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Quem são os anônimos que assistem ao sobe e desce de aviões no aeroporto

No Luís Eduardo Magalhães, dezenas deles todos os dias se colocam no estacionamento ou próximo a uma grade que os separa da pista

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  • Da Redação

Publicado em 10 de novembro de 2013 às 08:48

 - Atualizado há 3 anos

Alexandre Lyrioalexandre.lyrio@redebahia.com.br

Assim como passam despercebidos o faxineiro que limpa os vidros do portão de embarque, o homem que coloca as malas nas esteiras e o outro que junta carrinhos de bagagens, ele também quase não é notado. Talvez você nunca o tenha visto, mas o funcionário público Marcos Carvalho, 42 anos, é figura assídua no Aeroporto Internacional Luís Eduardo Magalhães. O que ele faz? Tira fotos de aviões.

Todas as semanas, uma ou duas vezes, Marcos separa várias horas da sua tarde, vai até o aeroporto e se coloca em uma posição estratégica, normalmente no andar de cima do estacionamento. Entre um cigarro e outro, usa sua Cannon T3i para fazer registros de pousos e decolagens. Faz isso há pelo menos seis anos.

Marcos talvez seja o símbolo maior de um tipo de ser humano que sempre existiu, e, enquanto houver aeroporto, sempre vai existir. Por hobby, paixão, divertimento ou por qualquer viagem dessas, esses anônimos passam o tempo assistindo ao sobe e desce de aviões no aeroporto.

No Luís Eduardo Magalhães, dezenas deles todos os dias se colocam no estacionamento ou próximo a uma grade que os separa da pista, na rampa de saída dos carros que atravessam o embarque. A grade estabelece a distância, mas não impede que muita gente fique hipnotizada pelo sobe e desce dos aviões no aeroporto de Salvador

Tem gente que sai de bairros longínquos, muitas vezes do interior do estado, para acompanhar o barulhento balé aéreo. No caso de Marcos, mais que apaixonado por aviação, ele é colecionador de fotos de avião.    O funcionário público tem um HD externo de 500 gigas só com fotos de aviões. Pelo menos 300 delas são de aeronaves com plotagens não repetidas. “Hoje, vim pegar o avião da Gol em comemoração aos 10 anos e o TAM plotado de Outubro Rosa”, explicou Marcos, que tem um aplicativo de iphone que aponta os voos “diferentes” que estão para chegar. “Mas, às vezes, venho na cega e ganho um presente”, revela. 

Família Aos sábados e, principalmente aos domingos, a grade que serve de mirante fica cheia. Ver aviões é programa de família. Algumas nunca chegaram perto de uma aeronave, quem dirá voar.

O vendedor Daniel Aragão, 25, morava com mulher e cinco filhos em Araguaiana, no interior do Tocantins. Veio trabalhar em Salvador e, como primeiro passeio em família, levou todo mundo para o aeroporto. “A gente só via avião beeeeeeem de longe. Aí na primeira chance vim conhecer e mostrar para eles”.   Mas, o que os fascina? Por que essa paixão? Para a maioria, a explicação é simples. Na cabeça de muita gente, por mais que a tecnologia avance, voar é para os pássaros. Então, o avião é visto quase como um ser vivo.

“Olhe aquilo ali! Olhe o tamanho daquela criança. Como um bicho desses consegue voar? Só Deus! Só Deus!”. A empolgação é do auxiliar de cozinha Maurício dos Santos, 28. Ele praticamente reverencia um Boeing que pousa no aeroporto de Salvador. Vibra a cada jumbo que sobe ou teco-teco que desce. Maurício faz o registro do monstro que voa e sonha em, no futuro, assumir o comando das aeronaves

Maurício chega a dizer que sua atual atividade é temporária. “Um dia vou estar ali dentro. Mas não é pra ser passageiro, não. Quero ser o piloto. Nessa vida tudo se aprende, né?”, vislumbra. Sua paixão vem da infância. “Quando eu era menino, pegava dois palitos de fósforo e enfiava nas frutas. Um palito era a asa e o outro a cauda. Na areia fazia a pista com cacos de telha e bloco”.  

Ronco O motoboy Bruno Almeida, 27, até gosta de ver aquele monstro enorme voar. Mas vai mesmo é atrás do seu ronco. O barulho das turbinas de sua Honda Bross de 150cc não supre a paixão por motores. “Nunca voei. Quer dizer, só voo rasteiro. Minha bichinha aqui anda bem, mas aquele motor ali faz a gente tremer”, disse, dando dois tapas no tanque da moto e depois apontando para a pista onde um Varig se preparava para ganhar o céu.

O sujeito pode estar ali obrigado, aguardando o voo que só sai dentro de duas horas, ou porque a paixão pela aviação está no sangue. O fato é que, quando o bichão aponta no horizonte para descer ou aumentar o giro dos motores para subir, ninguém fala mais nada. “Emocionante”, resume em uma palavra o guarda municipal Wagner Nascimento, 29 anos. Ele saiu de Jaguaquara, a 300 km de Salvador, para mostrar os aviões à esposa e à filha Sara,  7 anos. “Ela veio fazer uma cirurgia no Santa Izabel e aproveitamos para conhecer os aviões”.

Aliás, impressionante a quantidade de crianças levadas pelos pais. Ana Karla Gomes, 28, saiu de Paripe com o pequeno Eudes,  3 anos. “Não sei por que elas alimentam esse sonho de ver avião. Deve ser porque voar é mágico”, diz Ana Karla. Entre os mais fascinados, claro, há os entendidos no assunto. O carreteiro Antônio Carlos Silva, 45, deu uma dura neste repórter quando admiti o medo de voar. “Besteira. Tem avião aí com 60 anos de aviação que nunca teve acidente. O piloto desses tem mais de 8 mil horas de voo”.

No bate-papo sobre segurança surgem logo termos técnicos. “Voar é seguro porque os sistemas são redundantes. Se houver pane em um equipamento, há outro para fazer a mesma função”, confirma o fotógrafo Marcos. “É por isso que se diz que avião não cai, é jogado no chão. O erro normalmente é humano”, completa o administrador Roberto Souza Araújo, 40 anos. Mas, segundo nossos observadores de voo, outro dia quase acontece uma tragédia. “Teve uma vez que a torre autorizou uma decolagem na hora que o outro avião vinha descendo. Aí o que pousava arremeteu, subiu novamente”, lembra Antônio Carlos.

É a prova de que dali, da grade que os separa da pista, esses anônimos veem tudo. Os outros é que não enxergam eles.