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Thais Borges
Publicado em 25 de maio de 2026 às 05:00
Entre as crianças, falta de contato visual, comportamento introspectivo, postura de medo. Lesões ou desconfortos em algumas regiões do corpo. Entre as mulheres, dor pélvica crônica, infecções de repetição, crises de ansiedade, insônia, retração e também falta de contato visual. Nem sempre a violência física e psicológica contra crianças e mulheres deixa sinais visíveis, mas esses são alguns indicativos que podem ser percebidos por profissionais de saúde durante consultas médicas e que indicam que algo pode estar errado. >
Entre janeiro e abril de 2026, a Bahia recebeu 3.291 denúncias de violência contra a mulher por meio do Ligue 180, canal do governo federal. Três a cada quatro denúncias (2.466) foram de situações que ocorrem na casa da vítima ou da vítima e do agressor. O número nesse período deste ano já representa 40% das ocorrências do ano passado, quando foram contabilizadas 8549 denúncias. >
Já o Disque 100, do Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania, registrou 6.574 denúncias de violência contra criança ou adolescente na Bahia, de janeiro até o último dia 18. Além disso, no mesmo período, foram quase 40 mil ocorrências de violações de direitos de crianças e adolescentes no estado. Neste mês, inclusive, é instituída a campanha Maio Laranja, que chama atenção para o combate ao abuso e à exploração sexual de crianças e adolescentes. >
Nestes contextos, a atuação dos profissionais de saúde pode ser determinante para o desfecho, uma vez que existe obrigação legal de comunicar a suspeita de violência às autoridades, no caso de crianças e adolescentes. >
“A gente não precisa ter certeza. Se tem suspeita, somos obrigados legalmente a denunciar”, enfatiza a médica pediatra Raquel Simbalista, professora da Afya Salvador, referindo-se ao Conselho Tutelar da região em que o médico estiver atendendo. “Tudo é feito em sigilo e o nome de ninguém é divulgado. A gente também pode observar se aquela família está necessitando de suporte psicológico, para encaminhar a um psicólogo”, explica. >
Crianças>
De acordo com ela, o comportamento de crianças e adolescentes em situação de violência depende da idade e do contexto familiar da vítima. Outro aspecto que pode influenciar é o acompanhante dessa criança ou adolescente - se é alguém que tem intenção de pedir ajuda ou não, ou mesmo se essa pessoa é a autora da violência. >
“A gente orienta sempre aos alunos, tanto no terceiro quanto quarto semestre, a observar comportamento. São coisas sutis, como a falta de cuidado visual, porque mesmo quando a criança está olhando feio para a gente, ela faz contato. Comportamentos muito introspectivos, timidez excessiva, aquela postura de medo são alguns comportamentos mais universais”, exemplifica. >
Durante a anamnese, é possível também perceber discrepâncias nos relatos. Se uma criança tem lesões em locais estranhos, como virilha, nádegas e pescoço, pode ser algo fora do padrão. Existem lesões compatíveis com a faixa etária e outras que destoam. “É muito comum um menino de seis, sete anos, aparecer cheio de hematomas na canela, porque joga futebol e não tem lesões em outro lugar, por exemplo. Outra coisa é quando a pessoa quer esconder a lesão”, afirma a pediatra. >
Segundo a psicóloga Andrea Beltran, o fato de que, em grande parte dos casos, o agressor faz parte do círculo de convivência da criança dificulta mais a identificação e a denúncia. “A criança pode sentir medo, culpa, confusão emocional e até receio de desestruturar a família caso fale sobre o assunto”, diz.>
Assim, nem sempre haverá um relato direto, especialmente entre crianças menores que não têm repertório emocional ou linguagem suficiente para contar o que viveram de forma clara. “Por isso, a escuta acolhedora e a observação constante dos adultos são fundamentais. Quando a criança percebe segurança e ausência de julgamento, ela tende a se sentir mais protegida para falar”, acrescenta a psicóloga. >
Mesmo entre os pacientes mais jovens, também é possível identificar Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs). Enquanto a violência física pode gerar hemorragias, fraturas e até quadros cirúrgicos, a violência sexual pode ser percebida ao examinar a criança e encontrar lesões de doenças como sífilis e condiloma (verruga genital), por exemplo. >
Em crianças e adolescentes, as situações de violência vão demandar sensibilidade, responsabilidade e preparo técnico dos profissionais, como reforça a médica ginecologista Ludmila Andrade, professora de Medicina da Afya Salvador. Isso porque há muitos sinais não explícitos da violência e que podem vir acompanhados também de indícios de automutilação e de sexualização infantil. >
“Os sinais mais fortes costumam ser emocionais: um retraimento intenso, ansiedade, mudanças bruscas de comportamento, a hipersexualização, dificuldade extrema de falar sobre o próprio corpo e reações que são desproporcionais ao toque ou mesmo aproximação. Precisamos observar muito a dinâmica familiar, se a criança demonstra algum tipo de medo com determinada acompanhante, se evitar falar na presença desse acompanhante", afirma.>
Mulheres>
Para a ginecologista Ludmila Andrade, a situação mais frequente no consultório, no caso das mulheres, é perceber a violência psicológica e emocional, ainda que outras situações - como a violência sexual - também sejam recorrentes, mesmo em relacionamentos que aparentam ser ‘normais’. “É muito frequente encontrar mulheres que vivem sob controle excessivo do parceiro, situações de humilhação constante, manipulação emocional, isolamento social, excesso de vigilância sobre celular, diminuição de autoestima, vigilância financeira e que fazem com que essas mulheres vivam em situação de culpa e medo constante". >
O abuso sexual também existe em relacionamentos. Entre as pacientes, há aquelas que acreditam que são obrigadas a ter relações sexuais mesmo sem vontade, com o objetivo de evitar conflito. Segundo a médica, isso traz consequências para a saúde física, a exemplo de muita dor na relação, perda do desejo, aumento de ansiedade, insônia e sofrimento emocional. >
Sintomas recorrentes sem causa orgânica proporcional também podem ser sinais a serem observados. Esse é o caso de dor pélvica intensa, infecções de repetição, tensão muscular, excesso de tensão, alterações menstruais e queixas sexuais. >
“No caso dos adolescentes, vemos ainda casos relacionados a vulnerabilidade, relacionamentos abusivos precoces e a exposição a situações de violência psicológica pelas redes sociais e por alguns grupos sociais. A violência raramente começa pela agressão física. Os sintomas começam sutis e vão piorando progressivamente, com o passar do tempo", pontua Ludmila.>