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Perla Ribeiro
Publicado em 9 de maio de 2026 às 07:00
Problemas de saúde relacionados a dores estão entre os principais motivos de afastamento do trabalho no Brasil. Em 2025, só os casos relacionados à coluna somaram mais de 237 mil concessões de benefício por incapacidade temporária, segundo dados do Ministério da Previdência Social. Mesmo com esse impacto, sintomas recorrentes ainda são frequentemente ignorados ou tratados apenas como incômodos passageiros. >
Para a médica especialista Amelie Falconi, coordenadora da pós-graduação em Medicina da Dor da Sanar Pós, a dor crônica ainda é frequentemente subestimada e tratada apenas como um sintoma isolado. Segundo ela, o quadro passa a ser considerado crônico quando persiste ou recorre por mais de três meses.>
Dor de cabeça pode ser sintoma de graves doenças
Apesar da definição clínica considerar esse período, a especialista ressalta que o tempo não é o único critério observado. “Mesmo antes disso, a dor já merece investigação quando foge do comportamento esperado para um quadro agudo comum: quando é desproporcional, recorrente, progressiva, incapacitante ou quando começa a interferir no sono, no trabalho, no humor e nas atividades habituais”, afirma.>
Além da duração e da frequência, o padrão e os sinais associados também ajudam a indicar quando é necessário buscar avaliação médica. Na prática, alguns sintomas exigem atenção mais imediata, mesmo em quadros recentes. Dor que piora progressivamente, desperta o paciente durante a noite ou vem acompanhada de febre, perda de força, alterações de sensibilidade ou emagrecimento inexplicado são indicativos de que a avaliação médica não deve ser adiada.>
Entre os quadros mais negligenciados estão a dor lombar, a cervicalgia, cefaleias recorrentes e incômodos articulares, especialmente em joelhos e ombros. Segundo a especialista, a frequência desses sintomas contribui para sua banalização. “As pessoas também tendem a ignorar manifestações que começam de forma intermitente e tolerável, porque elas permitem que a rotina siga aparentemente preservada”, diz a médica.>
Esse comportamento pode levar à evolução do quadro. “O principal risco de tratar apenas de forma pontual é confundir alívio temporário com resolução do problema”, afirma Falconi. Ao recorrer apenas a analgésicos, sem investigação da causa, a origem pode permanecer desconhecida e favorecer sua persistência.>
Esse atraso na investigação pode tornar o tratamento mais complexo e ampliar o impacto na qualidade de vida. Com o tempo, o quadro pode deixar de ser apenas um sinal de lesão e passar a envolver mecanismos mais complexos do organismo. “Em muitos casos, o sintoma deixa de ser apenas um marcador de lesão tecidual e passa a envolver processos de sensibilização, em que o organismo se torna mais responsivo a estímulos dolorosos”, explica.>
Além disso, fatores como sedentarismo, longos períodos em frente a telas e estresse crônico contribuem para o agravamento desses quadros, ao favorecer sobrecarga mecânica, tensão muscular e piora da qualidade do sono. Para a especialista, o maior risco está na normalização do sintoma. “Dor constante não deve ser tratada como algo normal. É um sinal clínico que precisa ser investigado”, conclui.>