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Agência Einstein
Publicado em 1 de maio de 2026 às 10:36
Ter a pressão arterial mais alta já nos primeiros dias de vida pode aumentar significativamente o risco de a criança desenvolver hipertensão na infância. Em um estudo publicado em janeiro no JAMA Network Open, bebês com níveis pressóricos mais elevados ao nascer apresentaram risco até 3,75 vezes maior de desenvolver hipertensão na idade escolar em comparação aos que tinham valores normais. >
Para chegar aos resultados, pesquisadores acompanharam 500 crianças saudáveis, integrantes da coorte Environmental Influence on Aging in Early Life (ENVIRONAGE), desde o nascimento até os 11 anos de idade. A pressão arterial foi medida em três momentos: nos primeiros três dias de vida, entre os 4 e 6 anos e novamente entre os 9 e 11 anos. O objetivo era observar como a pressão arterial evolui ao longo do tempo e se valores mais altos no início da vida se associariam a maior risco futuro.>
A constatação é de que, sim, a pressão tende a “acompanhar” a criança ao longo do crescimento, fenômeno conhecido como tracking. Significa que quem tem níveis mais elevados ao nascer tem maior probabilidade de permanecer em faixas mais altas nos anos seguintes. >
Idosos precisam medir pressão arterial
Os pesquisadores identificaram três padrões de evolução da pressão arterial: cerca de 80% das crianças mantiveram um padrão semelhante ao longo do tempo; um grupo apresentou aumento acelerado da pressão, passando a níveis mais elevados; e uma parcela reduziu seus níveis. O estudo aponta que mesmo crianças com pressão inicialmente mais baixa puderam apresentar aumento acelerado. Os pesquisadores consideraram fatores como índice de massa corporal (IMC) da criança, peso ao nascer, idade gestacional e características maternas, sugerindo que a trajetória pressórica é multifatorial.>
De acordo com o cardiologista pediátrico Gustavo Foronda, do Einstein Hospital Israelita, o estudo é relevante por ser o primeiro a acompanhar a trajetória da pressão arterial desde o nascimento até a idade escolar em uma coorte populacional de crianças saudáveis, sem comorbidade. “Ele demonstra que pequenas variações pressóricas muito precoces podem ter impacto real anos depois”, resume.>
Vale lembrar que, nos pequenos, a pressão alta não é definida pelos mesmos critérios usados em adultos. “Na infância, a classificação é feita de acordo com idade, sexo e altura, por meio de percentis, seguindo as diretrizes da Academia Americana de Pediatria. Não existe um valor fixo”, explica Foronda. “O diagnóstico exige aferições padronizadas, repetidas, com manguito adequado e técnica correta.”>
Embora a medição da pressão arterial ao nascimento não seja rotina, o estudo sugere que o monitoramento precoce pode ser importante mesmo em crianças consideradas saudáveis. “Na prática clínica, muitas vezes não valorizamos pequenas variações pressóricas em fases muito precoces”, comenta o cardiologista. A avaliação inicial pode ser feita pelo pediatra e, se houver alteração persistente ou necessidade de investigação complementar, aí sim a criança deve ser encaminhada a um cardiologista, por exemplo.>
Fator de risco modificável>
Apesar dos achados relevantes, o estudo é observacional e não avaliou intervenções específicas nos pequenos. E deve-se levar em conta que a hipertensão é um fator de risco modificável. “Se a pressão arterial já mostrar tendência a se manter alta desde cedo, isso indica que intervenções precoces e mudanças de estilo de vida podem ter potencial de modificar essa trajetória”, observa o médico do Einstein. Controle adequado do peso, alimentação equilibrada, prática de atividade física e acompanhamento regular são medidas que podem ajudar.>
As doenças cardiovasculares seguem como principal causa de morte no mundo, responsáveis por quase 20 milhões de óbitos anuais, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Há evidências de que pressão elevada na infância está associada a hipertensão persistente, rigidez arterial e hipertrofia ventricular esquerda na idade adulta. >
“Embora o infarto e o AVC sejam eventos tipicamente associados a adultos, a hipertensão é um precursor silencioso. Este estudo mostra que a trajetória pressórica começa cedo. Identificar e acompanhar desde o nascimento pode ser uma estratégia importante para reduzir o risco cardiovascular ao longo da vida”, conclui Gustavo Foronda.>