba branca foi solta e foram oferecidas flores e folhas para Xangô, em mais um ato sagrado. Terminada a cerimônia, o povo de santo abriu a roda, começou a tocar e a dançar em comemoração ao mais novo monumento tombado de Salvador. Kaô Kabiesilé!“O tombamento vem para mostrar a preservação e o reconhecimento do poder público à importância cultural que tem as religiões de matriz africana para nossa cidade e o que isso nos diferencia de todo o Brasil”, explicou o prefeito ACM Neto.(Foto: Almiro Lopes/CORREIO)Mãe Iara ressalta a importância de relembrar a cultura ancestral do povo negro, que vieram para o Brasil para serem escravizados e contribui na luta contra a intolerância religiosa. “Tenho certeza que o tombamento vai dar força ao povo afrodescendente a continuar lutando pelo que acredita”, resume.Os equipamentos que comporão o Parque estão sendo discutidos com as comunidades de terreiro e de Cajazeiras com a Secretaria da Cidade Sustentável. A criação deste equipamento urbano, segundo o prefeito, vai proteger o espaço de ocupações inadequadas. “Protege de ocupações inadequadas. Temos aqui uma área verde muito grande que precisa ser cuidada, preservada, mas que também precisa ser disponibilizada para a cidade”, disse Neto.HistóricoDesde 2004, a Pedra de Xangô, está sob ameaça. Nessa época, com o desmatamento da região, o espaço de rituais começou a ficar mais visível e a ser vítima de vandalismo. Pichações e lixo foram algumas das agressões sofridas pelo objeto sagrado. A partir de 2009, quando a ocupação começa a tomar conta da área do entorno começam os primeiros temores de que o terreno fosse usado para especulação imobiliária e que a pedra fosse demolida“Aí eu me desesperei”, resumiu Mãe Iara de Oxum, uma das principais defensoras do tombamento da Pedra. A partir daí, começa a luta pelo tombamento. Ela procurou a Fundação Gregório de Mattos, O IPHAN, o IPAC, até conseguir que alguém aderisse a sua casa. Mas a luta dela não foi solitária. “Agradeço ao povo de terreiro, que atendeu à minha convocação”, disse. As coisas começaram a mudar a partir de 2016, quando foram criados no Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano (PDDU) de 2016, a Área de Proteção Ambiental (APA) Assis Valente e o Parque em Rede Pedra de Xangô, o que deu o primeiro passo para o tombamento do Monumento Sagrado.>