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Da Redação
Publicado em 20 de julho de 2010 às 09:03
- Atualizado há 3 anos
Alexandre Lyrio|Redação CORREIO>
O comprador do apartamento 203 do Edifício Guaratinga, no Pernambués, confere no relógio: são 18h de sábado. Por coincidência, não era o único a reservar o dia para sentir um pouco do cheiro de casa própria. Encontra-se com outros futuros condôminos na cobertura do prédio. Estão radiantes com as aquisições. As chaves seriam entregues na semana seguinte.>
“Todo mundo muito feliz, sabe? Uma alegria só”. São 18h30 de sábado, meia hora depois. O comprador do 203 já está na casa de parentes, a alguns quilômetros dali. O celular toca. Alguém avisa que o prédio acaba de virar uma montanha de nada. A felicidade agora é um misto de desespero e alívio. Quando o edifício desabou no início da noite, os três mortos e dois feridos pareciam os números finais da tragédia. Mas, havia mais sob o entulho. Soterrados pela negligência e irresponsabilidade, os sonhos de moradia de outras 15 famílias também terminaram debaixo da montanha de concreto, vigas de ferro e pedaços de cimento e tijolo.>
SOBREVIVENTES Personagens de um desastre que poderia ter sido muito maior, alguns dos novos proprietários deixaram o local minutos antes de tudo ir ao chão. A essa altura, pode-se considerá-los sobreviventes. Sobreviventes e sem-teto. “É difícil de acreditar que tudo estava de pé meia hora antes de a gente sair de lá. Isso é uma loucura”, desespera-se o homem, sem seidentificar.>
Ontem, retornavam ao cenário de destruição para ver com os próprios olhos. O representante de vendas Antônio Carlos Pereira, 65 anos, se aproximou da ribanceira que o separava da imensa cratera. “Deus do céu. O prédio estava de pé até dois dias atrás”. Ele se desfez de um imóvel para finalmente ter um apartamento novo. Trocou a casa, novalor de R$ 70 mil, pelo pagamento de mais de 90% da entrada. Transferiu a quantia direto para a Marques Lima Construções Ltda. Deu mais R$ 10 mil restantes. “Só faltava receber as chaves?”.>
Vizinhos e pessoas que investiram no imóvel observam local do desabamento>
TRISTEZA E ALÍVIO No apartamento 303, do autônomo Gilmar Teixeira, 42 anos, ainda restavam os pisos. Queria de qualidade melhor que os originais. Foi ao local no sábado apenas para deixar os porcelanatos. “Saí daqui na maior felicidade. Depois dos pisos, não faltava mais nada”. Os sentimentos eram contraditórios. Gilmar estava até conformado para quem viu R$ 90 mil investidos virarem pó. “O importante é estar vivo. Imagine se eu estou lá dentro com minha família”. Gilmar vendeu um imóvel no Vale dos Lagos por R$ 70 mil. No último ano, conseguiu pagar os outros R$ 20 mil pelo apartamento, que ficava na cobertura. Tem pago R$ 550 de aluguel nos últimos meses. Vai continuar pagando. >
O curioso é que, por conta da aquisição de Gilmar, outras duas famílias resolveram comprar apartamentos no mesmo prédio. “Meu cunhado e minha cunhada estão na mesma situação”. Há ainda outro motivo para acreditar que a tragédia seria ainda maior. Os compradores dos apartamentos deveriam já estar ocupando o imóvel desde maio de 2010, prazo inicial para a entrega das chaves. O término da obra foi protelado também nos meses seguintes. “Eles marcaram primeiro para junho e depois para julho. Prometeram que agora não teria mais adiamentos”, conta outro comprador, que preferiu não se identificar. A aflição é geral. Um outro proprietário, que falava ao CORREIO por telefone, chegou a desmaiar quando perguntado sobre o que sentiu aover a montanha de entulho.Iria morar no 201.>
Pelo sonho da casa própria, vendeu um terreno e juntou mais algumas economias. Da mesma forma, vinha morando de aluguel à espera da entrega das chaves. “Onde vou colocar minha família?”,perguntou, antes do mal súbito. Nenhum dos moradores relatou ter visto qualquer problema. Não havia rachadura, tampouco infiltrações. Tanto o Guaratinga quanto a construtoraresponsável só recebiam elogios dos futuros moradores e vizinhos.>
A surpresa foi grande quando souberam que a obra não tinha sequer alvará. O dono da empresa, de prenome Silvio, era tido como responsável. “Mostrava toda a papelada pra gente. Um sujeito sério, com boas relações”, disse Antônio de Oliveira, dono de um apartamento. O Guaratinga era um empreendimento de classe média. Os 16 apartamentos, entre dois e três quartos, eram divididos em três por andar. Três pavimentos ficavam acima do térreo e das garagens. Outros três andares foram construídos abaixo do térreo. De todos os apartamentos, restava apenas um para ser vendido. A maioria dos que seriam entregues estava 100% paga.>
Escombros invadem casa Duas semanas na casa recém-construída e a sala de estar se transformou num monte de entulho. O carro, um Renalt Logan zero, virou ferro-velho. A família do servidor público Adilson Chaves saiu ilesa, mas o susto foi grande. A residência fica logo ao lado da casa em que duas pessoas morreram, e que ficou completamente destruída com os escombros. Pai e mãe estavam no quintal. Os filhos na sala de televisão. Foi por pouco. “Foi desesperador. Vendo a situação dos vizinhos, a gente ficou no lucro”, disse Adilson.>
O servidor Adelson na sala de sua casa invadida pelos destroços do edifício>
Dois pedreiros que trabalharam na obra do prédio disseram ter saído do imóvel minutos antes do desabamento. Francisco da Cruz Cerqueira, 46, e Cristiano Gonçalves, 32, contam que até acompanharam a visita dos futuros moradores e participaram de uma reunião com o encarregado. Ainda tentaram, em vão, avisar ao colega Renildo Gomes Miranda, que morreu sob os escombros. “A gente ouviu os estalos e começamos a gritar. Não teve jeito porque ele tava assistindo televisão e as janelas estavam fechadas”.>
Houve saques no início da manhã. Moradores subiram na montanha de entulho e recuperaram roupas, brinquedos e restos de eletrodomésticos. A polícia foi chamada e afastou os saqueadores.>
‘Eu quero é minha mãe’, diz garota–Você está precisando de alguma coisa? Perguntou uma mulher na enfermaria. –Eu quero é minha mãe. Se você não pode trazer, não quero nada, respondeu Cecília Santos Moura, 7 anos, uma das vítimas da tragédia de Pernambués. Ela e o irmão, André Santos Moura, 9 anos, estão internados na pediatria do HGE.>
“As crianças souberam da morte da mãe hoje pela manhã (ontem). O pai delas contou antes de viajar”, disse a recepcionista Elaine de Araújo Moura, 30 anos, prima das crianças. Pai de Cecília e André, o chefe-de-obra Eleduardo Sampaio Moura viajou às pressas para o enterro da mulher, Nívea Maria Moura, sepultada ontem à tarde em Gavião, a 245 quilômetros de Salvador. Elaine disse que a tragédia deixou a família muito abalada. “Ainda estamos juntando forças para superar tudo isso. Afinal, foram duas mortes”. Além de Nívea, morreu também o sobrinho Caio Anunciação Moura, 20. O jovem foi enterrado no domingo, em Araci. Cecília sofreu fratura exposta no dedo do pé direito e André teve escoriações. O garoto deve deixar hoje a unidade. Os dois serão levados para Gavião, onde vão morar com o pai e avós.>
Sucom e Crea alertaram sobre riscosTanto a Superintendência de Ordenamento e Uso do Solo do Município (Sucom) quanto o Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura (Crea) notificaram a empresa responsável pela construção do Edifício Guaratinga antes do desabamento. O próprio superintendente da Sucom, Cláudio Silva, informou que a obra foi notificada três vezes, a última no dia 23 de junho, para que fosse paralisada.>
Tudo porque o projeto previa a ocupação de 534 metros do terreno, quando o permitido para aquelas condições de solo era de 415 metros. “Isso criou um sobrepeso no terreno. Construíram de forma clandestina, nos finais de semana”, diz Cláudio Silva. Segundo ele, a empresa chegou a dar entrada em dois pedidos de revisão de alvará, mas ambos foram indeferidos. Cláudio Silva garantiu ainda que, na entrega dos imóveis, não seria concedido o habite-se, documento concedido que autoriza a ocupação.>
Em nota, o Crea informou que abriu um processo administrativo para apurar as responsabilidades dos profissionais envolvidos na obra. A nota diz ainda que no dia 12 de junho, o conselho notificou a empresa “que se encontrava em situação irregular por falta de registro”. Moradores de Pernambués informam que há outros imóveis na região construídos pela empresa.Um deles seria o edifício Francisco Alves, que fica a 20 metros do prédio que desabou. Mas, a Sucom informou que não há qualquer outra licença para a Marques Lima Ltda.>