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Millena Marques
Publicado em 21 de março de 2026 às 05:30
Antes das pista asfaltada e do terminal moderno do Aeroporto Internacional de Salvador, a capital baiana teve na água a sua principal porta de entrada aérea. Instalado na Ribeira, na Cidade Baixa, o hidroporto marcou uma fase de transição tecnológica e colocou a capital baiana em conexão direta com o Brasil e o exterior. >
De acordo com o historiador Ricardo Carvalho, o equipamento começou a ganhar forma ainda na década de 1930, em um contexto em que a aviação mundial buscava alternativas para superar a falta de infraestrutura terrestre. “Era um momento em que os aviões tinham limitações para pousar em pistas curtas e irregulares. As águas abrigadas da Baía de Todos-os-Santos ofereciam uma solução natural e eficiente”, explica.>
Hidroporto da Ribeira
Apesar de não ter sido o primeiro aeroporto no sentido estrito, o hidroporto da Ribeira foi o primeiro a operar de maneira contínua e relevante na cidade. “Mais do que uma infraestrutura, ele simbolizou a entrada de Salvador na modernidade”, afirma o historiador.>
Antes dele, Salvador tinha apenas pistas de terra em fazendas e áreas abertas. "Sem muitas referências históricas dos locais com precisão", diz Carvalho. O primeiro campo de pouso documentado de Salvador foi o antigo Aeroporto de Santo Amaro de Ipitanga que foi implantado, em 1925, no mesmo sítio onde hoje está hoje o Aeroporto Internacional de Salvador Deputado Luís Eduardo Magalhães.>
Os protagonistas dessa história eram os hidroaviões — aeronaves equipadas com flutuadores ou casco adaptado, capazes de pousar suavemente no mar. A Enseada dos Tainheiros, com águas mais calmas, favorecia esse tipo de operação.>
Empresas como a antiga Panair do Brasil utilizavam o espaço para conectar Salvador a cidades como Rio de Janeiro e Recife. Em alguns casos, as rotas iam além do território nacional, inserindo a capital baiana em circuitos internacionais.>
Durante a Segunda Guerra Mundial, essa posição ganhou ainda mais relevância. O Nordeste brasileiro ficou conhecido como “trampolim da vitória”, e Salvador passou a integrar rotas com interesses estratégicos e logísticos. “O hidroporto não era apenas civil, ele também fazia parte de uma engrenagem global”, destaca Carvalho.>
Viajar de avião naquela época estava longe de ser algo comum. O custo elevado e o caráter ainda experimental da aviação tornavam o acesso restrito a uma parcela pequena da população.>
“Era um ambiente frequentado majoritariamente por elites econômicas, autoridades e personalidades públicas”, explica o historiador. Entre os nomes que passaram pelo local estão o então presidente Getúlio Vargas e o ator Errol Flynn.>
Para a maioria da população, no entanto, o hidroporto era mais um espetáculo do que um meio de transporte. A descida dos aviões sobre o mar atraía curiosos à beira da praia. “Enquanto poucos embarcavam, muitos assistiam. Era a modernidade acontecendo diante dos olhos, mas ainda distante da realidade da maioria”, resume.>
A presença do hidroporto também impactou o cotidiano da Ribeira. O fluxo de passageiros, tripulações e agentes públicos estimulou o comércio local, fortalecendo bares, restaurantes e pequenos serviços. Além disso, o som dos motores e a movimentação das aeronaves alteraram a rotina de um bairro até então tranquilo.>
O fim do hidroporto não aconteceu de forma abrupta, mas gradual. Com o avanço tecnológico, aviões maiores e mais rápidos passaram a exigir pistas terrestres mais longas e infraestrutura mais complexa. “Os hidroaviões, que antes eram solução, passaram a ser uma limitação operacional”, explica o historiador.>
Apesar das transformações urbanas, ainda existem vestígios do antigo hidroporto na Ribeira. A estrutura original permanece, embora tenha sido adaptada ao longo do tempo para outros usos, como atividades náuticas.>
Para Ricardo Carvalho, o espaço poderia ganhar nova vida como equipamento cultural. “Há um potencial enorme para se transformar em memorial ou ponto de visitação. É um capítulo importante da história da cidade que merece ser preservado”, defende.>
O Aeroporto Internacional de Salvador - Deputado Luís Eduardo Magalhães, principal campo de pouso da cidade atualmente, tem suas origens em 1925, passando por reconstrução importante em 1941. O terminal de passageiros atual foi inaugurado em 1998, ano em que recebeu o nome atual em homenagem ao político baiano, filho do ex-governador da Bahia Antônio Carlos Magalhães (ACM).>