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Da Redação
Publicado em 13 de janeiro de 2011 às 06:18
- Atualizado há 3 anos
Bruno Menezes, Lais Vita e Sylvio QuadrosEle já experimentou o arreio e os enfeites que vai usar para chamar a atenção e protestar contra a decisão judicial que proíbe jegues e outros animais na maior festa religiosa da Bahia que celebra o Senhor do Bonfim e começa amanhã, com a tradicional Lavagem. Como uma liminar concedida ontem pelo juiz Ruy Eduardo Almeida Brito, da 6ª Vara de Fazenda Pública da Bahia, determina “a proibição da participação de carroças conduzidas ou puxadas por animais”, o promotor de turismo Moysés Cafezeiro, 55 anos, decidiu ser ele mesmo o puxador da carroça. “E, em cima dela, vou levar o meu jegue, Pagode, que chegou de escuna hoje a Salvador só para a festa. Acho um absurdo essa decisão. Não há nenhuma prova ou testemunho de que qualquer animal tenha sido torturado ou maltratado ou com sobrepeso”, desabafa Cafezeiro, que construiu um tablado para “puxar” seu jegue enfeitado pelos oito quilômetros de percurso.>
Moysés Cafezeiro, diz que ele mesmo puxará a carroça onde levará o jegue PagodeSegundo o juiz Ruy Brito, a decisão foi necessária para evitar que os jegues sejam maltratados, apesar de, pessoalmente, gostar da participação dos animais na festa. “Não sou contra os animais na festa. Mas, eles precisam de cuidados. É preciso que haja fiscalização e, como no ano passado não houve, este ano decidimos dessa forma. Mas, ainda cabe recurso”.O juiz Ruy Brito fez ainda uma comparação para esclarecer o que ele considera como ideal para que os animais sejam liberados. “Quando você compra um carro, você não faz uma vistoria? Se você vai viajar, faz a checagem de acessórios necessários. É o que deveria acontecer com os animais. Verificar se os arreios estão de acordo, se a ferradura é adequada, se ele foi alimentado”, completou o juiz.O cantor Luís Caldas saiu em defesa dos jegues e dos outros animais que sofrem com maus-tratos. “O animal não tem nada a ver com essa festa. Nenhum animal tem a ver com esse tipo de balbúrdia. Uma coisa é tradição. Outra é insistir num erro. Ninguém convida o jegue, nego leva mesmo. Ele não tem direito nem de escolher o traje”, reclama.PRISÃOA decisão liminar prevê pena de prisão imediata para quem levar animais para a procissão. Como desrespeitar lei judicial é crime de menor potencial ofensivo, quem for detido será levado para a delegacia, fichado e liberado em seguida. Cabe ainda aplicação de multa, fixada pelo juiz no valor de R$ 90 mil. “O dinheiro, ainda não decidi, deve ir para organizações que cuidam de animais, não necessariamente as mesmas que entraram com a ação”, esclarece Brito.Caso a pessoa seja flagrada em situação de maus-tratos contra os bichos, elas podem ser presas e, se condenadas, pegar mais de cinco anos de prisão. “Não pode existir uma cultura baseada na crueldade e contra a Constituição. Se houver isso, é um desrespeito à Justiça. Se ele estiver sobre a carroça, continuará cometendo maus-tratos”, reclama a advogada Alessandra Brandão, representante da Comissão de Proteção e Defesa dos Animais da OAB-Bahia.FISCALIZAÇÃO A decisão judicial que proíbe a participação de jegues e outros equinos na Lavagem do Bonfim também determina que a prefeitura de Salvador, através da Empresa de Turismo de Salvador (Saltur), fiscalize todo o percurso, para que não haja descumprimento da liminar expedida na manhã de ontem. Caso não haja fiscalização, como determina a decisão, a prefeitura também poderá ser responsabilizada pelos maus- tratos contra os animais.O juiz Ruy Brito determinou ainda que o Comando Geral da Polícia Militar fosse notificado da decisão, para que a PM possa colaborar na fiscalização e efetuando as prisões necessárias. Ao todo, 2.500 policiais farão a segurança em todo o trajeto por onde passarão os fiéis. O MP também foi notificado para que nomeie um promotor para acompanhar o processo.A promotora Hortência Gomes Pinho, substituta da 2ª Promotoria do Meio Ambiente e designada para o caso, informou que não foi intimada oficialmente para acompanhar o andamento do processo e que desconhece o teor da decisão. No entanto, pelo pouco conhecimento do caso que tem através dos jornais, ela garante que não há motivos para polêmicas. “Nunca vi o processo, nunca vi a ação. Mas, aparentemente, não há ilegalidade e, por isso, não vejo razão para a prefeitura recorrer da decisão”, explicou.A prefeitura informou na noite de ontem, através da Vigilância Sanitária e do Centro de Controle de Zoonozes, que contará ainda com apoio da Transalvador e da Polícia Militar para fazer a fiscalização determinada pela Justiça, no intuito de impedir a participação de carroças conduzidas por animais na festa da Lavagem do Bonfim. Em nota , a prefeitura garante que o responsável por levar o animal para a festa será notificado e, caso não o recolha imediatamente, o bicho será levado para o Centro de Zoonozes. Contudo, a Procuradoria Geral do Município informou que recorrerá da decisão judicial, mas que das 45 entidades inscritas para o cortejo oficial, só duas se credenciaram para utilizar carroças.Morando em São Paulo, a baiana Tânia Simões vem todo ano participar da festa: “Não perco uma”>
Reencontro hoje da fé com profano no BonfimHoje é dia do reencontro da fé com o profano nas ruas de Salvador. A famosa Lavagem, no seu caráter afro-religioso e ecumênico, volta a trazer para a cidade o sincretismo de sua gente: pessoas tão diferentes na idade e fisionomia quanto na condição econômica e preferência religiosa. >
O cortejo, cheio de sincretismo, já conquistou espaço definitivo no coração do baiano; mais popular até do que a tradicional Festa do Bonfim, celebrada nesse domingo. E se faltam as carroças enfeitadas, hoje devem sobrar as tradicionais baianas com seus vasos de água de cheiro, o povo, cheio de ânimo para o cortejo, e, claro, a tradicional bebedeira da Lavagem.A programação começa às 8h30, na Igreja de Nossa Senhora de Conceição da Praia, quando será realizado um ato inter-religioso com membros das igrejas católica, batista e de outras religiões. A tradicional procissão tem início às 9h, saindo da Conceição da Praia (Comércio) em direção ao Bonfim. No fim da manhã, as baianas lavam as escadas da Basílica com água perfumada. No total, os participantes percorrem cerca de 8 km. Gente como a baiana Tânia Simões, 60 anos, que mesmo radicada em São Paulo não perde a festa por nada. “Todo anos estou aqui”, disse ela, enquanto amarrava uma fita do Senhor do Bonfim no gradil da igreja.>
O governador Jaques Wagner, ACM Neto, Geddel e César Borges já confirmaram presença. Para evitar um caos no trânsito, a Transalvador montou um esquema especial para garantir a fluidez do tráfego de veículos na cidade. Haverá também linhas especiais de ônibus e um plantão especial nos postos de saúde da região.>
Preparação de baianas começa bem antes da tradicional Lavagem>
Baianas se preparamQuem assiste ao cortejo florido das baianas de acarajé, no dia da Lavagem do Bonfim, não imagina o trabalho que dá perfumar o caminho com a água de cheiro típica da comemoração. “Nem durmo direito, na expectativa. Tenho medo de perder a hora”, diz Marialda de Oliveira Soares, que, aos 54 anos, já perdeu as contas de quantos desfiles completa esse ano, mas sabe que foram “mais de 20”. A preparação começa bem antes, com a compra dos ingredientes para o Banho de Amaci (ervas) e das flores, na feira das Sete Portas. Na manhã do cortejo, folha de levante, mirra, manjericão, folha da costa, arruda e macaçá são misturadas em uma bacia com água e despejadas sob o corpo depois do banho comum, para fazer o “descarrego” e abrir os caminhos. “O banho protege do mau olhado e da inveja”, diz a baiana.>