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Alexandre Lyrio
Publicado em 15 de dezembro de 2013 às 08:58
- Atualizado há 3 anos
O almoço está servido e elas estão com fome. São sete mulheres ansiosas para comer e conversar. Mas se você pensa que elas vão falar de maquiagem, sapatos e esmalte, precisa mudar seus conceitos. Até porque, o almoço em questão é servido em quentinhas de isopor e acontece no Departamento de Polícia Metropolitana (Depom), na Praça da Piedade.Impecavelmente vestidas, as sete delegadas do Depom abdicam do horário do almoço e comem ali mesmo, enquanto debatem investigações e questões administrativas. Certamente, este é o departamento da Polícia Civil que melhor representa um levantamento que consta no Perfil da Segurança Pública, do Ministério da Justiça. Jussara, Cristina, Marjorie, a diretora Iracema, Rosimar, Albertina e Eliane. As sete mulheres do Depom estão entre as 389 delegadas da BahiaNa Bahia, revela o Perfil, 44% do quadro de delegados é composto por mulheres - o maior percentual do país. Os números são de 2011, mas, confirma a polícia baiana, continuam atuais – são 495 homens e 389 mulheres. >
À frente das outras seis delegadas do Depom, e de dois delegados que completam o time, Iracema Silva de Jesus tem o comando nas mãos.>
Apesar da blusa rosa, óculos lilás e unhas pintadas de marrom, sua organização e ritmo alucinante chamam muito mais atenção. >
O departamento que coordena é responsável pelas 45 delegacias territoriais de Salvador e Região Metropolitana (RMS), além de quatro delegacias especializadas e os postos policiais de hospitais e aeroporto. Isso talvez explique a quantidade de papéis em sua mesa e o fato de ter interrompido a entrevista sete vezes para atender ligações e demandas internas.>
Conhecida por ser “ligada no 220”, Iracema faz tudo ao mesmo tempo. Na “casa das sete delegadas”, conta com a ajuda de Marjorie Veiga, Rosimar Malafaia, Jussara Andrade, Albertina Machado, Cristina Portugal e Eliane Tourinho. “As mulheres são mais cartesianas, organizadas mesmo. Isso ajuda muito neste departamento”, observa a delegada, na polícia desde o início da década de 1980. Além da quantidade, não há dúvidas de que o quadro de mulheres à frentre das delegacias também tem qualidade. Boa parte delas faz parte da cúpula da Polícia Civil e coordena alguns dos mais importantes departamentos e unidades. Além de Iracema, que comanda o Depom, há mulheres à frente da Corregedoria da Polícia Civil, Polícia Interestadual (Polinter), Academia de Polícia (Acadepol) e o Departamento de Crimes Contra o Patrimônio (DCCP). >
Oncinha Basta conversar um pouco com a delegada Heloísa Campos, 41 anos, para qualquer um se impressionar. A blusa de oncinha da corregedora-chefe da Polícia Civil veste uma mulher de frases precisas e fino trato com as pessoas. Dessa forma, conduz com naturalidade um dos cargos mais ingratos de toda a Polícia Civil. Como investiga desvios de conduta e crimes cometidos pelos próprios colegas, Heloísa diz exercitar diariamente a paciência e sensibilidade. >
“Mudamos a cara da Polícia Civil. O grande ganho é quebrar essa coisa de força e brutalidade. A mulher tem a noção exata de que somos a polícia judiciária, científica e de investigação. Para isso não precisa bater ou extorquir um preso”, diz Heloísa, que virou delegada em 1996. Nesta época, então delegada da cidade de Ubaíra, era bem franzina. “Naquele tempo, as pessoas sempre esperavam encontrar com uma figura masculina. As pessoas chegavam dizendo: ‘Menina, chame o delegado aí’. Eu respondia: “Em que posso ajudar?”, conta Heloísa, que faz do trabalho um exercício eterno da conciliação. >
“Muitas das demandas da polícia têm origem em animosidades familiares ou brigas entre vizinhos, que mais tarde descambam para crimes graves. A mulher é mais conciliadora. Se a gente consegue enxergar um acordo na primeira entrada na delegacia, podemos evitar uma tragédia”. Portando sempre uma pistola .40, Heloísa garante levar a vida sem medo. Mas não se garante no armamento, e sim no respeito. “Quando o preso é tratado com respeito, ele também nos respeita”.>
De todas as mulheres da Polícia Civil, nenhuma foi mais poderosa que a delegada Emília Blanco, 63 anos. Hoje coordenadora do DCCP, que investiga e combate crimes contra o patrimônio, Emília chegou a ser delegada-chefe adjunta, cargo abaixo somente do delegado-chefe. Ela trabalhou com o delegado-chefe Joselito Bispo entre 2009 e 2010, quando se tornou chefe de gabinete do atual secretário da Segurança Pública, Maurício Barbosa. >
Este ano, Emília voltou para a sua grande paixão. “É no DCCP que sou mais feliz”. Após 27 anos de polícia, Emília definitivamente não gosta de diferenciações de gênero. “Nunca me vi como uma mulher na polícia. Me vejo como profissional”.>
Delegado-geral é o responsável pela indicação das colegasÉ a competência, o trabalho e a trajetória que fazem essas delegadas ocuparem o alto escalão na Polícia Civil. Mas, se todas estão lá, é por indicação do delegado-geral, Hélio Jorge da Paixão, que, com o perdão do trocadilho, se diz apaixonado pelo trabalho das mulheres. “O senso de organização e sensibilidade dessas profissionais impressionam. Escolhi cada uma delas porque é muito bom poder contar com sua capacidade, inteligência e sensibilidade”. >
Segundo o delegado-geral, a presença das mulheres na cúpula tem sido importante para se pensar maneiras de reduzir o avanço dos crimes de homicídio, por exemplo. “Muitas são estudiosas e têm mestrado”. Boa parte delas, garante Hélio Jorge, sempre se destacou na operação. “São pessoas que têm uma história dentro da polícia e com experiência nas ruas”. ‘Nunca seria outra coisa na vida’, afirma a titular da 1ª DelegaciaO toque feminino também se faz muito presente fora do alto escalão da Polícia Civil. À frente de delegacias territoriais, mulheres se destacam na operação. A 1ª Delegacia, nos Barris, responsável pelo Centro de Salvador, tem como titular a delegada Fernanda Porfírio. “Não seria nada que não fosse delegada. É sonho de infância”, diz. Mãe de um garoto de 15 anos, ela diz que as mulheres têm “um quê de sensibilidade”. “Mães de presos que chegam, mesmo sem querer, a gente cede”, revela Fernanda, sabendo que tem um abacaxi nas mãos. “É uma delegacia vitrine. Centro Histórico, shoppings, bancos, prostíbulos e bares, sem falar no Carnaval”. Tida como linha-dura, a titular da 1ª DP garante que o tempo lhe deixou mais serena. “Falam que sou porradeira, mas Fernanda antes achava que podia tudo”.>
Major da PM é única mulher oficial superiorEnquanto a Polícia Civil tem muitas mulheres ocupando cargos de chefia, a Polícia Militar ainda tem poucos exemplares femininos na alta hierarquia. Entre os chamados oficiais superiores - major, tenente-coronel e coronel -, há apenas uma única mulher. Ana Fernanda Dantas, 48 anos, está na PM desde 1994. >
Prestou concurso para oficial de saúde, o primeiro com vagas para mulheres. Para ser promovida, passou inclusive por cursos de sobrevivência no Batalhão de Choque. Médica pediatra, em 2001 foi promovida a capitã. Ficou no posto por quatro anos até passar por um curso de especialização em segurança. >
Em 2011, virou major e se tornou a mulher de maior patente na PM-BA. Hoje coordena o planejamento médico do Departamento de Saúde. Respeitada, Ana Fernanda diz que jamais sofreu preconceito. “No máximo, as pessoas ficam espantadas”. No Corpo de Bombeiros, também há uma major, chamada Ana Fausta.>