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De soros contra veneno de cobra à IA: como a diversidade pode revolucionar a ciência e a saúde

Pesquisadores defendem que populações miscigenadas, biodiversidade e soluções fora do eixo Europa-EUA podem acelerar descobertas médicas e tecnológicas no mundo

  • Foto do(a) author(a) Mariana Rios
  • Foto do(a) author(a) Agência Einstein
  • Mariana Rios

  • Agência Einstein

Publicado em 7 de maio de 2026 às 14:49

Edital é exclusivo para pesquisadores negros e indígenas
Edital é exclusivo para pesquisadores negros e indígenas Crédito: Divulgação

Durante muito tempo, a América Latina foi vista mais como fornecedora de matéria-prima do que de conhecimento científico. Mas pesquisadores da região querem mudar essa lógica — e dizem que o continente tem tudo para deixar de ser “figurante” e assumir papel central na ciência global.

A aposta vai da biodiversidade e da população multiétnica ao avanço da inteligência artificial na saúde, em um movimento que busca transformar desafios locais em soluções para o mundo.

Muito antes de inteligência artificial, medicina personalizada ou big data virarem moda, um brasileiro já mostrava que inovação científica também podia nascer ao sul do Equador. No início do século 20, o médico Vital Brazil revolucionou a medicina ao criar o primeiro soro específico contra venenos de diferentes espécies de serpentes — e ajudou a salvar vidas no mundo inteiro.

Vital Brazil: médico sanitarista e cientista que fundou o Butantan por Instituto Butatan

A descoberta no Instituto Butantan abriu caminho para pesquisas sobre imunidade, vacinas e terapias com anticorpos. E virou um símbolo de algo que pesquisadores latino-americanos tentam provar até hoje: a região também pode liderar soluções globais.

Mais de um século depois, a ciência latino-americana cresceu — embora ainda em ritmo desigual em comparação a potências como China, Estados Unidos e União Europeia. Segundo dados da Organização dos Estados Americanos (OEA) e da Unesco, o número de pesquisadores na região aumentou 44% entre 2014 e 2023, passando de 297 mil para cerca de 429 mil profissionais.

Ainda assim, os números seguem modestos diante do cenário global. Na área da saúde, por exemplo, países latino-americanos e caribenhos respondem por menos de 1% da produção científica mundial sobre atenção primária.

Ciência 'com sotaque local'

Para especialistas, isso não significa falta de relevância — muito pelo contrário.

“A ciência médica é bem forte na América Latina”, afirma a pesquisadora argentina Juliana Cassataro, do Conselho Nacional de Investigações Científicas e Técnicas da Argentina. Segundo ela, universidades públicas da região continuam formando profissionais altamente qualificados em medicina, biotecnologia e pesquisa.

O diferencial latino-americano estaria justamente na capacidade de estudar problemas que muitas vezes não são prioridade para países ricos. Enquanto o Brasil concentra pesquisas em câncer de mama e câncer de colo do útero, o México investe em obesidade e transtornos nutricionais. Já a Colômbia aposta na integração entre universidades e atenção básica em saúde.

Para pesquisadores, essa “ciência com sotaque local” pode ser justamente o caminho para ampliar o impacto internacional da região.

A professora Carina Pinheiro (no centro) é coordenadora do LAA. Os pesquisadores inventores das patentes BTH2, de imunoterapia para alergia a Blomia tropicalis, Eduardo Santos da Silva, e da patente para imunoterapia à alergia ao ácaro Dermatophagoides pteronyssinus, Antônio Márcio Fernandes, fazem parte da equipe. por Sora Maia/CORREIO

O maior laboratório somos nós

Outro trunfo latino-americano está na diversidade da população. Pesquisadores defendem que a miscigenação e a variedade genética da região representam uma oportunidade rara para estudos médicos e desenvolvimento de novas tecnologias.

“O principal ativo somos nós mesmos”, resumiu o cardiologista Pedro Lemos durante o evento Vozes da Ciência Latino-americana, promovido nesta semana em São Paulo.

Hoje, grande parte dos estudos genéticos usados na medicina mundial ainda é baseada predominantemente em populações europeias. Isso cria distorções e limita a eficácia de tratamentos em outros grupos étnicos.

“O Brasil tem uma população multiétnica que falta nos grandes estudos originados na Europa e nos Estados Unidos”, destacou o médico Peter Libby, da Universidade Harvard.

Inteligência artificial 'modo latino-americano'

A inteligência artificial aparece como uma das apostas mais promissoras para acelerar a participação da América Latina na ciência global — mas de um jeito próprio.

Pesquisadores defendem o desenvolvimento de uma “IA frugal”: sistemas mais baratos, simples e adaptados a países com menos infraestrutura tecnológica. A ideia é criar soluções capazes de ajudar médicos a analisar exames, detectar doenças mais cedo e apoiar decisões clínicas sem depender de grandes estruturas.

Na prática, essas ferramentas já começam a ser usadas em áreas como oncologia, cardiologia e radiologia.

Mas especialistas alertam: se os sistemas forem treinados apenas com dados de países do Hemisfério Norte, os resultados podem não funcionar adequadamente para populações latino-americanas.

Cooperar para crescer

Apesar dos avanços, pesquisadores reconhecem que a região ainda trabalha de forma fragmentada. Há aumento nas colaborações internacionais em estudos clínicos, mas pouca integração entre os próprios países latino-americanos em pesquisas experimentais e translacionais.

Para cientistas, compartilhar recursos, dados e infraestrutura pode ser o passo necessário para acelerar descobertas e aumentar a presença da região no cenário científico mundial.

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Pesquisa