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Kátia Borges
Publicado em 18 de fevereiro de 2023 às 05:00
- Atualizado há 3 anos
Que esta é uma festa da carne, todo mundo já sabe. E muitos pensam que, justamente por essa razão, o povo das letras quer mais é distância da avenida. Mas será que é mesmo verdade esse bilhete? Fomos atrás de alguns intelectuais baianos para saber um pouco mais sobre essa história de que a literatura não combina com o som das guitarras elétricas de Armandinho ou da BaianaSystem. No bloco formado pelos poetas, contistas, editores, romancistas, curadores, cada um tem uma história de infância relacionada à maior aglomeração festiva do planeta para contar. São relatos que se equilibram entre o confessional e o onírico, com uma boa dose de lirismo no meio, bem ao estilo da crônica Restos de Carnaval, de Clarice Lispector, que foi a inspiração dos textos abaixo. Confira:>
Josélia Aguiar (Foto: Arisson Marinho/ CORREIO) Apaches do Tororó>
“Lembro de ter visto pela primeira vez um grupo de mascarados que me despertaram muito pavor nas ruas do bairro onde vivia, eu era bem criança. Lembro também de ter visto um trio elétrico pela primeira vez na Avenida Sete de Setembro. Estava acostumada à sua imagem pela TV, mas ao vivo o impacto era outro. Mas a lembrança de carnaval mais inesquecível de minha infância aconteceu quando eu tinha entre nove e dez anos e minha família tinha se mudado para uma casa na Rua Joana Angélica, na altura da entrada do Tororó. Era tarde da noite, estávamos já deitados em nossos quartos, quando começamos a ouvir uma música inesperada e que se alongava. A multidão usando cocares integrava o bloco Apaches do Tororó e descia lentamente, seguida por carros de som, em direção ao local dos desfiles. O que me impressionava era a beleza e a força de um jeito tão atípico de brincar o Carnaval. Era um caso muito sincero e político de trazer a questão indígena para a festa, e não apenas um grupo de pessoas com caracterização indígena. Ou seja, mesmo naquela época, quando não se tratava ainda tão seriamente dessa causa (como hoje), eu entendia que ali estavam protestando a favor das vidas indígenas e formas de cultura que estavam sob ameaça.”>
Josélia Aguiar é escritora, editora e curadora literária, autora de Jorge Amado, uma biografia, vencedor do Jabuti 2019.>
**** Clarissa Macedo (Foto: Acervo pessoal) Fitinha do Bonfim>
“Era algum horário de sol a pino num dia de carnaval da década de 90. Meu dedo indicador direito passeava pela fita do Senhor do Bonfim rosa-choque que morava no punho esquerdo. Ao som de “Porto Seguro”, eu olhava tudo – especialmente as pessoas, em alegria inocente, aquela inocência devassa que só o carnaval dá. Meus pais tomavam cerveja com amigos, e eu ficava lá, pertinho deles, olhando, ouvindo, tendo como guia e protetor a fitinha, que de tão surrada era já finíssima. Depois que o Asa passou, com resoluta multidão, notei a diferença de cor no meu braço, agora com uma marca na pele, mais clara do que a do restante do corpo: a fitinha havia sumido. Fiquei desapontada comigo mesma por não ter zelado melhor pelo meu amuleto. Fiquei um pouco temerosa também. Perder a fita teria sido um sinal? Depois daquele ano, eu e meus pais não voltaríamos a partilhar o carnaval”.>
Clarissa Macedo é poeta, autora de A casa mais alta do teu coração, vencedor do prêmio Biblioteca Pública do Paraná 2021, que será lançado em março em edição da Laranja Original.>
**** Gonçalo Júnior (Foto: Acervo pessoal) Discoteca particular>
“O carnaval costuma marcar nossa memória afetiva tanto quanto outras festas populares como São João e Natal. O da minha infância se deu no interior, Guanambi, onde, percebo só hoje, era uma festa da elite, do Carnaval de Clube, para associados de classe média para cima. Não havia povo, só nós. E fui um privilegiado em dose tripla. Além de poder entrar nesses lugares, a trilha sonora dos dois clubes era as antigas marchinhas que atravessavam gerações. O melhor, porém, era lá em casa, onde meu pai cuidava do som ambiente com esmero, em meio à sua discoteca maravilhosa. Ouvia-se por semanas, para entrarmos no clima, Orlando Silva, Carmen e Aurora Miranda, Francisco Alves, Dorival Caymmi e Noel Rosa. Marcou tanto que ouço em casa até hoje. Aos 12 anos, fui morar em Salvador, no começo da década de 1980, onde acompanhei o nascimento da axé music e a imposição das cordas pelos ricos blocos de trios empesteados de brancos ricos. Uma ditadura da tal alegria que literalmente atropelou o povo que brincava solto na rua. Mas essa é uma longa história”>
Gonçalo Junior é escritor, editor e pesquisador de cinema, música, jornalismo e quadrinhos, autor de quarenta livros de não ficção.>
**** Rita Santana (Foto: Acervo pessoal) Os caretas de Ilhéus>
“Com alguma tristeza, confesso: não sou uma foliã! Cenas primordiais da infância, já com nódoas amareladas, talvez expliquem o meu fracasso momesco. Ainda muito menina, eu e as minhas duas irmãs estávamos sentadas na porta de vô Euclides, em Ilhéus, quando avistamos um grupo de Caretas. Era um espetáculo colorido e mágico, entretanto, o grupo veio em nossa direção para nos assustar, e conseguiu. Fui traída. Houve um Carnaval em que Mainha e tia Dadá decidiram levar a criançada para viver a festa e a minha irmã caçula, Ester, perdeu-se. Uma profusão de pernas, risos, caras, agonia, dor, solidão e tumulto são purpurinas de cenas que ainda respingam em minha memória. Mais tarde, ela seria encontrada por mainha, em meio à ala de uma escola de samba, dançando entre os passistas. Em mim, apenas o seu desaparecimento, sou a irmã mais velha!”.>
Rita Santana é poeta e atriz. Autora, entre outros, de Cortesanias, livro que reúne poemas inéditos lançado em 2019 em edição da Caramurê.>
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Lima Trindade (Foto: Acervo pessoal) Sem indícios de Momo>
“Estar em Brasília no início dos anos setenta era mais estranho e sinistro do que ler o caso do bebê de tarlatana rosa, narrado por João do Rio, no livro Dentro da Noite. Eu tinha uns seis anos e olhava a rua por trás da janela da sala sem encontrar indício de Momo, batuque ou serpentina. Minha mãe sintonizava um samba no rádio. Podia ser Chico. Podia ser Elza. Em seguida, pegava meu irmão, dois anos mais novo, no colo, e juntos dançavam. Do lado de fora da casa, o vento levantava uma poeira vermelha. Era preciso colocar um pano no pé da porta pra ela não entrar. Meu pai havia viajado para Manaus, a trabalho, fazia mais de um ano. O contraste entre a realidade da rua e a anunciada no jornal da televisão, onde os cordões de foliões tomaram as avenidas alegremente, doía. Não adiantava abrir a porta, sentar-se no degrau do alpendre e esperar pela aventura de pierrôs e colombinas. A poeira encardia nossa roupa e logo um adulto vinha nos puxar de volta para dentro. Eu não entendia a razão para tanta pressa, mas sentia em seus olhos medo. A meninada no jardim de infância sempre me perguntava quando terminaria a viagem do meu pai. Eu costumava me sentir triste nessa época. Naquele Carnaval, contudo, quando vi minha mãe dançar com meu irmão no colo, mesmo despidos da mais ordinária das fantasias, meu coração, antes azul, se alegrou”.>
Lima Trindade é escritor e poeta. Autor, entre outros, do romance As margens do paraíso, lançado em 2019 pela editora Cepe.>
**** Nívia Maria Vasconcelos (Foto: Acervo pessoal) Desfile das escolas de samba>
“Há décadas que, em minha cidade natal, Feira de Santana, acontece apenas o carnaval fora de época, a chamada Micareta. Para os que moram em Feira, restaram alguns bailinhos infantis nas escolas ou, se quisessem curtir o carnaval mesmo, tinham que ir para Salvador, que já estava tomada por trios elétricos. Minha família nunca viajava, a nossa tradição era nos reunirmos em frente da TV para acompanhar a transmissão do desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro. Eram dias nos quais podíamos dormir tardíssimo e fazer aquela algazarra, cada um torcendo para sua escola predileta. Não cabíamos todos no sofá, tomávamos o chão com colchonetes e ficávamos amontoados entre travesseiros e algumas comidinhas. Era um sonho de cores e alegrias em que toda nudez era perdoada. Lembro que eu torcia muito pela Mocidade, e meu pai, pela Mangueira. Um dos desfiles que mais me marcaram foi da Beija Flor, “Do lixo ao Luxo”, do carnavalesco Joãosinho Trinta, memorável aquele monumento coberto de sacos com uma faixa com os dizeres “Mesmo proibido, olhai por nós”.>
Nívia Maria Vasconcellos é poeta, romancista e letrista. Autora, entre outros, do livro Cãibra de nó, vencedor do Prêmio Jorge Portugal e lançado em 2021.>
**** Luís Pimentel (Foto: Acervo pessoal) Micaretas de Feira>
“Os carnavais de minha infância aconteciam fora de época (geralmente em abril e chamavam-se Micareta). Eu vivia em Feira de Santana, de onde quem tinha condição partia para Salvador em fevereiro e voltava contando maravilhas dos agitos na Praça Castro Alves, no Terreiro de Jesus, na Barroquinha, no Porto da Barra (ainda não existiam os famosos e estranhos “circuitos”). Quem não podia esperava a folia – fora de época – animada pelos trios elétricos importados da capital. O bairro em que eu morava era dos mais carentes, e as “boas lembranças do Carnaval” não são tão boas assim, infelizmente: pequenos marinheiros e pequenas colombinas passando lindos e garbosos a caminho dos bailes infantis no Feira Tênis Clube ou na Euterpe Feirense, onde eu não tinha ingresso; meninos mais destemidos na rota do empurra-empurra dos trios; a decepção por não ter uma fantasia ou alegoria apropriada – teve um ano que ganhei uma máscara (chamava-se careta) de diabo, mas achei horrorosa. Mas como nem tudo neste mundo é fora de época, um dia cresci e fui morar no Rio de Janeiro, onde por dever de ofício ou paixão redescoberta acabei mergulhando em avenidas e blocos e bandas e enredos de tirar o fôlego”.>
Luís Pimentel é escritor. Autor de mais de quarenta títulos em gêneros diversos. Em 2021 venceu o prêmio português Ferreira de Castro com o livro de contos Ainda tem Sol em Ipanema, publicado no Brasil pela editora Faria e Lima.>
**** Aleilton Fonseca (Foto: Acervo pessoal) A última festa>
“O Carnaval me fascinou desde cedo. Em Ilhéus, aos 9 anos de idade, fui levado à avenida Soares Lopes, e assisti ao desfile de blocos, "caretas", afoxés e as duas escolas de samba da cidade. Uma fascinação. Não perdia um Carnaval, ia dos blocos aos trios e aos bailes de clubes. Aprendi música. Toquei marchas, ao saxofone, em blocos e bailes. Aos 20 anos, mudei-me para Salvador. Aí virei seguidor do Trio Dodô e Osmar e adotei a Praça Castro Alves, e todo ano amanhecia na avenida. Em 1984 brinquei meu último carnaval. Descobri que o Reino de Momo crescera demais e perdera a inocência. Tentei. Mas vi que a festa já não era tão lírica, nem segura, nem acolhedora. Já não encontrava amigos e amigas como antes. Ficava "amassado" no meio da massa. Melhor ver na TV. Então me recolhi aos carnavais da memória e nunca mais fui folião”>
Aleilton Fonseca é poeta, ficcionista e ensaísta. Autor, entre outros, do poema épico A Terra em Pandemia, editado pela Mondrongo e finalista ao Jabuti 2021.>
**** Escritora Ângela Vilma Entre confetes e serpentinas>
“Eu tinha oito anos e pulei atrás do trio elétrico. De mortalha, com as mãos cheias de confetes e serpentinas. O trio elétrico era um caminhão velho, bastante antigo, que a prefeitura guardava para essas ocasiões. Nele, três músicos que a Sociedade dos Garimpeiros doava para fazerem o carnaval: um tocava bandolim, outro violão, outro batia (com uma faca) num prato. Não tinha vocalista. Só um sonzinho miúdo, eles sentados num banquinho em cima do dito caminhão, dando mil e uma voltas nas ruas até o anoitecer, numa animação melancólica. Na verdade, era no clube – Andaraí Social Recreativo, que eu preferia soltar confetes e serpentinas e garantir minhas puladas. Mãe e pai levavam eu e minha irmã, vestidas em nossas mortalhas. Eu gostava de notar as serpentinas unindo as pessoas num nó, e de perceber os confetes grudando em seus cabelos. Havia algo mágico, feérico, nisso. As músicas saíam da voz de uma radiola mais ou menos potente, com imensas caixas de som em cada lado do recinto. Os frevos e as músicas pulantes nos deixavam suadas de tanta felicidade. Hoje eu não saberia acompanhar o trio elétrico, nem que fosse o velho caminhão da prefeitura. Muito menos pular no clube. Pois não sei se ainda há a iluminação mágica dos confetes e a união, o nó, que, à nossa revelia, proporcionavam as serpentinas”. >
Ângela Vilma é poeta e cronista. Autora, entre outros, dos livros Talvez um blues, pela editora Patuá, e Aeronauta, pela Mondrongo.>
**** Tiago de Oliveira (Foto: Divulgação) Sobre os ombros>
“Lembro que painho me colocava sentado em seus ombros e o menino atravessava a avenida com o coração na garganta. A multidão passando, a vibração do trio elétrico batendo no corpo, bombeando como faz o coração, rua após rua no ritmo de Sarajane, Luiz Caldas, Cheiro de Amor, Banda Eva, Daniela, Olodum, tantos, tantos outros. Mas quando a Banda Mel apontava longe cantando, “Já pintou verão, calor no coração” , eu tinha a certeza de que o verão duraria para sempre em Salvador. Minha imaginação infantil me transportava para o dia em que seria eu lá em cima do trio, cantando, vendo o povo dançar. Doce ilusão. Voltávamos de Brasília amarela ouvindo na fita k7 o que deixaria saudade. A adolescência foi toda de Arembepe, dos acampamentos de carnaval em que tocava no violão, sentado ao redor da fogueira, um repertório com os melhores refrões baianos. Era a mesma vibração, o mesmo coração”.>
Tiago D. Oliveira é poeta. Autor, entre outros, de Soprando o vento, livro vencedor do prêmio João Ubaldo Ribeiro em 2022, editado pela Caramurê. Em 2020, foi finalista ao Oceanos, com o livro As solas dos pés de meu avô (Patuá).>