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Thais Borges
Publicado em 29 de março de 2017 às 04:30
- Atualizado há 3 anos
Imagine fazer um tour pela Salvador do século XIX. Como guias, ilustres como Castro Alves, Ruy Barbosa, Xisto Bahia, Carlos Gomes... É verdade que ainda não inventaram máquina do tempo, mas isso não impede que a visita aconteça.>
Esse olhar sobre o passado é justamente a proposta da historiadora Maria Antonia Lima Gomes: a partir da visão histórica, ela se inspirou para criar o projeto do Museu Virtual Teatro São João da Bahia. Esse olhar é parte de sua tese de doutorado no programa Educação e Contemporaneidade na Universidade do Estado da Bahia (Uneb). >
E, no projeto do Museu Virtual, o teatro é totalmente simulado e recriado em 3D. Mas não só ele: tem os grandes personagens da história da Bahia, a Ladeira da Montanha, o bonde, os hotéis... E tudo que existia antes da área onde, hoje, ficam a Rua Chile, o Cinema Glauber Rocha, o Fera Palace Hotel. Basta girar o cursor do mouse e usar as setinhas de direção para voltar ao passado. Dá até para dialogar com os personagens que lá viviam. >
O museu, na verdade, é um software que pode ser baixado gratuitamente no site oficial do projeto. Na aba “download”, basta escolher o sistema operacional de seu computador - Windows, Mac ou Linux - e clicar para instalar. O site do projeto foi lançado este mês, mas a tese será defendida em junho. >
“O Teatro São João é importante porque reflete na nossa rotina hoje, mesmo que a gente não saiba. A gente não entende como algumas coisas chegam até nós hoje, mas elas chegam porque alguém propagou. É óbvio que muitos outros espaços contribuíram para a nossa cultura hoje, mas o teatro ganhou um certo destaque nesse aspecto”, explica Maria Antonia. Imagens em 3D fazem parte da tese de doutorado da historiadora Maria Antonia Lima Gomes(Foto: Betto Jr./CORREIO)Teatro na históriaPara os que não puderam ver, o Teatro São João ficava onde hoje está o Palácio dos Esportes, na Praça Castro Alves. Construído no início do século XIX, foi o primeiro teatro de ópera do país. Toda a vida cultural, política e artística de Salvador, segundo Maria Antonia, esteve intimamente ligada a ele, de alguma forma, por mais de 100 anos. Foi assim até que o espaço fosse completamente destruído por dois incêndios em 1923.>
“Embora tenha sido um projeto de uma classe senhorial que existia na época, o teatro, com o tempo, acabou refletindo toda a questão cultural de Salvador, tudo que vinha do caldeirão cultural que nós somos. O Lundu (gênero musical que deu origem ao samba) saiu das ruas, por exemplo, e foi para dentro do teatro”, conta a historiadora. >
Por isso, o compositor Xisto Bahia é retratado no museu. Castro Alves, outro dos personagens icônicos, declamava lá. O maestro Carlos Gomes também se apresentava lá, enquanto Ruy Barbosa declamava suas ideias políticas - não do palco, mas dos camarotes. >
Naquela época, quem queria ver e ser visto pela sociedade tinha duas opções: ir à igreja ou ir ao teatro. “O São João passou a ser um polo difusor do que acontecia em Salvador. Pelo seu porte, ele coaduna essa cultura que estava fora (do teatro) e que vai ser difundida. Ele acabou refletindo o que existia na cidade”, completa a historiadora. >
Foi assim também com o Carnaval: foi no São João que começaram os primeiros bailes de Carnaval de salão. Décadas depois, quando a festa começou a ir para as ruas, as pessoas ainda recorriam aos camarins do teatro para alugar figurinos - quase como o costume de alugar fantasias hoje. >
Visão culturalSeja nas aulas como professora de História nas redes municipal e estadual em Salvador, seja na pesquisa no doutorado, Maria Antonia sempre acreditou que as respostas às questões de hoje estão nos nossos costumes, na nossa cultura e nas nossas tradições. "E tradição e costume não se adquire agora. Elas vêm da história de vida de cada pessoa”, diz, relacionando a história da Bahia ao São João. >
Mas o trabalho, que ficará no ar, não é imutável. Pelo contrário: as pessoas poderão fazer contribuições. “A partir da interação da comunidade, vamos ter um retorno se realmente a ambiência de Salvador no século XXI está servindo para o propósito da tese, que é uma abordagem sócio-construtivista com a modelagem 3D”, explica. No projeto, Maria Antonia conta com orientação dos professores Alfredo Matta, da Uneb, e co-orientação do professor Lucas Robatto, da Ufba.>