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Gil Santos
Publicado em 3 de agosto de 2018 às 04:00
- Atualizado há 3 anos
Um dos ofícios da arte é trazer à tona o horror do real. Quem disse isso foi o escritor irlandês Oscar Wilde em O Retrato de Dorin Gray. Mas quem visita o parque das esculturas ou Espaço Mario Cravo Júnior, em Pituaçu, fica horrorizado é com o estado de conservação das obras do artista.>
Há alguns anos, quem entrava no parque era recebido por um conjunto de esculturas coloridas e provocativas que envolviam o espaço. A ação do tempo fez a tinta ceder lugar à ferrugem e algumas peças, que antes exibiam força e altura, foram reduzidas a um conjunto de ferros retorcidos. Matagal está tomando conta do parque (Foto: Mauro Akin Nassor/ CORREIO) Em alguns trechos o descaso é tamanho que a vegetação trepou nas peças e já é difícil identificar quem é quem. Na obra de Wilde, o quadro pintado por Basil Hallward é o retrato vivo de Dorian Gray a ponto de envelhecer e sofrer as dores do protagonista.>
Assim como no romance, as obras expostas no Parque das Esculturas exprimem a genialidade de um artista que ficou conhecido, nacional e internacionalmente, pelo modernismo e a inovação. No total, o Espaço Mário Cravo Júnior, que é administrado pelo governo do estado, tem 53 mil m² e reúne cerca de 3 mil peças. Parque tem cerca de 3 mil obras (Foto: Mauro Akin Nassor/ CORREIO) Na manhã desta quinta-feira (2), o CORREIO encontrou o camareiro Edivonilson Santana, 26 anos, caminhando pelo parque com alguns amigos. Apesar de morar em Salvador, no bairro de Canabrava, fazia muitos anos que ele não visitava o local e contou que ficou surpreso com o que viu.>
“A lembrança que eu tenho é do parque bonito, com esculturas coloridas, bonitas. O gramado verde e a água do lago mais limpa. Está muito diferente do que era antes. Infelizmente, diferente pra pior”, disse. O que restou de uma estrutura que desabou (Foto: Mauro Akin Nassor/ CORREIO) O CORREIO observou 20 peças no espaço. Todas apresentavam falhas na pintura, dez estavam corroídas de ferrugem e cinco tinham partes quebradas. A situação mais grave é de uma obra que desabou e virou um amontoado de ferros retorcidos e oxidados.>
Como algumas peças têm altura, foram isoladas com fitas para que o público não se aproxime e evite acidentes, o detalhe é que a fita também está desgastada pelo tempo e já cedeu em alguns trechos. “Eles precisam reformar é o parque todo”, opinou a empregada doméstica Mônica Bonfim, 34 anos.>
Em junho, um homem identificado como Thiago Nascimento ganhou direito a uma indenização depois que teve o braço esmagado por uma das esculturas. O Tribunal de Justiça da Bahia (TJ-BA) condenou o Estado da Bahia a pagar R$ 50 mil para a vítima. O acidente aconteceu em 2009. Vegetação está crescendo em algumas obras (Foto: Mauro Akin Nassor/ CORREIO) Centro Outras obras de Mario Cravo Júnior são a Cruz Caída, na praça da Sé, e a Fonte da Rampa do Mercado, no Comércio, em frente ao Elevador Lacerda. Peças localizadas em regiões turísticas da cidade e alvos das muitas selfs dos visitantes, mas que nem assim foram poupadas. Base da Cruz Caída está pichada (Foto: Gil Santos/ CORREIO) O empresário paulistano Daniel Torres, 32 anos, estava tentando enquadrar a namorada na self na Cruz Caída, nesta quinta, sem pegar as pichações que estão no pé do monumento. Em geral, frases de amor ou comentários adolescente sem sentido.>
“É triste que esteja dessa maneira. A obra é linda e uma marca da cidade. Essa é minha primeira vez em Salvador e alguns amigos que já estiveram aqui falaram da Cruz Caída, do Elevador Lacerda, enfim. Queria levar uma foto mais bonita”, disse. Ivan Cravo estuda forma de restaurar obras do pai (Foto: Mauro Akin Nassor/ CORREIO) A Fonte da Rampa do Mercado não está pichada, mas a tinta amarela está desgastada. A piscina está sem água e servindo de abrigo para moradores de rua. O filho de Mario Cravo Júnior e curador do artista, Ivan Cravo, contou que está estudando uma forma de preservar as obras do pai.>
“Estamos conversando com o governo do estado e estudando projetos de restauração para preservar as obras de meu pai. Esse é um ano difícil, por conta das eleições, mas tenho fé de que isso vai acontecer. Meu pai era o único modernista baiano da primeira geração ainda vivo, era um grande artista, que deixou sua marca na Bahia e no mundo”, contou.>
Mario Cravo Júnior morreu nesta quarta-feira (1º), aos 95 anos, por falência múltipla dos órgãos, no Hospital Tereza de Lisieux. O corpo dele foi sepultado na tarde desta quinta (2) no Cemitério Jardim da Saudade, em Brotas. Mario Cravo Júnior era uma referência em modernismo (Foto: Arisson Marinho/ CORREIO) Procurada, a Secretaria de Cultura da Bahia (Secult), responsável pelas obras do Espaço Mario Cravo Júnior, ainda não comentou sobre a restauração das obras do artista.>
Já a Fundação Gregório de Mattos (FGM), responsável pela Cruz Caída e a Fonte da Rampa do Mercado, está verificando quando foi feita a última intervenção nesses espaços, mas informou que não há previsão de quando eles serão restaurados novamente. Segundo a FGM, a cidade tem 170 símbolos e 60 deles foram recuperados a partir de 2013.>
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