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Victor Lahiri
Publicado em 12 de março de 2015 às 08:20
- Atualizado há 3 anos
A dona do Jangada, Nadir França, lamenta (Foto: Mauro Akin Nassor)“Acabou, né?”, comenta Eliene Novaes para um colega enquanto via uma retroescavadeira derrubar as paredes do Jangada, restaurante que lhe empregou no últimos três anos e foi ao chão depois de quase um ano de luta na Justiça.Reduto da boemia na orla de Itapuã, o Jangada foi demolido na manhã de ontem, junto com a casa de shows vizinha, o Língua de Prata, igualmente conhecida pelas noites de festa. O prédio do Língua de Prata já tinha sido parcialmente desmontado pelo proprietário e o bar já não funcionava. Além deles, foi demolido o Kiosque Brasil, que vendia artigos para presente no Largo de Itapuã.Ontem, o CORREIO mostrou o último baile do Jangada, derradeiro recanto da seresta no bairro após o Língua de Prata fechar e o Casquinha de Siri (Bali Beach, antes do fim) ser derrubado, em agosto de 2014.Quando o último bloco da parede lateral tombou, caíram as lágrimas de funcionários e da proprietária do Jangada, Nadir França, 57 anos, que assistiram à demolição. “O Jangada funciona aqui há mais de 30 anos, pertencia ao meu irmão e após o falecimento dele, eu assumi. Perdi a conta de quanto dinheiro investi aqui”, disse Nadir. O desfecho, porém, já era conhecido.A prefeitura de Salvador conseguiu, em fevereiro, derrubar a decisão liminar (provisória) da Justiça que mantinha os estabelecimentos de pé. Os dois bares e o quiosque, segundo decidiu a Justiça, ocupavam irregularmente uma área pública. O local agora será usado para abrigar um trecho da reforma da orla de Itapuã e Piatã, que prevê ciclovia, quiosques e espaço para roda de capoeira e apresentações culturais. Segundo a prefeitura, a obra será entregue até julho, e vai custar R$ 19,4 milhões.A equipe da Secretaria Municipal de Urbanismo (Sucom) chegou ao bairro por volta das 6h, com 25 homens, três retroescavadeiras, oito caçambas e quatro caminhões. Máquina derruba estrutura do Jangada (Foto: Mauro Akin Nassor)O primeiro alvo foi o Jangada, mas a demolição foi interrompida logo no início para que fossem retirados os móveis e produtos do restaurante, que funcionou até a noite da segunda-feira.“Nós não fomos avisados dessa demolição, ontem (anteontem) à noite o restaurante não funcionou, pois é nosso dia de folga, mas até segunda-feira tudo funcionou normalmente”, se queixou Nadir. De acordo com o diretor de fiscalização da Sucom, Murilo Aguiar, os representantes dos estabelecimentos foram notificados pela Justiça sobre a decisão judicial. O músico Jairo Santos, que há 21 anos se apresentava nos bares, reclamou. “Vai prejudicar a vida noturna do bairro, pois nós não temos mais opções de música ao vivo”, afirmou. Já o servidor público Hamilton Soares, 43, morador de Itapuã, gostou. “Beira de praia não é lugar para construção. Melhorou muito a vista”, disse.>