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Alexandre Lyrio
Publicado em 15 de abril de 2014 às 07:57
- Atualizado há 3 anos
O sol nem bem surgiu no horizonte e o professor de futevôlei Olavo Gadelha, 45 anos, está suando em bicas. Em um treino leve na praia da Pituba, se esforça tanto para não deixar a “peteca” cair que muitas vezes acaba na areia. Dali, atenderia outro cliente em um condomínio de luxo no Horto Florestal. Precisava de um bom banho para, pelo menos, tirar o excesso de areia grudado à pele. Sem a opção de chuveiros, Olavo (de azul) improvisa levando água doce em galões de 5 litros e garrafas pet“Cadê o chuveiro?! Ah, meu amigo, chuveiro é lenda na orla de Salvador”, diz, apontando para um dos lados da faixa de areia sem fim. Mas Olavo não se faz de rogado. Sobe as escadas que dão acesso ao calçadão, atravessa a rua e repete na nossa frente o que faz quase todos os dias. Com um galão de cinco litros e duas garrafas pet com água, que carrega no porta-malas do carro, banha-se bem no meio da rua. Assim, na base do improviso e do jeitinho brasileiro, o soteropolitano que frequenta as praias enfrenta um problema: a falta de chuveiros no litoral da capital baiana. Em toda a extensão da Orla Atlântica, de Itapuã ao Porto da Barra, não há uma estrutura sequer que jorre água doce. Não se pode tomar banho, lavar o rosto ou, simplesmente, limpar os pés. “Na orla de uma cidade turística como Salvador, debaixo de um sol de 40 graus, a gente tem que passar por isso. Não tem condições de ficar sem chuveiro”, afirma Olavo, injuriado. Em alguns casos, como o dele, a água serve muito mais do que para refrescar o juízo do banhista. Bem cedo, desportistas que praticam triátlon, corrida, canoagem e stand up paddle necessitam de água doce para quase tudo. Inclusive para tomar banho e ir direto para o trabalho.JeitinhosO pessoal do triátlon, que ao fim da natação precisa calçar o tênis para a corrida, improvisa com recipientes de plástico. Metem os pés na água que levam de casa. No final do treino, muitos fazem como o administrador André Leite, 48, que se banha com a água de um garrafão de dez litros. “Os chuveiros são muito necessários. Mas a gente quer algo organizado, que não agrida o meio ambiente e não fique jorrando água, como já aconteceu antes”, pondera.Esportistas praticam futvôlei na Pituba. Única opção de banho é o marDono de uma assessoria esportiva, o professor de educação física Rafael Peralva leva água doce em grandes galões para seus alunos. Recentemente, encomendou um chuveiro portátil. “É daqueles que você bombeia e a água cai. Tô só esperando ele chegar. Se a prefeitura não resolve, a gente tem que dar um jeito”, critica Peralva. >
A galera da canoagem e do stand up também carrega água em garrafas pet no fundo dos veículos. É assim que a relações públicas Luiza Melo, 31, consegue lavar o remo da canoa e os pés, antes de entrar no carro. “Sem chuveiro, fica muito complicado”, diagnostica. Em Armação, a turma do vôlei se vira com uma mangueira.>
Isso mesmo: uma mangueira. Uma bomba elétrica faz a água surgir no meio da areia. “Além do banho, precisamos molhar a quadra, e a orla não tem a mínima estrutura. Pago à Coelba pelo que gasto”, diz a professora de vôlei de praia Gal Campos, 57.>
Criançada>
Para o banhista comum, pode não parecer tão importante, mas é igualmente desconfortável ficar sem tomar banho de água doce. A criançada é a que mais sofre. Mãe de Malu e Juan, de 7 e 3 anos, a jornalista Camila Vieira, 33, só vai à praia de Patamares levando água potável de casa. >
“É um transtorno. Quem vem com criança sofre ainda mais. O sol forte e a água salgada castigam demais. Eles precisam de água doce para amenizar o calor”, argumenta.Com o fim das barracas, a coisa piorou muito. Os barraqueiros instalavam tubulações e puxavam água de poços artesianos. “Era água salobra, mas pelo menos quebrava o galho. Melhor do que nada, como está hoje”, compara o professor Olavo. >
No Porto da Barra, os que fazem esportes lembram que, há alguns anos, alguns chuveiros chegaram a ser instalados pela prefeitura. “Mas viraram alvo dos vândalos e usuários de drogas. Eles tomaram conta e até roubaram as peças do chuveiro”, lembra o administrador André Leite.>
Solução>
Para resolver o problema, banhistas e esportistas estão dispostos a pagar. “Minha sugestão é colocar chuveiros pagos. Poderiam ser instalados em postos cercados e a gente pagaria R$ 0,50 ou R$ 1 por um banho”, afirma o professor de educação física Diogo Andrade. “Não adianta o poder público colocar chuveiro se não tiver manutenção e segurança”, completa André Leite. >
O CORREIO procurou diversas vezes a Secretaria Municipal de Desenvolvimento, Cultura e Turismo e a Casa Civil Municipal para saber sobre eventuais planos para a implantação de chuveiros na orla, sem sucesso. >
Por fim, a prefeitura informou, por meio da assessoria, que a implantação dos equipamentos “está em fase de estudo”. No projeto de requalificação da orla, apresentado em junho do ano passado pelo prefeito ACM Neto (DEM), também consta a implantação de novos chuveiros nos calçadões.>